Por Charles Monteiro
Danièle Méaux, na obra Photographie contemporaine & Anthropocène (2022), caracteriza a relação entre a fotografia contemporânea e o Antropoceno como uma interação complexa e multifacetada. A autora argumenta que vários projetos de fotografia contemporânea estão engajados na documentação, na interpretação e na problematização crítica das mudanças ambientais e sociais que ocorrem na era do Antropoceno.
A fotografia contemporânea tem procurado elaborar a complexidade e a escala das transformações ambientais causadas pela atividade humana, como o aumento da urbanização, a degradação da biodiversidade, o derretimento das calotas polares e o aumento do nível do mar. Além disso, a fotografia contemporânea tem sido usada para explorar as consequências sociais e culturais dessas transformações, como a migração forçada de populações e a desigualdade socioeconômica.
Méaux (2022) também argumenta que a fotografia contemporânea está desafiando a ideia de uma separação entre o ser humano e a natureza. Entre outros autores, ela lança mão das reflexões de Bruno Latour, que historiciza toda uma tradição da filosofia ocidental na qual o homem foi separado da natureza a partir do pensamento iluminista no final do século XVIII. Ao documentar a interdependência entre o humano e o ambiente natural, a fotografia contemporânea poderia levar a uma mudança na percepção e nas práticas sociais em relação ao meio ambiente no limiar de uma nova era geológica: o Antropoceno.
Proponho uma reflexão sobre a maneira como as fotógrafas contemporâneas brasileiras Alice Miceli e Leticia Ramos desenvolveram suas poéticas no campo das artes visuais visando problematizar as relações entre fotografia, técnica, natureza e paisagem no contexto atual de discussão do Antropoceno. Os trabalhos foram produzidos nas primeiras duas décadas do século XXI e cada qual a sua maneira constitui-se em uma forma imagética crítica para pensar espaços de construção de conhecimento sobre a crise socioambiental e civilizacional que vivemos e que nos obriga a questionar o nosso lugar em relação a história da humanidade e ao futuro da vida em nosso planeta. Alice Micelli é fotógrafa e videoartista brasileira que propõe através de poéticas singulares e experimentações técnicas uma reflexão sobre as causas de desastres e fenômenos de degradação, que põem em risco as condições de vida no planeta, imputando tais desordens às práticas industriais, econômicas e políticas que alteram profundamente a relação entre o homem e a natureza colocando em risco o futuro da humanidade. Desta forma, problematizam também em seus trabalhos artísticos os pilares sobre os quais nosso modo de vida nas sociedades ocidentais está assentado: os imperativos da expansão econômica e do progresso científico. Dentro deste quadro maior é que se propõe uma reflexão crítica sobre o “Projeto Chernobyl” (2007-2010) da artista visual Alice Miceli.
Em 2010, Alice Miceli apresentou pela primeira vez o “Projeto Chernobyl” na 29ª Bienal de São Paulo. A série fotográfica documenta o impacto da explosão da usina de Chernobyl, na antiga URSS, através de uma técnica experimental e não convencional, a artista captura os indícios da radiação do acidente nuclear que sensibilizam um tipo especial de filme fotográfico. Entre 2007 e 2010, a artista fez várias viagens à região para capturar através de câmeras especialmente desenvolvidas e sensíveis aos raios gama, que são invisíveis ao olhar humano, a radiação ainda presente nos troncos das árvores, nas paredes, nos marcos de janelas e nas portas das casas da cidade de Pripiat, localizada na zona de exclusão de 30 quilômetros ao redor da usina nuclear.




