• Movimento: Cinemática, a caracterização do movimento

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O estudo do movi­mento se inicia pela sua obser­va­ção e des­cri­ção, e o ensino do mesmo não é dife­rente. A pri­meira matéria que estu­da­mos na física do movi­mento é a cine­má­tica (do grego antigo kinema, movi­mento), sub-área da mecâ­nica que trata da des­cri­ção dos movi­men­tos de um ponto, corpo ou con­junto de corpos, sem inte­res­sar as causas do movimento.

Apesar de a cine­má­tica parecer simples, quando com­pa­rada a outras áreas da mecâ­nica clás­sica, ela é de extrema impor­tân­cia. Sem a obser­va­ção e des­cri­ção cri­te­ri­osa da natu­reza, não se faz ciência. Podemos dizer, então, que sem a cine­má­tica não se estuda mecânica.

Mas se esta área não lida com as causas do movi­mento, o que se utiliza para descrevê-lo?

Conceitos básicos da cinemática

A des­cri­ção da cine­má­tica se dá de forma quase que pura­mente mate­má­tica. A situ­a­ção pro­blema é defi­nida a partir da sua geo­me­tria e se resolve a partir da análise desta, através da evo­lu­ção de variá­veis de posição através do tempo.

As prin­ci­pais variá­veis cine­má­ti­cas são, por­tanto, variá­veis de posição. Para defini-las, é neces­sá­rio definir um refe­ren­cial, ou seja, um “ponto de vista” ou obser­va­dor. Este obser­va­dor poderá definir para um corpo suas variá­veis de movi­mento: posição, velo­ci­dade, ace­le­ra­ção et cetera.

Referencial

O con­ceito do refe­ren­cial é impor­tante porque, as variá­veis serão regis­tra­das de manei­ras dife­ren­tes por obser­va­do­res dife­ren­tes: imagine que dois carros indo em sen­ti­dos opostos de uma via, com velo­ci­da­des cons­tan­tes. Para o refe­ren­cial de cada moto­rista, seu carro está parado, enquanto o outro vem de encon­tro a ele. No entanto, é comum tomar­mos como refe­ren­cial padrão algo está­tico (ou iner­cial), como a rua na qual os carros se des­lo­cam. Conhe­cendo geo­me­tria e cine­má­tica, podemos des­cre­ver o mesmo cenário sob diver­sas óticas a partir de trans­for­ma­ções eucli­di­a­nas, uti­li­zando o refe­ren­cial que nos é mais rele­vante ou que mais faci­lita a reso­lu­ção das contas. Pode parecer com­pli­cado, mas os moto­ris­tas fazem estas trans­for­ma­ções intui­ti­va­mente, sem nem saber que as estão fazendo, ou até mesmo sem saber fazê-las no papel.

Posição

A  posição é a pri­meira variá­vel que defi­ni­mos no estudo do movi­mento. É ela que obser­va­mos ao longo do tempo e é a partir dela que as outras são defi­ni­das. Vol­tando ao exemplo dos carros, podemos definir o refe­ren­cial a partir de um poste de luz; os carros estão ini­ci­al­mente posi­ci­o­na­dos na direção oeste-leste (na qual o sentido leste é posi­tivo), o carro A está 10 metros a oeste do poste, enquanto o B  está 20 metros a leste. A partir desta des­cri­ção sabemos exa­ta­mente onde os carros estão, se alguma destas infor­ma­ções não fosse dada, não tería­mos a posição bem defi­nida, pois ela é uma gran­deza veto­rial, ou seja, tem direção, sentido e magnitude.

Como já foi dito antes, na física, des­cre­ve­mos a natu­reza uti­li­zando a lin­gua­gem mate­má­tica. A mesma des­cri­ção acima pode ser escrita da seguinte forma: Xa(0s)=-10m, Xb(0s)=20m. O que aquele 0s sig­ni­fica? É a mar­ca­ção do tempo. Lembre-se que nos inte­ressa a des­cri­ção da posição através do tempo. Mas como des­cre­ver a sua variação?

