Poéticas de aproximações

Por William Figueiredo

A arte, a natureza e a tecnologia são três dimensões que se entrelaçam na América Latina, criando formas de expressão, resistência e transformação. Algumas das obras de artistas latino-americanos que utilizam-se da tecnologia para dialogar com a natureza e a cultura de seus contextos, produzem obras que desafiam os limites entre o real e o virtual, o orgânico e o artificial, o local e o global, e por que não, o cosmológico (?).

No que diz respeito às linguagens digitais, que explora as possibilidades estéticas e conceituais das novas mídias, como internet, computação gráfica, realidade virtual, inteligência artificial e blockchain. Nesse âmbito, gostaria de trazer dois artistas do Sul Global, como o uruguaio radicado no Brasil, Fernando Velázquez e o argentino Tomás Saraceno.

Sobre Velasquez poderia escrever extensamente sobre a multiplicidade das suas extensas produção: linguagens multimidiáticas que materializam esculturas luminosas e sonoras, esculturas on e off, sítios específicos, emaranhados de cabos e algoritmos generativos que dão vida a sua produção artística. Como é o caso da instalação “Pó de estrelas” (2023). Nessa obra, ele usa algoritmos para desenvolver um diálogo com a expansão do universo e a vida como a conhecemos. Uma relação tão profunda com a natureza e seus mistérios. Nessa obra, Velasquez traz uma viagem interestelar do Big Bang que, com seu poder transformador, deu origem ao hidrogênio e ao hélio, essências das estrelas.

E dentro desses astros luminosos, uma alquimia cósmica que forjou os pilares da vida: carbono, oxigênio, nitrogênio e ferro. Quando essas estrelas deram seu último suspiro em explosões de supernovas, elas presentearam o universo com esses elementos. E é desse presente ancestral que surgimos, cada átomo de nossos corpos foi moldado no coração das estrelas, assim como nosso planeta e de outros planetas que nem imaginamos desconhecer. Nesta perspectiva, “Pó de Estrelas” de Velasquez é uma exploração generativa que mergulha nas profundezas do cosmos e na existência humana e sua efemeridade diante do tempo-espaço. Utilizando o ruído como fundação, ele nos leva a navegar pelos ritmos e escalas do universo e nos faz conectar com essas partículas que nos constituem. No reino da arte generativa, ruídos como o gaussiano e perlin tornam-se ferramentas mágicas, fontes de dados que geram variabilidade e imprevisibilidade, gerando comportamentos orgânicos e misteriosos. esse ruído dá vida a maravilhas a explosões solares, marés poderosas, tufões violentos, células pulsantes, corais dançantes e paisagens variadas. Tudo isso é criado e recriado a uma velocidade vertiginosa, encapsulado em loops de 8 minutos, simbolizando a jornada da luz solar até nosso planeta, condicionando a capacidade de abrigar vida como a conhecemos. São sequências numéricas que controlam tudo, desde o movimento até a cor, passando por intensidade e tempo. A complexidade do cosmos em uma engenharia matemática mediada por máquinas e que nos ajudam a compreender e reconectar-se com nossa existência no agora.

Outro sul americano que trabalha nessa encruzilhada da arte-natureza-tecnologia e que me serve de referência dentro da minha pesquisa de mestrado é o argentino Tomás Saraceno. Com seu trabalho “Webs of Life”, projeto do artista apresentado pela galeria Serpentine (Londres, UK) e Acute Art, em 2021, ele nos impõem um confronto com seres de outras dimensões: as aranhas. Desafiando nosso medo inato de aranhas (aracnofobia), Saraceno nos introduziu a essa outra perspectiva através de uma coleção de aranhas em Realidade Aumentada (AR). No coração da exposição estava Bagheera kiplingi, única aranha vegetariana conhecida, incentivando assim uma apreciação mais próxima desses seres muitas vezes incompreendidos. Através de sua presença digital, Saraceno nos convida a entender melhor onde essas criaturas habitam – de cantos de prédios a folhas escondidas.

