O fenômeno da luz

Por Daniel Escobar

Com frequência temos acompanhado as notícias de grandes catástrofes climáticas associadas ao fenômeno de aquecimento global que decorre da falta de limites em relação ao consumo de bens naturais. Se, por um lado, a tecnologia é uma grande aliada do projeto capitalista global, contribuindo com o acelerado
processo de degradação ambiental que temos vivenciado, por outro, ela também representa um futuro possível que passamos a vislumbrar com base nas fontes renováveis de energia e outros avanços recentes. Nas artes visuais esta relação entre natureza e tecnologia tem conduzido parte das narrativas atuais
demonstrando, acima de tudo, um compromisso com a produção de debate e posturas críticas que possam ajudar a repensar as relações humanas no contexto ambiental global. Este cenário acaba também por favorecer uma suposta correspondência direta que a cidade teria com o desenvolvimento tecnológico,
enquanto a natureza ocuparia uma posição mais intocada, uma visão moderna (e hoje anacrônica) de oposição entre natureza e civilização. Ocorre que, sendo a urbe um organismo resultante do modo de vida coletivo de nossa espécie, seria adequado pensarmos a cidade como algo fora da natureza? E, sendo a cidade também natureza, haveria algum modo de conexão entre indivíduos e ambiente que pudesse ser motivado por sensações mais primitivas de conforto e bem-estar? Podem a arte e a tecnologia, em sua relação com a natureza, produzirem infraestruturas que impactem positivamente a qualidade de vida nas grandes cidades. O texto que segue apresenta um conjunto de obras criadas por artistas que atuam na fronteira entre a arte e o design, usando a tecnologia como uma ferramenta capaz de evidenciar a ausência de limites definidos entre cultura e natureza.

No ano de 2003, quando começavam ganhar corpo as discussões sobre o clima, o artista dinamarquês Olafur Eliasson projetou a instalação The Weather Project, para a Tate Modern em Londres. Conhecido por suas obras imersivas de grande escala que exploram elementos como a luz, a água e a temperatura do ar, Eliasson ocupou o Turbine Hall com uma experiência sensorial que tornou possível aos visitantes desfrutarem de um pôr-do-sol no interior de um museu. A magnitude do espaço, que exibe em geral esculturas de escala monumental e grandes instalações, foi evidenciada pelo artista através de um grande vazio. O teto foi revestido por placas de espelhos, duplicando visualmente o volume do vão e, no alto da parede, um semicírculo composto por 200 lâmpadas de monofrequência foi refletido no espelho, criando a sensação de uma grande esfera incandescente. O espaço foi envolto por uma discreta camada de névoa artificial conferindo densidade ao vazio e ampliando a sensação de distância entre os corpos que transitavam pela sala. Projetar meticulosamente o vazio é uma das especialidades de Eliasson, no entanto o objetivo central de suas instalações é a ocupação destes ambientes pelas pessoas e, no caso específico de The Weather Project, pode-se afirmar que esta ação foi realizada com muito êxito, uma vez que a mostra superou a marca de dois milhões de visitantes, ampliando vertiginosamente o alcance de sua obra.

Olafur Eliasson. The Weather Project, 2003. Tate Modern, Londres

Lançada em 2019, a segunda temporada da série documental Abstract: the art of design, produzida pela Netflix tem seu primeiro episódio dedicado a Eliasson onde é possível conhecer o processo de trabalho do artista em um passeio por diversas obras site-specific, entre elas The Weather Project. É impactante perceber o modo como esta ambientação é apropriada pelo público e como o artista consegue definitivamente subverter um certo tipo de fruição contemplativa característico das obras de arte, ativando sensações que conectam as pessoas a esta nova paisagem, suscitando o desejo de permanecerem no interior de um museu, desempenhando diferentes atividades introspectivas como meditação, ioga,
alongamentos e exercícios físicos variados. Ao representar um fenômeno da natureza conferindo-lhe escala arquitetônica, o artista utiliza a tecnologia para negar certa noção moderna de museu de arte, ainda arraigada no senso comum, onde a neutralidade do espaço criaria uma situação de desconexão com a
realidade favorecendo assim a fruição estética. Ocorre que nesta experiência a arquitetura do museu é manipulada a ponto de elucidar uma paisagem externa, invertendo as relações de dentro e fora e dotando o interior de uma dimensão infinita, uma sensação espacial que talvez nenhuma paisagem real possa
reproduzir.