A artista visual Letícia Ramos no projeto Bitácora (2011) investiga territórios longínquos e paisagens inóspitas em uma expedição fotográfica ao Ártico no Hemisfério Norte. Lugares onde a presença humana é muito reduzida e apenas em suas margens, mas que foi o destino de grandes expedições científicas dos séculos XIX e XX. A artista produz através de câmeras especialmente desenvolvidas por ela, assim como Alice Miceli no Projeto Chernobyl, fazendo dialogar arte e ciência, uma série de imagens de paisagens aparentemente intocadas pela ação humana, discutindo a busca novas fronteiras para a ocupação humana no planeta frente a crise climática. Utopia política dos desbravadores do passado e experiencia artística no presente, o horizonte de futuro encontra a experiência herdadas do passado, exigindo sempre a reinvenção dos meios e da fotografia, visando renovar a sua poética artística no contexto de busca de respostas desesperadas para a fragilidade humana de estar no mundo no limiar de uma era, marcada por incertezas, crises e medos, caracterizada pelo esgotamento de modelos econômicos, políticos, sociais, civilizacionais e epistêmicos, gerando a constatação de um futuro incerto para a aventura humana na terra no Antropoceno.
Caderno Bitácora é o fotolivro resultante da pesquisa fotográfica da artista plástica Letícia Ramos contemplada com o Prêmio Marc Ferrez de criação fotográfica em 2011, que pode ser visualizado na página da artista em: https://leticiaramos.art/CADERNO-DE-BITACORA-1 . O projeto Bitácora foi exposto na Galeria Mendes Wood no Rio de janeiro entre 14 de abril de 2012 e 5 de maio de 2012.




A catástrofe pode ser compreendida como uma fissura na continuidade temporal que abala as certezas quanto ao futuro, que se torna repentinamente indeterminado e inquietante. Ao contrário da ideia de progresso difundida pela modernidade como esperança revolucionária, a catástrofe mobiliza o mito da destruição total da humanidade. As imagens de desastres se apresentam assim como emblemas de nossa época, caracterizam-se por provocar uma inquietude sobre o devir. Elas dão a ver um cenário da natureza onde a humanidade estará ausente. Elas evocam a potência de elementos destrutivos em uma dimensão simbólica e indicial, que sugerem a ampliação do desastre e a repetição da desordem, reforçando a sensação de enormidade e insegurança sobre o futuro.
REFERÊNCIAS
Alice Miceli. Disponível em: <https://nararoesler.art/artists/30-alice-miceli/>. Acesso em: 19 jun. 2023.
Alice Miceli: Projeto Chernobyl. Disponível em: <https://www.as-coa.org/exhibitions/alice-miceli-projeto-chernobyl>. Acesso em: 15 jun. 2023.
Alice Miceli. Chernobyl project: Fragment of a field IV – 9.120 µSv (07.05.09 – 21.07.09), 2007-2010. Print positive contact print for radiographic negative. 30 × 40 cm. Edition 2/5 + AP. Disponível em: https://www.dobrasvisuais.com.br/2011/02/tornar-visivel-o-que-nao-vemos/ Acessado em: 18 de agosto 2021.
Leticia Ramos. Disponível em: <https://www.premiopipa.com/pag/leticia-ramos/>. Acesso em: 15 jun. 2023.
Leticia Ramos Arte. Home. Disponível em: https://leticiaramos.art/BITACORA-4 Acessado em: 1 de maio 2023.
MÉAUX, Danièle. Photographie contemporaine & antropocène. Landebaëron, Filigranes Éditions, 2022.
Mendes Wood DM | Letícia Ramos – Bitácora. Disponível em: <https://mendeswooddm.com/pt/exhibition/bitacora>. Acesso em: 19 jun. 2023.
Video: Alice Miceli’s Projeto Chernobyl at Americas Society. Disponível em: <https://www.as-coa.org/watchlisten/video-alice-micelis-projeto-chernobyl-americas-society>. Acesso em: 15 jun. 2023.
ZUM. Revista de Fotografia. MICELI, Alice; LAVIGNE, Nathalia. Radiação, campos minados e epidemias: a artista Alice Miceli investiga espaços atravessados pelo invisível. In: ZUM. Revista de Fotografia, 29 de maio 2020. Disponível em: https://revistazum.com.br/zum-quarentena/entrevista-alice-miceli/ Acessado em: 21 de out. 2021