Culturas degenerativas e Feral Atlas: histórias de um antropoceno mais que humano

Por Tuane Eggers

A ideia de que o ser humano está acima dos outros seres vivos é cada vez mais colocada em questão nas abordagens da arte contemporânea. Na era chamada por alguns cientistas de antropoceno — termo utilizado para descrever o período mais recente na história do planeta Terra, quando as atividades humanas começaram a ter um impacto significativo no clima e no funcionamento dos ecossistemas —, alguns artistas têm se dedicado a olhar para outros seres, tornando-os protagonistas de possíveis outras narrativas e formas de habitar um planeta em ruínas.
Entre eles, está o coletivo Cesar & Lois, formado pelo artista brasileiro Cesar Baio e pela norte-americana Lucy HG Solomon, frequentemente em contato e colaboração com outros artistas, cientistas e pesquisadores. Formado no verão de 2017, o coletivo investiga a relação da humanidade com a natureza, promovendo interseções críticas entre sistemas biológicos, sociais e tecnológicos. Suas obras cruzam diferentes organismos, como bactérias, fungos e protistas, com elementos tecnológicos, incluindo inteligência artificial, mineração de dados e redes sociais.
A investigação de organismos microbiológicos nos trabalhos desenvolvidos por Cesar & Lois busca descobrir e oferecer pistas para colocar em questão o funcionamento das sociedades humanas, buscando inspirar novas formas de pensar e existir. A obra intitulada Culturas degenerativas (2018) é um exemplo disso: uma rede biológico-tecnológica, composta por microrganismos vivos, redes digitais e inteligência artificial, é criada para examinar a relação entre a humanidade e os demais seres do planeta.

Figuras 1 e 2: Culturas Degenerativas, Cesar & Lois, 2018. Fonte: http://cesarandlois.org/digitalfungus

Baseado na lógica do microrganismo Physarum polycephalum, um protista composto por uma única célula com vários núcleos e com um tipo particular de “inteligência”, o coletivo de artistas desenvolveu um agente “bio-híbrido” (ou híbrido bio-digital) que confunde as linhas entre inteligências biológicas e artificiais. Em uma rede composta por conhecimento microbiológico e digital, inteligências pré-humanas e pós-humanas trabalham juntas para investigar a dicotomia secular entre humanidade e “natureza”.
Nesse sentido, a tecnologia é utilizada na obra de Cesar & Lois como um recurso interessante para voltarmos nossa atenção a formas muito primitivas de vida existentes no planeta, como é o caso do Physarum polycephalum. Na instalação, livros físicos que documentam o impulso humano de remodelar a natureza são os substratos para o crescimento microbiológico. O texto é destruído fisicamente, pois o crescimento dos microorganismos causa o desaparecimento do texto legível na superfície das páginas. A IA analisa o crescimento de microrganismos vivos e alimenta um algoritmo (de)generativo ligado a autômatos celulares e Processamento de Linguagem Natural (NLP).
Esse agente pesquisa na internet textos que seguem padrões predatórios semelhantes. A IA compila textos online sobre os esforços da humanidade para controlar a natureza e os consome, assim como Physarum polycephalum edita as páginas do livro físico. Esta história da colonização do conhecimento humano pelos fungos é documentada em publicações feitas no Twitter, em @HelloFungus, como também em impressões contínuas realizadas por uma impressora térmica, que também compõe a instalação.
A obra utiliza um conjunto de tecnologias para integrar sistemas vivos e digitais em uma única rede, pela qual o fungo bio-digital responde às menções feitas por usuários do Twitter, engajando as pessoas na distribuição deste “esporos digitais”. Em seus trabalhos, Cesar & Lois reconsidera os sistemas de comunicação e as redes de conhecimento em um contexto ecossistêmico, no qual a natureza, através de esporos e micélio, torna-se um espaço para outros modos de comunicação e de processamento de informações.

Figura 3: Culturas Degenerativas, Cesar & Lois, 2018. Fonte: http://cesarandlois.org/digitalfungus

Outra obra desenvolvida de forma micelial e coletiva é o site Feral Atlas (2021), que propõe pensar um “antropoceno mais que humano”, trazendo para as discussões uma rede de complexidades que integram esse momento peculiar de existência em um planeta ferido. Publicada pela Stanford University Press, a obra envolve mais de uma centena de cientistas, humanistas e artistas, unidos na investigação dos efeitos não projetados de infraestruturas feitas pelo ser humano. A curadoria e edição do projeto é feita por uma equipe feminina: a antropóloga Anna Tsing (conhecida pela autoria do livro The mushroom at the end of the world, de 2015), a antropóloga visual Jennifer Deger, a antropóloga ambiental Alder Keleman Saxena e a arquiteta Feifei Zhou.

Figura 4: Feral Atlas, Stanford University Press, 2021. Fonte: https://feralatlas.supdigital.org

Anna Tsing propõe, com seu Feral Atlas, pensar em toda a complexidade que envolve aquilo que escapa da domesticação — e nos interessa aqui pensar, principalmente, em uma tentativa de não-domesticação do termo antropoceno, enfatizando um potencial transdisciplinar e uma disputa aberta pelo seu sentido. Nesse sentido, outras possíveis abordagens para o antropoceno seriam capazes de reconhecer manifestações locais e os modos profundamente diferentes com os quais as mudanças climáticas e o capitalismo afetam diferentes espécies e territórios, mas também seres humanos de diferentes raças, gêneros, etnias e classes sociais.
O site é composto por imagens artísticas, em forma de ilustrações, associadas a diversos estudos científicos sobre temas catalogados em itens como Aceleração, Invasão, Capital e Império. A proposta de Anna Tsing e suas colegas foi de criar algo como um arquivo, um jogo, uma coletânea e uma reflexão sobre como viver juntos, uns com os outros, sempre com base em estudos científicos. Assim como na obra de Cesar & Lois, a tecnologia é aqui utilizada como um recurso para atrair a atenção para outras formas de vida, abrigando uma miríade de acontecimentos em rede. A intenção de popularizar a ciência por meio de uma obra artística interdisciplinar enriquece as discussões que permeiam todas as áreas do conhecimento na contemporaneidade. No entanto, o desafio de Feral Atlas, que possui uma navegabilidade não muito intuitiva e um tanto complexa, parece estar em possibilitar um alcance mais amplo ao entendimento desse arquivo.

Figura 5: Feral Atlas, Stanford University Press, 2021. Arte de Feifei Zhou. Fonte: https://feralatlas.supdigital.org

Ainda que com algumas dificuldades, ambas as obras cumprem seu objetivo de mirar nosso olhar para outras narrativas de existência. O antropoceno é um termo que deve ser considerado para tentar descrever a época em que vivemos, mas que não se encerra tão facilmente em si. É preciso narrar outras histórias.

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