• Movimento: Dinâmica, que a Força esteja com você!

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A palavra “dinâ­mica” tem sua origem no grego antigo, dyna­mi­kos, que sig­ni­fica potente, forte. Essa é a palavra que dá nome à sub-área da Mecâ­nica que estuda e des­creve a origem do movi­mento, na forma de forças e ener­gias envol­vi­das. Como já vimos ante­ri­or­mente, as causas do movi­mento foram bas­tante dis­cu­ti­das desde a Física Aris­to­té­lica, mas é a partir de Isaac Newton que temos modelos expli­ca­ti­vos da dinâ­mica que podemos uti­li­zar até hoje.

Leis de Newton

A grande maioria das pessoas já devem ter escu­tado falar ou lido sobre as ‘’Leis de Newton’’. Essas três leis básicas da Dinâ­mica, publi­ca­das em 1687 (em latim), con­ti­nuam sendo extre­ma­mente rele­van­tes e são sus­ten­ta­das por muitos expe­ri­men­tos. As Leis de Newton possuem os seguin­tes enunciados:

  • Lei da Inércia: ‘’Todo corpo con­ti­nua em seu estado de repouso ou de movi­mento uni­forme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças apli­ca­das sobre ele.’’ — tra­du­zindo, se a soma das forças apli­ca­das em um objeto forem nulas (se can­ce­lam), ele tende a manter seu movi­mento, seja em repouso ou numa linha reta com velo­ci­dade cons­tante. Essa lei define o que é um Refe­ren­cial Iner­cial e estru­tura o cenário para a apli­ca­ção das Leis, isto é: os lugares em que essa Lei se veri­fica são os deno­mi­na­dos refe­ren­ci­ais inerciais.
Figura 1: Gar­fi­eld tes­tando o modelo de Newton. Fonte: Texto USP
  • Lei da Dinâ­mica: “A mudança de movi­mento é pro­por­ci­o­nal à força motora impri­mida e é pro­du­zida na direção de linha reta na qual aquela força é apli­cada.” — aqui, Newton chama de movi­mento uma quan­ti­dade que cha­ma­mos Momento Linear (ou quan­ti­dade de movi­mento). Para refe­ren­ci­ais iner­ci­ais sem vari­a­ção da massa, a ace­le­ra­ção ocorre na direção e sentido da força resul­tante do objeto, e é dire­ta­mente pro­por­ci­o­nal ao módulo dessa força, assu­mindo a seguinte relação:

\large \vec{F}= \frac{d\vec{p}}{dt}= \frac{d\left ( m\vec{v} \right )}{dt}= m\frac{d\vec{v}}{dt}= m\vec{a}

  • Lei da Ação e Reação: “A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual inten­si­dade: as ações mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e diri­gi­das em sen­ti­dos opostos.” - ou seja, quando apli­ca­mos uma força a um corpo, ele aplica sobre nós uma força igual e oposta.
Figura 2: Dia­grama das forças envol­vi­das quando duas pessoas se empur­ram. Fonte: Adap­tado de Ben­ja­min Crowell, CC BY-SA 3.0 <Link>, via Wiki­me­dia Commons

Essas Leis esta­be­le­cem toda a base da Mecâ­nica Clás­sica, sobre a qual cons­truí­mos diver­sas des­cri­ções de movi­mento. Suas apli­ca­ções são vastas e, no mundo macros­có­pico e no nosso dia a dia, são elas que gover­nam o nosso movimento.

Mas que forças são essas? De onde elas vêm? Isso é um tema bas­tante com­plexo. Atu­al­mente, des­cre­ve­mos a natu­reza a partir de quatro forças dis­tin­tas: Gra­vi­ta­ci­o­nais, Ele­tro­mag­né­ti­cas, Nuclear Fraca e Nuclear Forte. Por enquanto, vamos focar apenas na Força Gravitacional.


Lei da Gravitação: da maçã ao Universo

“Depois do jantar, fomos ao jardim e tomamos chá, sob a sombra de algumas maci­ei­ras. Ele me contou que estava antes na mesma situ­a­ção quando a noção de gra­vi­dade veio à mente dele. Foi em decor­rên­cia da queda de uma maçã, e ele sentou-se con­tem­pla­ti­va­mente. Por que deveria aquela maçã sempre cair per­pen­di­cu­lar­mente em direção ao solo, pensou ele.” 