Figura 1. Carros A e B, em t=0 s.
Velocidade

A velo­ci­dade é defi­nida como a vari­a­ção da posição em relação ao tempo, medida em metros por segundo no SI, mas coti­di­a­na­mente uti­li­zada em quilô­me­tros por hora. Não é neces­sá­rio decorar fór­mu­las para lembrar, se você lembrar que os carros se des­lo­cam a “tantos” km/h, basta saber que km é medida de posição ou des­lo­ca­mento e h é medida de tempo e voilá: v=dx/dt, onde d repre­senta vari­a­ção. Assim como a posição, é uma gran­deza veto­rial, com direção (como ver­ti­cal, hori­zon­tal, …), sentido (para que lado) e mag­ni­tude (tamanho e escala).

O con­ceito de velo­ci­dade é bas­tante antigo, mas sua defi­ni­ção con­tem­po­râ­nea tem origem no cálculo dife­ren­cial desen­vol­vido inde­pen­den­te­mente por Newton e Leibniz. Com a defi­ni­ção dos infi­ni­té­si­mos surge o con­ceito de deri­vada (o terror do cálculo), apli­cado à cine­má­tica temos a vari­a­ção da posição em um inter­valo de tempo infi­ni­te­si­mal­mente minús­culo resul­tando na velocidade.

Figura 2. Carros A e B, em t=10 s.
Aceleração

O próximo passo a ser dado é a ace­le­ra­ção. Esta é defi­nida como a vari­a­ção da velo­ci­dade em relação ao tempo, e é medida (no SI) em metros por segundo (velo­ci­dade) a cada segundo (tempo). Pode parecer estra­nho à pri­meira vista, mas se visto com outras uni­da­des este exemplo não assusta tanto: um carro acelera aumen­tando a sua velo­ci­dade em 10 km/h a cada segundo que se passa, ou seja, a cada segundo o carro está 10 km/h mais rápido.

A mate­má­tica por trás da ace­le­ra­ção é a mesma que define a velo­ci­dade, mas ao invés de ser a vari­a­ção da posição em relação ao tempo, é a vari­a­ção da velo­ci­dade em relação ao tempo. O con­ceito de incre­men­tos de velo­ci­dade surgiu apenas no século XII, com uma des­cri­ção similar à atual, mas sem o for­ma­lismo mate­má­tico de Newton. Ele mostra as rela­ções entre ace­le­ra­ção, velo­ci­dade e posição: a pri­meira é deri­vada da segunda, que por sua vez é deri­vada da ter­ceira, todas em relação ao tempo. Por esse motivo, todas elas são gran­de­zas vetoriais.

Esses con­cei­tos são aqueles apre­sen­ta­dos aos alunos de ensino médio e são revi­si­ta­dos por aqueles que se aven­tu­ram nos cursos de física ou enge­nha­ria. A partir deles enten­de­mos por com­pleto modelos simples de movi­mento: o Movi­mento Reti­lí­neo Uni­forme (MRU), no qual não há vari­a­ção de velo­ci­dade, ou seja, a ace­le­ra­ção é nula e a posição do objeto muda cons­tan­te­mente ao longo do tempo (velo­ci­dade cons­tante); o Movi­mento Reti­lí­neo Uni­for­me­mente Variado (MRUV), no qual a ace­le­ra­ção é cons­tante, ou seja, a velo­ci­dade se altera cons­tan­te­mente, desen­ca­de­ando uma alte­ra­ção de posição cuja inten­si­dade varia ao longo do tempo. A mesma des­cri­ção mate­má­tica pode ser uti­li­zada para o Movi­mento Cir­cu­lar Uni­forme (MCU), no entanto, neste modelo a posição não é medida em metros, mas em um ângulo em relação ao refe­ren­cial (em graus ou radi­a­nos), daí pode-se derivar que a velo­ci­dade é medida um ângulo por tempo e assim por diante.

Desconstruindo o Lançamento de Projéteis

Figura 3. Inde­pen­dên­cia de movi­men­tos, pro­jé­teis e queda livre. Imagem cap­tu­rada com luz estro­bos­có­pica regis­trando as posi­ções de duas bolas, uma lançada hori­zon­tal­mente e a outra largada, ao longo do tempo. Perceba que a posição ver­ti­cal das duas é similar, inde­pen­dente do movi­mento hori­zon­tal. Fonte: Roteiro expe­ri­men­tal Pro­jec­tile Motion and Gravity, Hamline Uni­ver­sity Gra­du­ate School of Education.

