• Lei Um: a Conservação de Energia no contexto da Termodinâmica

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É claro que não basta apenas um artigo ou expe­ri­mento para for­mu­lar ou der­ru­bar uma teoria, e as ideias sobre o calor estavam bor­bu­lhando. Diver­sos cien­tis­tas for­mu­la­ram versões do que se tor­na­ria a Lei Um da Ter­mo­di­nâ­mica, desde 1840 até hoje, por isso é difícil apontar “O Pai” dela. Vamos citar algumas das obser­va­ções inte­res­san­tes que cons­truí­ram essa teoria.

Figura 1. Viagem rumo a Jacarta.

Julius Robert Von Mayer e o sangue quente tropical

O médico alemão Julius Robert von Mayer, em 1840, tra­ba­lhava em um veleiro holan­dês que viajava rumo a Jacarta, atual capital da Indo­né­sia. Em seus aten­di­men­tos, per­ce­beu que o sangue de seus paci­en­tes ficou mais aver­me­lhado con­forme se apro­xi­ma­vam de regiões mais quentes, ou seja, ele per­ma­ne­cia rico em oxi­gê­nio. Mayer supôs que havia relação entre a quan­ti­dade de calor gerado pelo orga­nismo e a tem­pe­ra­tura do ambi­ente, já que o corpo pre­ci­sa­ria queimar menos oxi­gê­nio para per­ma­ne­cer aquecido.

Desde Lavoi­sier e a ideia de que “nada se cria, nada se perde, tudo se trans­forma”, a soci­e­dade cien­tí­fica já ima­gi­nava uma relação entre o consumo de oxi­gê­nio e o aque­ci­mento do corpo. Com isso em mente, Mayer questiona:

“As ener­gias são enti­da­des con­ver­sí­veis, mas indes­tru­tí­veis […] a energia uma vez que existe, não pode ser ani­qui­lada; pode somente mudar de forma, e daí surge a questão: que outras formas pode ela assumir? Somente a expe­ri­ên­cia pode nos levar a uma conclusão.” 

Julius Robert Von Mayer [1842]

Entre 1840 e 1850, von Mayer mostrou que o tra­ba­lho podia ser con­ver­tido em calor através do atrito, ou seja, energia de movi­mento podia virar tem­pe­ra­tura. O calor é uma forma de energia! Porém, a comu­ni­dade cien­tí­fica ignorou os tra­ba­lhos de von Mayer durante duas décadas, con­si­de­rado ele espe­cu­la­tivo devido à for­ma­ção e car­reira como auxi­liar de medi­cina do autor.

James Joule e o experimento do Equivalente Mecânico do Calor

Figura 2. Desenho esque­má­tico do Expe­ri­mento de Joule publi­cado na Har­per’s New Montlhy Maga­zine, No. 231, agosto de 1869.
Fonte : Domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

Na mesma época de von Mayer, o jovem cer­ve­jeiro e cien­tista amador James Joule rea­li­zou uma série de expe­ri­men­tos num simples labo­ra­tó­rio de sua família em Salford. Ele buscava encon­trar algum tipo de medida mecâ­nica rela­ci­o­nada ao calor. Em outras pala­vras, ele buscava con­ver­ter o movi­mento em aque­ci­mento, leia-se calor. 

Após diver­sas ten­ta­ti­vas, ele criou um expe­ri­mento no qual a queda de um peso movi­men­tava uma hélice em um reci­pi­ente com água. A tem­pe­ra­tura era visu­a­li­zada com um termô­me­tro, pos­si­bi­li­tando medir o aque­ci­mento da água.

Figura 3. Aparato expe­ri­men­tal uti­li­zado por Joule para medir o “Equi­va­lente Mecâ­nico do Calor”. Fonte: Gaius Cor­ne­lius, Domínio público, via Wiki­me­dia Commons

Com essa mon­ta­gem, Joule con­se­guiu aquecer uma libra de água ( ~ 0,45 Litros) em um grau fah­re­nheit (~ 0,56 Celsius). Assim ele con­se­guia rela­ci­o­nar a dife­rença entre a energia poten­cial gra­vi­ta­ci­o­nal e a energia ciné­tica adqui­rida com o aumento da tem­pe­ra­tura da água. Assim, Joule con­se­guiu medir o calor gerado no sistema a partir do tra­ba­lho mecânico! 

Quando con­se­guiu resul­ta­dos satis­fa­tó­rios, depois de quase 30 anos, Joule apre­sen­tou-os em uma reunião em Oxford. Onde des­per­tou o inte­resse do até então jovem William Thomp­son, o futuro Lord Kelvin! Joule se casou e, DURANTE A SUA LUA DE MEL, rea­li­zou expe­ri­men­tos em uma cacho­eira em Cha­mo­nix junto do jovem Thompson. 

De maneira obje­tiva, Joule demons­trou em 1845 que a “perda” de vis viva (energia mecâ­nica) era, na verdade, o calor pro­du­zido no reci­pi­ente. Ele definiu que: “onde a Força Mecâ­nica é gasta, sempre obtemos um equi­va­lente exato de calor”. Essa é outra forma de des­cre­ver que a Energia se conserva.

Rudolf Clausius e a formalização da 1ª Lei da Termodinâmica

Rudolf Clau­sius foi quem publi­cou a pri­meira versão formal da 1ª Lei. Em 1850, ele des­cre­veu pro­ces­sos ter­mo­di­nâ­mi­cos cícli­cos (muito ins­pi­rado em motores), se refe­rindo à Energia Interna do sistema como uma medida do estado deste. Segundo Clausius, 

Figura 4. Viagem inau­gu­ral da fer­ro­via Liver­pool e Man­ches­ter. Os motores passam a fazer parte do dia-a-dia, entrando no senso comum. Fonte: Domínio público, via Wiki­me­dia Commons.

“Em um pro­cesso ter­mo­di­nâ­mico envol­vendo um sistema fechado, o aumento da Energia Interna é igual à dife­rença entre o Calor acu­mu­lado pelo sistema e o Tra­ba­lho rea­li­zado por ele”.

Rudolf Clau­sius [1850]

Além disso, disse que “sempre que Tra­ba­lho é pro­du­zido por meio de Calor, a quan­ti­dade de Calor con­su­mida é pro­por­ci­o­nal ao Tra­ba­lho rea­li­zado, e vice-versa”; dessa forma ele inclui os tra­ba­lhos de Joule e Mayer.

Muitos cien­tis­tas revi­sa­ram e refor­mu­la­ram a 1ª Lei, mas segue sendo uti­li­zada. Fica claro, a partir da forma como é des­crita, que a for­mu­la­ção Ter­mo­di­nâ­mica da Con­ser­va­ção de Energia e das rela­ções entre Calor e Tra­ba­lho foi criada com motores em mente. Isso é um retrato da época na qual a Ter­mo­di­nâ­mica se desen­vol­veu: a Revo­lu­ção Industrial.

Maria Eduarda Belló e Gabriel Cury Perrone / Equipe AMLEF 2023

Referências:

  • Wiki­pé­dia:
  • NUSSENZVEIG, H. Moysés, Curso de Física Básica 2. Edição: 5.ed. Cidade: São Paulo, Edgard Blücher, 2014.
  • STILL, Ben et al. O Livro da Física. Edição: 1.ed. Cidade: Rio de Janeiro, Globo Livros, 2021.
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