Fruições sobre o estrutural e o orgânico em propostas de arte, natureza e tecnologia

Por Mauro Espíndola

Os termos arte, natureza e tecnologia formam uma instigante conexão com nosso atual projeto de pesquisa, implicado em processos de criação que produzem convergências com conceitos e imagens em seus respectivos desdobramentos e procedimentos na direção dessa triangulação. A partir dessas experiências sugere-se, nesta breve postagem, uma apreciação sobre práticas artísticas lançadas pelo coletivo holandês Studio Drift e pelo artista paulista Henrique Oliveira, desejando a eventuais interessados uma boa fruição.

STUDIO DRIFT  https://studiodrift.com

Fundado em 2007 pelos artistas holandeses Lonneke Gordijn (1980) e Ralph Nauta (1978), o coletivo é reconhecido​​ por experimentações que abarcam arte, design, tecnologia, ciência e natureza, combinando processos que envolvem esculturas, instalações e performances. Selecionamos três obras que participaram da primeira exposição da dupla no Brasil, intitulada Studio Drift – Vida em Coisas, sob curadoria de Alfons Hug e Marcello Dantas, no espaço expositivo do Centro Cultural Banco do Brasil, localizado no Rio de Janeiro.
A tecnologia de ponta, o movimento e o emprego da luz são elementos básicos de construção dos trabalhos da dupla. Segundo Marcello Dantas, “existe uma racionalidade por trás da obra deles, que é a possibilidade da natureza e da tecnologia viverem em harmonia”. Na obra SHYLIGHT, um grupo de objetos de seda com aparência botânica produz movimentos que simulam o comportamento das plantas abrindo e fechando, conceito que também se aproxima do gravitropismo, o crescimento vegetal estimulado pela força gravitacional exercida pela Terra. O Drift questiona objetos feitos pelos humanos em sua tendência a uma forma estática, enquanto tudo o que é natural está constantemente sujeito a metamorfoses e adaptações ao ambiente.

SHYLIGHT (2006/2014). Alumínio, aço inoxidável polido, seda, luzes de LED, robótica.
https://studiodrift.com/work/shylight/
Crédito da imagem: Ossip van Duivenbode

Uma outra escultura cinética, intitulada EGO, criada originalmente para compor o cenário da ópera L’Orfeu, materializa conexão entre performance e a instalação, tem sua forma construída por um bloco de linhas de fibra de náilon e oscila por meio de uma delicada coreografia graças à ação de oito motores, cada qual com seu algoritmo, fornecendo mobilidade ao alternar a tensão dos fios.

EGO (2020). Fibras de náilon, motores, alumínio, software.
https://studiodrift.com/film/ego/

O coletivo compreende o cubo como representação da uma unidade básica de construção. No vídeo DRIFTER, cubos de concreto armado levitam em meio a uma paisagem verdejante como monolitos imantados que se tocam e se unem, formando aglomerados em contínua e progressiva concentração, gerando um agrupamento colossal como uma imensa ruína no meio da floresta. A obra, de caráter hipnótico, cria tensões e propõe reflexões sobre a coexistência e a ocupação da humanidade na natureza, convidando o observador a meditar sobre o relacionamento entre ambientes vivos.
Alinhados com o título da exposição, o Studio Drift enuncia uma indagação que posiciona suas ideias: “Como um objeto inanimado pode imitar essas mudanças que expressam o caráter e as emoções?”

