• Movimento: Hidrostática — isso serve para alguma coisa?

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Figura 1. AMLEF146, Aparato de Pascal.

Sabemos que a pressão em um fluido depende da pro­fun­di­dade do ponto em questão, mas como fica a força rea­li­zada pelo fluido no fundo de um reci­pi­ente? Lembre-se: pressão é uma força exer­cida em uma área; se sabemos a área do fundo do reci­pi­ente e ela está toda com a mesma pressão, podemos apenas mul­ti­pli­car estas e teremos a força exer­cida. Esse efeito pode ser medido para veri­fi­car a teoria, uti­li­zando os Apa­ra­tos de Pascal (AMLEF146) ou de Haldat (AMLEF155), que com­pa­ram de formas dife­ren­tes a força exer­cida por um fluido no fundo de um recipiente.

Mas ainda falta algo para solu­ci­o­nar um para­doxo da época. O Para­doxo Hidros­tá­tico diz: “uma coluna de água, não importa quão pequena, pode elevar qual­quer peso, não importa quão grande”. Isso é uma verdade que pode ser obser­vada expe­ri­men­tal­mente e que é base para tec­no­lo­gias de hidráu­lica. O pro­blema, na verdade, não é um para­doxo, e é análogo ao pro­blema da ala­vanca. Um dos prin­ci­pais cien­tis­tas a atacar este pro­blema foi Blaise Pascal.

O Princípio de Pascal

O Prin­cí­pio de Pascal define que “a pressão apli­cada a qual­quer parte de um líquido será trans­mi­tida igual­mente em todas as dire­ções através deste”. É impor­tante enten­der que a pressão hidros­tá­tica se dá em todas as dire­ções e, em um reci­pi­ente, ela se aplica per­pen­di­cu­lar­mente às superfícies.

O Prin­cí­pio de Pascal tem uma con­sequên­cia muito inte­res­sante. Imagine dois vasos conec­ta­dos, com áreas bas­tante dife­ren­tes (um largo e outro estreito); cada vaso vedado com um êmbolo (como uma seringa). Agora imagine que colo­ca­mos sobre o êmbolo largo algo muito pesado, como um carro; isso fará o outro êmbolo subir um tanto, até que a coluna de água neste seja grande o sufi­ci­ente para igualar a pressão exer­cida pelo carro. 

Figura 2. Repre­sen­ta­ção de um macaco hidráu­lico. Fonte: Douglas C. Gian­coli, CC BY-SA 4.0 via Wiki­me­dia Commons.

Se ao invés de dei­xar­mos subir o êmbolo, rea­li­zar­mos uma força sobre este: quão grande deve ser essa força? Lembre-se que o que deve ser igua­lado é a pressão e, se há uma dife­rença entre as áreas sobre as quais a força é apli­cada, a dife­rença das forças será a mesma, como mos­trado na equação 1.

P_1=\frac{F_{1}}{A_{1}}=\frac{F_2}{A_2}=P_2\: \; \therefore \; \: \frac{F_1}{F_2}=\frac{A_1}{A_2}

Equação 1. Teorema de Stevin: P repre­senta a pressão, F a força e A a área.

Vamos colocar isso em números: se a área de um lado for 50 vezes maior do que a área do outro, a razão entre as forças apli­ca­das dos dois lados também será de 50 vezes. Por isso é fácil uma pessoa levan­tar um carro uti­li­zando um macaco hidráu­lico, o que anti­ga­mente parecia um “para­doxo”. O Teorema de Stevin e o Prin­cí­pio de Pascal são, por­tanto, essen­ci­ais para a enge­nha­ria e para aqueles que, como eu, pre­fe­rem exer­ci­tar o cérebro ao invés dos músculos. 

w_{1}=\frac{F_{1}}{h_{1}}=\frac{F_{2}}{h_{2}}=w_{2}

Equação 2. Teorema Tra­ba­lho-Energia: W repre­senta o tra­ba­lho, F a força e h a distância.