William Stu­ke­ley, Memó­rias da Vida de Newton — Revista Pes­quisa FAPESP

No século XVII já havia diver­sos tra­ba­lhos des­cre­vendo a queda livre de objetos, assim como muitas obser­va­ções metó­di­cas do movi­mento de astros. As ideias básicas da gra­vi­ta­ção já ron­da­vam a comu­ni­dade cien­tí­fica, mas foi Newton, que munido das fer­ra­men­tas mate­má­ti­cas neces­sá­rias, juntou os con­cei­tos da física para propor a Lei da Gra­vi­ta­ção Uni­ver­sal (1687). Newton recém havia desen­vol­vido o Cálculo Dife­ren­cial e com ele mostrou que as forças de atração entre astros e a força que nos puxa de volta para a Terra ao pular têm a mesma origem, e depende da massa dos objetos em questão, assim como da dis­tân­cia entre eles (ao quadrado).

Fonte:I, Dennis Nilsson, CC BY 3.0, via Wiki­me­dia Commons

Pode parecer estra­nho que a força que governa a órbita dos astros, em seus movi­men­tos orbi­tais, seja a mesma que nos puxa em linha reta, em direção ao chão, mas isso fica mais fácil de visu­a­li­zar com o exemplo do canhão pensado por Newton. 

Figura 3: Expe­ri­mento mental das tra­je­tó­rias pos­sí­veis para a bala do canhão. Fonte: Newton, Isaac. 1728. Sobre o Sistema do Mundo, tra­du­zido para o Inglês, Londres: Impresso para F. Fayram.
  1. imagine um canhão lan­çando uma bola hori­zon­tal­mente do ponto mais alto da Terra, como o Everest;
  2. o canhão atira a bola, que deve des­cre­ver um movi­mento de pará­bola, como em um lan­ça­mento de projéteis;
  3. imagine que este canhão lança a bola cada vez mais e mais longe;
  4. para um lan­ça­mento absur­da­mente dis­tante, a bola dá a volta ao mundo e o atinge por trás.

Esse é um movi­mento de órbita, um objeto cons­tan­te­mente caindo em direção a outro, mas sem nunca atingi-lo, pois para o tanto que ele cai, ele também anda para a frente. Isso sig­ni­fica que os astros, as pedras, os grãos de areia e os nossos corpos estão sujei­tos à mesma Lei da Gra­vi­ta­ção, der­ru­bando por com­pleto con­cei­tos aris­to­té­li­cos do lugar natural das coisas.

Esten­dendo essa ideia aos pla­ne­tas, Newton foi também capaz de obter, pela via teórica, as regu­la­ri­da­des que eram obser­va­das nos demais movi­men­tos celes­tes, que haviam sido sis­te­ma­ti­za­das por Johan­nes Kepler. Isso demons­trou o caráter uni­ver­sal de seu modelo.

 Sim, você e seu celular estão se puxando neste momento, mas não é por isso que você não con­se­gue largar dele. Essa força é muito pequena e é difícil medi-la, a não ser que este­ja­mos falando de uma enorme quan­ti­dade de massa. É por isso que levou muito tempo para o pri­meiro teste por essa Lei à prova em laboratório.

O Expe­ri­mento de Caven­dish (1798) foi a pri­meira prova de fogo rea­li­zada em ambi­ente con­tro­lado. Neste, a força de atração entre esferas de chumbo foi medida uti­li­zando uma balança de torção. Com suas medidas, Caven­dish deter­mi­nou a den­si­dade da Terra, em com­pa­ra­ção à do chumbo uti­li­zado, encon­trando o valor de 5.448 g/cm3, muito próximo da medida moderna de 5.514 g/cm3. Para dar uma noção dos valores envol­vi­dos nesse expe­ri­mento, a força medida na balança foi equi­va­lente ao peso de 0.017 mg (uma formiga tem 3 mg). Até hoje rea­li­za­mos o Expe­ri­mento de Caven­dish aqui nos Labo­ra­tó­rios de Ensino de Física!

Gabriel Cury Perrone e Laila Berg da Nobrega / Equipe AMLEF 2022

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