DRIFTER (2016). Vídeo, 11’:12”
https://youtu.be/be9Y0nJWZ9M
HENRIQUE OLIVEIRA
1973, Ourinhos, SP. Vive e trabalha em São Paulo, SP
http://www.henriqueoliveira.com/defaultBR.asp

Henrique Oliveira inicia sua trajetória com investigações no universo da pintura, mas seu trabalho passa a ser reconhecido a partir da série Tapumes, instalações pensadas como desdobramento do fazer pictórico, vindo a se tornar uma pesquisa de complexa organicidade. As chapas que utiliza, também conhecidas como madeirite, são compostas de lâminas de madeira prensadas com cola e é material originalmente usado como proteção provisória que delimita o entorno de obras arquitetônicas, sendo reaproveitado e reempregado em ocupações urbanas como nos barracos construídos em muitas comunidades e sob viadutos, um reflexo de profundas desigualdades sociais.
O primeiro trabalho da série Tapumes, no espírito de pintura-instalação, é apresentado em 2004 no programa Projéteis da FUNARTE, no Palácio Gustavo Capanema, Rio de Janeiro.

Tapumes (2004). Madeira compensada, 4 x 12 x 1,1m.

Uma nova série nomeada Imersivos designa um mergulho para dentro da obra. Apresentado em 2007, no Itaú Cultural (São Paulo), a instalação Túnel convida a uma imersão inusitada e visceral, percorrendo um imenso organismo que conduz sensorialmente a muitas experimentações, incluída a cinematográfica, fazendo lembrar, aliás, de alguns filmes que ficaram muito conhecidos por propor um percurso no corpo humano, como Viagem Fantástica (1966), dirigido por Richard Fleischer, Viagem Insólita (1987), produzido por Steven Spielberg e, mais recentemente, Di Humani Corporis Fabrica (2022), dos diretores e cinegrafistas Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor.

Túnel (2007). Vistas internas. Madeira compensada, PVC, cera de abelha, 2 x 30 x 3m.
Trabalhos em espaços externos

Ao ocupar áreas externas das cidades e suas construções, os grandes tapumes das instalações de Oliveira pulsam como formas vivas e introduzem um surpreendente universo onírico nos espaços públicos. No texto Tapumes composto para o Prêmio CNI SESI Marcantônio Vilaça 2009/10, Ricardo Resende escreve: “Henrique Oliveira construiu uma grande instalação que aconteceu no centro de Porto Alegre. A grande escultura ou a grande instalação ou ainda a grande pintura saía de dentro de uma casa velha, como se esta estivesse regurgitando para a cidade a sua memória viva. Chegava a ser uma visão assustadora. Uma situação que se via de fora, da rua ou da calçada oposta. Quando se caminhava por ali ou pelas janelas dos carros, era uma surpresa avistar a instalação.”

Tapumes – Casa dos Leões (2009). VII Bienal do Mercosul, Porto Alegre.
Foto: Eduardo Ortega
Moinho

A bienal holandesa de IJssel, tradicionalmente realizada com exposições a céu aberto, explorou na edição de 2021 a ligação entre pessoas e paisagem. Intitulada TIJ, TIME and TEMPORARILY (Maré, tempo e temporalidade, em livre tradução), a curadoria propôs reflexões sobre o impacto das mudanças climáticas na paisagem a partir das seguintes questões: Que efeitos as mudanças climáticas terão sobre a paisagem e seus habitantes? O que pode ser feito para minimizar ou prevenir os efeitos? E que oportunidades ela possivelmente oferece? Que efeito tem o fator TEMPO na nossa paisagem e nos desafios? Henrique Oliveira participa com a obra efêmera Moinho, com a perspectiva de reafirmar o universo cambiante entre o impremeditável e o imaginário, uma operação no limiar entre os tecidos da ficção e da realidade. Sobre essa dualidade, em entrevista à revista on line designboom (https://www.designboom.com/art/henrique-oliveira-intervening-fabric-reality-interview-05-18-2021/) Oliveira nos conta: “interessa-me muito a ideia de intervir no tecido do real. Isto fala da relevância da escultura no mundo contemporâneo, da sua capacidade de sobreviver fora da aura protetora do museu e de estabelecer uma relação com públicos para além dos habituais frequentadores de espaços dedicados à arte”.

Moinho (2021). IJssel Biennale, Holanda. Madeira compensada e terra. 4 x 12 x 8m.
Moinho (detalhe).