É impor­tante res­sal­tar, no entanto, que essa mul­ti­pli­ca­ção de força tem um “custo”: o Teorema Tra­ba­lho-Energia é sempre res­pei­tado e, por­tanto, os tra­ba­lhos exer­ci­dos em ambos os vasos será igual (repre­sen­tado na equação 2). O des­lo­ca­mento de um lado será tão menor quanto maior for a força apli­cada; ou seja, para levan­tar o carro fazemos pouca força, mas per­cor­re­mos uma grande dis­tân­cia no êmbolo para levan­tar algo muito pesado em uma pequena distância.

E um barco? Como ele flutua?

Esse é outro pro­blema inte­res­sante. Aqui temos dois fatos: os barcos são bas­tante pesados, mesmo assim, eles flutuam. Esse pro­blema foi par­ci­al­mente resol­vido na Grécia Antiga, por Arqui­me­des, mas pode ser mais ade­qua­da­mente expli­cado com conhe­ci­men­tos desen­vol­vi­dos pos­te­ri­or­mente, como o Teorema de Stevin.

Figura 3. Repre­sen­ta­ção do Prin­cí­pio de Arqui­me­des. Fonte: MikeRun, CC BY-SA 4.0, via Wiki­me­dia Commons.

O antigo Prin­cí­pio de Arqui­me­des (ou do Empuxo, para os íntimos), de 246 AEC, nos diz que “um objeto total­mente ou par­ci­al­mente imerso em um fluido per­ce­berá uma força em sentido con­trá­rio ao peso com inten­si­dade igual ao peso do fluido des­lo­cado por ele”. Diz a lenda que ele chegou a essa solução bus­cando resol­ver o pro­blema de uma coroa de ouro que se sus­pei­tava ter sido adul­te­rada. Lenda ou não, o fato é que o Prin­cí­pio de Arqui­me­des pode ser veri­fi­cado ao medir o peso apa­rente de um objeto dentro e fora d’água.

Mas por que isso acon­tece? Lembre-se do Teorema de Stevin! Perceba que teremos forças atuando sobre este objeto de todas as dire­ções, e que a pressão aumenta con­forme aumenta a pro­fun­di­dade. Sendo assim, a pressão na parte infe­rior dele será maior que na supe­rior. Essa dife­rença de pressão, somada ponto a ponto (inte­grada, para os ver­sa­dos na arte do cálculo), resulta na força Empuxo obser­vado pelo objeto, con­trá­ria ao peso, e de inten­si­dade igual ao peso da água des­lo­cada pelo objeto. Isso explica a origem do Empuxo, obser­vado por Arqui­me­des muitos anos antes.

Figura 4. Pressão dis­tri­buída em um cubo imerso. Fonte: Peter Southwood, CC BY-SA 3.0, via Wiki­me­dia Commons.

No caso de um barco, ou de outro objeto que flutue, o que ocorre é que a quan­ti­dade de água neces­sá­ria para igualar o peso deste é menor do que o volume dele. Apesar de um barco ser feito de mate­rial denso, como metal, ele está cheio de ar, que é muito menos denso do que a água (eu falei que den­si­dade era impor­tante). Se houver um furo no casco do barco, ele vai começar a encher de água (enquanto o ar sai por cima) e, aos poucos, vai afundar; afinal, o metal do barco é mais denso que a água!

Podemos fazer o mesmo no ar? Sim! É exa­ta­mente assim que voam os balões de ar quente! O ar quente contido dentro deles é menos denso do que o ar frio, ao seu redor, e isso faz com que ele suba por causa do empuxo; para descer, basta liberar o ar quente aos poucos. 

E os aviões? Esse é outro pro­blema, que veremos mais adiante, entrando na área da Hidrodinâmica!

Francisco Baguinski e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2023

Referências

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