Sendo assim, o grande fascínio criado pela obra de Eliasson, está menos na sua capacidade de reprodução ou simulação de um fenômeno natural, e mais no modo como consegue construir uma experiência tecnológica e inovadora, produzindo um fenômeno artificial que impacta justamente por estas características, mas que conseguiu ativar um tipo de vivência sensorial com o ambiente, em uma intensidade que poucas paisagens naturais despertariam neste mesmo público. Esta compreensão da natureza e das sensações humanas mediadas pela arquitetura e pelos adventos tecnológicos me parece a grande inteligência do artista, com uma obra que a cada movimento nos convida a pensar a natureza de modo ampliado, atravessada pelas noções de cidade, design e cultura que constituem nossas vivências e memórias cotidianas. De certo modo, esse ponto de vista pode ser verificado já no conceito de objetos técnicos, desenvolvido por Gilbert Simondon, que identifica na técnica, uma singularidade dos humanos como seres naturais, sem projetá-la em uma transcendência enganosa ou autodestrutiva. Segundo o autor, “existe uma beleza própria dos objetos técnicos, beleza que aparece quando estes objetos são inseridos num mundo geográfico ou humano: a impressão estética é então relativa à inserção, é uma espécie de gesto.” (SIMONDON, 1989 p. 275).

A prática de Eliasson não se limita a ocupação de museus e galerias e estende-se também para o desenvolvimento de projetos arquitetônicos, intervenções em espaços públicos ou ações de educação artística, social e ambiental. Em outro projeto igualmente ambicioso, mas inserido no corpo da
cidade, o artista trabalha com a noção complexa de espaço público na contemporaneidade, criando cachoeiras artificiais que aparecem em meio ao denso tecido social, ambiental e político da cidade de Nova York. The New York City Waterfalls (2008) consiste em quatro quedas d’água medindo entre 90 e 120 metros de altura que foram instaladas na orla do Est River. Produzidas com materiais industriais onipresentes na cidade, as cachoeiras tiveram sua espinha dorsal constituída por andaimes de construção e um sistema de canalização acoplado a uma bomba que tornou possível conduzir a água do rio até o alto das estruturas.

Olafur Eliasson. The New York City Waterfalls, 2008. Intervenção na cidade de Nova York.

As cachoeiras de Olafur são estruturas tecnológicas desenvolvidas por uma equipe de aproximadamente 200 profissionais de design, engenharia e construção, e que foi capaz de evidenciar o ambiente natural de uma cidade como Nova York, atrelado à sua paisagem industrial e comercial. A vista para o rio tantas
vezes escondida pelo caráter monumental da arquitetura, torna-se, através dela, uma atração turística, ainda que temporária, possibilitando repensar a relação que estabelecemos com estes ambientes espetaculares, evocando experiências individuais e aumentando um senso de coletividade. Se à distância o mecanismo ganha ares de arranha-céu, e torna-se digno de cartão postal em uma cidade que cresce vertiginosamente para cima, de perto, a atmosfera criada pela névoa e pelo som da queda são capazes de encobrir a cidade, para que se viva a experiência de uma catarata. Importante lembrar que cachoeiras e cataratas são o motor para a geração de energia elétrica e que equiparar quedas d’água à silhueta de edifícios é também um modo de dimensionar o consumo de recursos naturais tomando como
medida a escala das grandes cidades. Para além da paisagem inebriante proporcionada por Waterfalls, e do modo como a obra consegue despertar um desejo de aproximação com o rio no coração de uma megalópole como Nova York, existe também um comentário crítico e bem-humorado acerca das escalas e
proporções utilizadas para projetar o espaço das grandes cidades. Além disso, o processo de produção desta obra pública atenta para a necessidade de cuidados com o ambiente que projetos ambientais em grande escala não podem ou não deveriam negligenciar. Para proteger os peixes e a vida aquática, a água foi filtrada através de piscinas de captação suspensas no rio abaixo de cada estrutura. Seu funcionamento utilizou “energia verde” – eletricidade gerada a partir de recursos renováveis – e a iluminação noturna empregou lâmpadas de LED.

Um pôr-do-sol ou uma cachoeira conseguem mobilizar certo deslumbramento através do belo, enquanto outros fenômenos da natureza podem nos causar comoção por sua grandiosidade e seu aspecto sublime. Se na transição do neoclassicismo para o romantismo a arte teria a importante tarefa de representar este inconcebível, algumas produções contemporâneas demonstram uma habilidade em equilibrar imaginação e razão, como é o caso da dupla paulistana Motta & Lima (Gisela Mottta e Leandro Lima) que cria representações de diferentes fenômenos, com base no universo de informações e aparatos tecnológicos que hoje nos ajudam a decodificar a natureza. Este é a caso da obra Zero Hidrográfico (2010), onde um conjunto de 60 lâmpadas fluorescentes são montadas sob pequenos pilares motorizados que sobem e descem, compondo uma malha luminosa cujo movimento elucida o balanço do alto-mar. A obra surge da
constatação da dupla de que as ondas na superfície do mar, que aparentemente resultam do deslocamento da água, na realidade são apenas o deslocamento do movimento da onda sem que haja qualquer deslocamento de água. A instalação reproduz certa vertigem que o mar é capaz de provocar, mas o que nos deixa perplexos é a organicidade do movimento que não pode ser desvinculada da rigidez de seus elementos constitutivos. A suave onda luminosa que após alguns minutos se acomoda em nosso olhar, volta a nos confrontar quando piscamos o olho e percebemos o mecanismo rígido em perfeita sincronia. Não é difícil pensar que o descompasso de uma das peças poderia gerar um caos autodestrutivo, ou
um verdadeiro maremoto com estilhaços de lâmpadas quebradas. Zero hidrográfico (Chart datum) é a altitude de referência a partir da qual são medidas as profundidades do oceano. De certo modo, o título da obra surge como um comentário crítico sobre a alteração do nível das águas do mar, um dos principais
riscos associados ao aquecimento global, tendo como consequência a elevação do nível médio dos oceanos.