Para concluir esta postagem, nos ocorreu colocar lado a lado as obras Drifter e Xilonoma Chamusquius, pensando em sugerir breves considerações que apontam similaridades e distanciamentos entre o coletivo Drift e Henrique Oliveira. Diante do observador, o cubo de Drifter (não esteve na mostra do CCBB), feito aparentemente de concreto armado, flutua misteriosamente no espaço. Já na proposição de Oliveira entranhas chamuscadas irrompem ocupando o ambiente. Drift argumenta que seu trabalho se refere ao livro Utopia (Thomas More, 1516) e sonha o improvável; Oliveira constrói um título remetido à nomenclatura científica, apresentando a ideia de um tumor de madeira e emprestando a sensação de se presenciar um abcesso proeminente e irrefreável.  
Estão presentes, em ambos planos poéticos, paralelos carregados de contextos metamórficos e que discutem coexistência e transitoriedade. Contudo, para além das disparidades entre a tecnologia digital de um e a engenharia orgânica de outro, desperta-nos um certo interesse a evocação de distintas materialidades, supostamente evidenciadas na acareação entre o cimento e a madeira; memória mineral no bloco de concreto em contraposição com a memória vegetal do compensado; os contrastes entre as sinas no processo de coesão cubiforme (concreto armado) em oposição à celulose fragmentada (vegetal desaglomerado); o cubo sintético inanimado versus a forma orgânica viva; linhas retas inflexíveis x linhas curvas e dobráveis. Enquanto o cubo é insondável, o tapume se abre para interioridades.

Realça uma confluência, de toda forma, que coloca em pauta as ilimitadas extrapolações sobre o meio ambiente, causa de brutal devastação da natureza e que sugere, em uma perspectiva crítica, a retomada de territórios ancestrais, um ato de reterritorialização.

 Drifter (2017-21)
Técnica mista, robótica, sistema de rastreamento.
4,0 x 2,0 x 2,0m
Foto: Ronald Smits
Xilonoma Chamusquius (2010).
Madeira compensada queimada, pigmentos
3,3 x 4,4 x 0,9m.
Foto: Everton Ballardin

REFERÊNCIAS

DRIFT – vida em coisas. Catálogo do Centro Cultural Banco do Brasil. Disponível em <https://ccbb.com.br/programacao-digital/acervo-digital/>. Acessado em 15/06/2023.

DRIFT. Página do Studio Drift na internet. Disponível em <https://studiodrift.com/>. Acessado em 09/06/2023.

Studio DRIFT. Canal no YouTube. Disponível em <https://www.youtube.com/@studiodrift5342> Acessado em 01/06/2023.

Movimentos vegetais. Blog de biologia no portal UOL. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/biologia/movimentos-vegetais.htm> Acessado em 01/06/2023.

Two Years After Studio Drift’s Floating Monolith Dazzled the Armory Show, It’s Back and It’s Bigger Than Ever. Artnet News. Disponível em <https://news.artnet.com/art-world/finland-studio-drift-1481722> Acessado em 01/06/2023.

Henrique Oliveira. Página do artista na internet. Disponível em <http://www.henriqueoliveira.com/defaultBR.asp>. Acessado em 01/06/2023.

Tapumes. Ricardo Resende. Disponível em <http://www.henriqueoliveira.com/portu/depo2.asp?cod_menu=2&flg_Lingua=1&cod_Depoimento=32>. Acessado em 03/06/2023.

De Humani Corporis Fabrica. Trailer do documentário. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=wBu0Dh8wy0U>. Acessado em 05/06/2023.

rooted in nature, henrique oliveira reflects on intervening in the fabric of reality. Revista designboom. Disponível em <https://www.designboom.com/art/henrique-oliveira-intervening-fabric-reality-interview-05-18-2021/>. Acessado em 06/06/2023.

IJsselbiënnale 2023. Henrique Oliveira, Mill. Disponível em < https://ijsselbiennale.nl/kunstenaars/henrique-oliveira/>. Acessado em 06/06/2023.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *