Inteligência artificial, memória humana

Por Angelo Luz

IAMH – Inteligência Artificial, Memória Humana apresenta três trabalhos localizados no campo de tensões gerado pelo tríade arte, natureza e tecnologia. As obras escolhidas foram criadas a partir de ferramentas de Inteligência Artificial, alcançado resultados formais distintos e intrigantes, e operam a partir do eixo da memória. O que esses trabalhos possuem em comum, contudo, é a sua aspiração pela natureza humana. Refik Anadol apresenta as “alucinações de uma máquina”, alimentada por milhares de imagens de natureza, evocando os perigos de viver apenas das memórias desta natureza em um futuro distópico possível. Por outro lado, Giselle Beiguelman nos fala do passado em sua Botannica Tirannica e seus desdobramentos, onde utiliza ilustrações e prompts de texto para recriar plantas, ervas daninhas, alucinógenas e afrodisíacas, que foram extirpadas pelo processo colonizador, também falando de perigos, mas na sua relação com o apagamento da memória coletiva como manobra de poder e controle social do corpo. Por último, as instalações imersivas do coletivo multidisciplinar TeamLab também falam de corpo, e propõe a geração da memória no presente, na interatividade entre a obra e o espectador, colocado-o no centro do universo como aquele que observa a própria criação. IANH fala, portanto, da natureza humana como memória anacrônica, sobre a transcendência do tempo a partir da maquina e da percepção e das tecnologias de inteligência artificial aplicadas às nossas incríveis capacidades dos atos de lembrar e de esquecer.

Machine Hallucinations: Dreams of nature
Data sculpture (Miami, 2021)
Dimensões variáveis
Instalação e NFT

Dreams of Nature (2022)


Como você se envolveria com uma imagem se soubesse que é a última lembrança de um lugar que encheu seu coração de paz por muitos anos? Machine Hallucinations: Last Memory de Refik Anadol é uma escultura de dados que explora esse sentimento fazendo uma mente de máquina “alucinar” vestígios de maravilhas naturais inexistentes. Depois que a máquina aprende 46.474.696 milhões de imagens da Natureza, Anadol usa algoritmos GAN desenvolvidos por inteligência artificial para moldar esse conjunto de dados por meio de sua visão artística. Além de utilizar tecnologias de ponta para criar uma obra que comemora a beleza desta terra que compartilhamos, o artista especula um futuro infligido ao perigo de ficar apenas com as memórias da Natureza. A peça imersiva incorpora pigmentos, formas e padrões terrestres que associamos às nossas experiências sensoriais, ao mesmo tempo em que prestamos homenagem à sublimidade poética ilimitada da Terra.

Machine Hallucinations: Dreams of Mature / Data sculpture (Miami, 2021)

Giselle Beiguelman (São Paulo, 1962)

Botannica Tirannica, 2022
Série de fotografias digitais criadas a partir deInteligência Artificial
impreessão em papel fotográfico

Botannica Tirannica foi desenvolvida em colaboração com o Museu Judaico de São Paulo. Em cartaz de 8 de maio a 18 de setembro de 2022. A partir da planta Tradescantia zebrina, corriqueiramente chamada de judeu errante, Beiguelman mapeou centenas de espécies de plantas submetidas à nomeação pejorativa, para então remixá-las de modo a produzir um verdadeiro jardim decolonial. A mostra revela os preconceitos na nomenclatura botânica e propõe uma investigação a respeito do imaginário colonialista presente no processo de nomeação da natureza, cujas espécies ditas “daninhas” recebem nomes ofensivos e preconceituosos.


TeamLab (Tokyo, 2001)

Trails of Life – Transcending Space in All Directions (2022)
Interactive digital installation
Dimensões variáveis
Instalação imersiva na Pace Gallery

Trails of Life

Esta obra de arte deve ser vista de pé de uma posição próxima ao centro da entrada do espaço. Quando as pessoas entram no espaço da obra de arte, a obra de arte se torna
uma com as pessoas e começa a se mover. Traços se formam na frente das pessoas a partir de seus pés, eventualmente criando uma única e longa fila conforme o espaço da obra de arte e as pessoas se movem juntas como uma só. O mundo da obra de arte transcende o espaço físico e as fronteiras entre as pessoas e o mundo da arte desaparecem.Sem pessoas no espaço da arte, nada existe além do espaço, e nada jamais será retratado – o mundo da obra de arte é criado através da existência das pessoas.

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