Defi­ni­dos os con­cei­tos básicos da cine­má­tica, vamos abordar con­cei­tos mais inte­res­san­tes: dimen­si­o­na­li­dade, graus de liber­dade e movi­men­tos com vín­cu­los. Estes con­cei­tos são uti­li­za­dos nas diver­sas áreas da física, mas tem sua origem na cinemática. 

Vamos direto ao seguinte pro­blema: como des­cre­ver um movi­mento de pro­jé­teis? Quando arre­mes­sa­mos uma bola de bas­quete, ela des­creve uma pará­bola. Em um pri­meiro momento, esse movi­mento parece ser difícil de des­cre­ver, mas não é. Podemos esco­lher um refe­ren­cial favo­rá­vel e reduzir o nosso pro­blema. Não basta, no entanto, definir apenas uma direção e sentido, como no exemplo dos carros, neste pro­blema temos movi­men­tos hori­zon­tal e vertical.

Figura 4. AMLEF206: Aparato de Rodas Uni­ver­sal, uti­li­zado nas aulas de enge­nha­ria e cursos téc­ni­cos de mecâ­nica no início do século XX para demons­trar o vínculo entre movi­men­tos­das rodas e pos­sí­veis meca­nis­mos de trans­mis­são de forças.

Perceba que neste pro­blema, podemos ter até três dimen­sões, depen­dendo de como defi­ni­mos o refe­ren­cial. Para evitar a fadiga, podemos per­ce­ber que o pro­blema pode ser redu­zido a duas dimen­sões: ver­ti­cal (do chão ao teto) e hori­zon­tal (do jogador à cesta). Há, por­tanto, dois graus de liber­dade neste sistema: a bola se desloca para cima e para baixo, assim como para a frente. O inte­res­sante é obser­var que, a partir do lan­ça­mento, a bola não sofre nenhuma ace­le­ra­ção além da gra­vi­dade para baixo; por­tanto o pro­blema se reduz de um pro­blema com­plexo a dois simples: um MRU na direção hori­zon­tal e um MRUV na ver­ti­cal. Essa é a inde­pen­dên­cia de movi­men­tos obser­vada por Galileu.

Como esses dois movi­men­tos se dão em relação ao tempo, existe um vínculo entre eles. Por isso é pos­sí­vel para­me­tri­zar as equa­ções, ou seja, fazer alguns truques mate­má­ti­cos. Assim como podemos des­cre­ver a posição hori­zon­tal facil­mente em função do tempo, podemos inver­ter essa função, des­cre­vendo o tempo para qual a bola está em cada posição hori­zon­tal. Inse­rindo este tempo na equação do movi­mento ver­ti­cal, obtemos o movi­mento ver­ti­cal em função da posição hori­zon­tal, redu­zindo a des­cri­ção do pro­blema a “uma linha”, ou seja, tornando‑o uni­di­men­si­o­nal. Esse é o poder dos vín­cu­los, para cada vínculo que temos, podemos reduzir um grau de liber­dade do pro­blema, tor­nando des­cri­ções extre­ma­mente com­ple­xas em solu­ções minimalistas.

Em resumo, há várias formas de des­cre­ver um pro­blema de movi­mento e a cine­má­tica é o estudo que nos ajuda a enten­der os pro­ble­mas, reduzi-los e trans­formá-los. Os con­cei­tos da cine­má­tica ainda são base para diver­sas teorias e téc­ni­cas muito avan­ça­das, além de terem apli­ca­ção direta, espe­ci­al­mente na enge­nha­ria mecâ­nica e robótica.

Tudo isso apenas para des­cre­ver o movi­mento? Sim, e ainda temos muita física pela frente. No próximo artigo falamos da Dinâ­mica, sub-área da mecâ­nica que trata de força e energia, as causas do movimento.

Gabriel Cury Perrone e Laila Berg da Nobrega / Equipe AMLEF 2022

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