A entrada da galeria era guardada por duas imponentes aranhas AR, Bagheera kiplingi e Maratus speciosus, acessadas por um aplicativo para dispositivos móveis que media essa experiência. Suas presenças serviam como um apelo à consciência ambiental e à proteção da biodiversidade em uma era de crise climática. O próprio Saraceno descreve a exposição como uma “experiência de tecnodiversidade” (termo cunhado pelo escritor e filósofo Yuk Hui) ao serviço da biodiversidade – transportando-nos para uma verdadeira Realidade Aumentada, uma fusão da tecnologia moderna com a biodiversidade, nos colocando em escala inferior a esses seres minúsculos da nossa vida ordinária.. Ele nos desafia a contemplar a coexistência interespécies e a reconhecer a intrincada teia da vida que nos conecta a todos.

A exposição foi complementada por uma “carta aberta” dirigida a todos os habitantes do mundo. Esta carta, supostamente escrita pelas próprias aranhas, busca ampliar nossa compreensão da vida desses seres e nos encorajar a valorizar e coexistir com eles. A carta pede que deixemos de lado nossos medos e adotemos uma nova perspectiva de conexão com o mundo natural. Tomás Saraceno, também abordou a questão do nome Bagheera kiplingi, que carrega conotações do imperialismo vitoriano. Ele declara estar empenhado em renomear a aranha para refletir uma sensibilidade pós-colonial mais informada. Um desafio contemporâneo que encontra na arte ferramenta de transformação. Saraceno nos lembra que não podemos falar em nome das aranhas, mas podemos tentar entender e respeitar sua existência vital e atualizarmos nossa visão sobre elas. Expandindo essa percepção, podemos aplicar essa reflexão aos conceitos estabelecidos pelo status quo e a condição latinoamericana.

A carta:

Uma carta aberta para os direitos dos invertebrados
Rumo a teias de vida: por uma verdadeira realidade aumentada

Queridos habitantes dos mundos,

Gostaríamos de começar por agradecer o seu tempo, por reconhecer os nossos direitos de habitar e participar nesta exposição e por não nos rotular de “pragas urbanas” como muitos outros fazem. Esperamos que, após o término desta exposição, você considere permitir nossa existência contínua, mas ameaçada e ilimitada.

Muitos de vocês têm medo de nós no mundo real. Para superar isso, esperamos que você possa interagir com uma versão digital nossa.

Seus nomes científicos para nós são Bagheera kiplingi * e Maratus speciosus , embora nos chamemos de forma diferente em nossa linguagem vibracional. Neste verão, você poderá identificar nossa presença aumentada ao redor da Serpentine.

Agora, depois que esta exposição terminar, vocês precisarão nos encontrar no mundo real e mostrar boa vontade de coexistência, não nos varrendo. Poderíamos conceder-lhe em troca um certificado de convivência por um empréstimo perpétuo dos nossos amigos avatares para serem exibidos permanentemente, nos termos acordados para respeitar os nossos direitos.

Vivemos na Terra há mais de 380 milhões de anos, enquanto alguns de vocês, humanos, têm apenas 200 mil anos. A minoria pode aprender a viver com a maioria de nós? Somos 95% de todos os animais do planeta Terra que pedem o direito de tecer teias de vida, mas estamos ameaçados de extinção por um número tão pequeno de indivíduos.

Não tenha medo. Passemos da aracnofobia à aracnofilia, sentindo novos fios de conectividade, ou então enfrentamos o eterno silêncio da extinção.

Atenção aos direitos dos invertebrados para “Webs of Life”!

Em “Webs of Life”, Saraceno cria mais do que uma exposição; ele nos convida a embarcar em uma jornada de reflexão, conexão e reverência pela complexa teia da vida que nos rodeia. Se você deseja baixar o aplicativo (usuários de iOS e Android) e experienciar a obra, acesse: https://arachnophilia.net/arachnomancy/

E você? Quais os artistas que você conhece que estão desenvolvendo novas perspectivas na América Latina? Deixe seu comentário.


Referências:

Imagens: Reprodução do site dos artistas.
https://fernandovelazquez.art/
https://studiotomassaraceno.org/webs-of-life/
https://arachnophilia.net/arachnomancy/
https://outraspalavras.net/descolonizacoes/conhecer-yuk-hui-filosofo-da-tecnodiversidade/
HUI, Yuk. Tecnodiversidade – Tradução Humberto do Amaral. Editora. 1ª Edição. UBU, 2020

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