Motta & Lima. Zero Hidrogáfico, 2010.
60 lâmpadas fluorescents T5, 36 mecanismos motorizados.

Já em Relâmpago (2015), a dupla de artistas explora a potência e o mistério dos raios, numa interessante colisão entre as forças da natureza e a energia elétrica, sem a qual a civilização não mais sobrevive. Em Relâmpago, o fenômeno natural de mesmo nome é transposto para o interior de uma galeria. Assim como em Zero Hidrogáfico, uma composição criada por lâmpadas tubulares dá forma para a obra, desenhando o raio luminoso no espaço tridimensional. A peça é composta por lâmpadas do tipo activiva, que, segundo o fabricante, promovem o bem-estar e a produtividade do ser humano, além de estimular a fotossíntese. Ao investigarmos aspectos da simbologia relacionada aos relâmpagos, podemos encontrar teorias científicas que apontam as descargas elétricas como fundamentais para surgimento da vida. Na história humana, foi
possivelmente a primeira fonte de fogo, fundamental no processo da evolução. De um modo geral, seja do ponto de vista científico ou mitológico, o raio representa um poder criador e uma força destrutiva, sendo simultaneamente vida e morte.

Motta & Lima. Relâmpago, 2015.
Lâmpadas T5 activiva, cabos, reatores e suportes de alumínio.

Em 1977 o artista Walter de Maria instalou 400 postes de aço no deserto do Novo México, atraindo um grande volume de descargas elétricas durante uma tempestade. Campo de Relâmpagos é uma obra produzida com base em preceitos estabelecidos pela Land Art, movimento derivado da arte conceitual que buscava conectar pessoas e natureza de modo profundo e significativo a partir de intervenções ambientais que tomavam a própria paisagem como elemento central da obra. Enquanto a proposta de Walter de Maria abordava uma relação entre cultura e natureza que pode ser evidenciada na tentativa de manipular um
fenômeno, como forma de gerar um evento sem proporções previamente definidas, o Relâmpago de Motta & Lima é uma linha luminosa constante, previsível e esquemática, que ilumina o interior de uma galeria ou museu. Um raio que comenta o interesse pelos fenômenos em uma era de hiperinformação e realidade virtual. Um circuito de cabos e reatores que integra a magnitude das descargas elétricas e o conforto da eletricidade em fluxo contínuo, gerando novas simbologias de vida e morte.

Certa vez, ao visitar uma exposição fui absorvido por um conjunto de pequenos pontos luminosos sobre uma tela retangular negra. Uma espécie de céu estrelado me conduziu para perto da peça, para em seguida desmentir minha primeira impressão. O objeto na parede apresentava o desenho do mapa de uma
cidade sobre uma caixa de luz, sendo parcialmente coberto por uma placa de acrílico preto com pequenos orifícios que desenhavam o mapa do céu desta mesma cidade. Ao observar a obra através da fenda que separa os dois planos, as estrelas luminosas imediatamente tornam-se furos iluminados, uma vez que a luz
não estava a emanar dos astros celestes, mas da trama de uma cidade. Quem ilumina? Quem é iluminado? Universos Paralelos (2011), da artista gaúcha Marina Camargo estabelece um parâmetro para a relação entre cultura e natureza a partir da cartografia e das representações planares. O título da obra pode remeter aos multiversos e a existência de variações possíveis de nossa realidade, mas seu mecanismo confere um novo sentido ao termo. Colocando a cidade e o céu em planos paralelos, Marina cria um conjunto de coordenadas que definem nosso verdadeiro lugar hoje, evidenciando uma relação de interdependência que se revela através da luz – elemento tão essencial para a natureza quanto para a civilização.

Marina Camargo. Universos Paralelos (São Paulo), 2011.
Desenho em caixa de acrílico com luz. 50 x 70 x 12cm

REFERÊNCIAS


CAMARGO, Marina. Site da artista. Disponível em https://marinacamargo.com/ Acesso em: 10 de julho de 2023.
LIMA, Leandro. Site do artista. Disponível em https://aagua.net Acesso em:10 de julho de 2023.
OLAFUR ELIASSON: O Design da Arte (temporada 2, ep.1). Abstract: The Art of Design. [seriado]. Direção: Scott Dadich. Netflix, 2019. (45 min.)
OLAFUR, Eliasson. Site do artista. Disponível em: https://olafureliasson.net. Acesso em: 10 de julho de 2023.
SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existence des objets techniques. Paris: Aubier, 1989.

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