Instituto Yvy Maraey

Por: Mariana Wartchow

Palavras-chave: Arte, Natureza, Instituto Yvy Maraey, Ecologia, Sustentabilidade, Residência Artística

Açude no Instituto Yvy Maraey, 
foto: Mariana Wartchow, 2024.

O Instituto Yvy Maraey (ou “terra sem males”, em guarani) é uma propriedade rural com 10 hectares, localizada no extremo Sul da cidade de Porto Alegre. É um centro de produção e pesquisa em arte e ecologia, sem fins lucrativos. Ele nasceu a partir de um grande sonho: a vivência da arte com a natureza, o pensamento calcado em novas formas de interação com o meio ambiente: agricultura orgânica, autosustentabilidade, preservação da natureza em todas suas formas de vida. Queremos propor, nesse espaço, projetos inovadores, artístico-culturais-ambientais, que promovam, em suma, o crescimento humano. 

Nascido a partir de um sonho antigo, o Instituto Yvy Maraey foi fundado sob a inspiração do artista e arquiteto Irineu Garcia, na zona rural de Porto Alegre, como forma de aproximar arte e natureza através de práticas, encontros e diálogos entre diversos agentes.

Fonte: http://www.institutoyvymaraey.org.br

É um Instituto sem fins lucrativos, localizado em área rural na zona sul de Porto Alegre-RS, estando próximo da cidade, mas em uma área com características rurais. Apresenta uma paisagem de campo muito característico do Rio Grande Sul, com árvores, açude, área de preservação nativa, presença de pequenos animais silvestres, aves, gado, cavalos, galinhas, cães e gatos, em combinação com um ambiente de arte e produção artística, com casa, ateliê, muitas esculturas e instalações que conversam com o local.

O espaço é voltado para residências artísticas, compartilhamentos e trocas que relacionam os temas da arte e preservação natural, já tendo recebido eventos nacionais e internacionais. Estabelecendo parcerias de apoio e estímulo para trocas dentro do universo da arte em conexão ao natural.

Ele fica aos cuidados do artista Irineu Garcia, presidente do Instituto, e da crítica de arte Maria Amélia Bulhões.

Iniciou suas atividades em 2015, com o primeiro evento de compartilhamentos, onde diversos artistas têm a oportunidade de produzir e trocar reflexões. Esta proposta se repetiu em 2016, 2018 e 2023.

O programa de Residências artísticas se inicia em 2019, com a Residência internacional Kaá.

Irineu fala sobre seu sonho de um lugar de partilhas entre artistas, sendo que essa situação coletiva e de trocas acompanhou muito sua formação, desde o início da sua formação no Uruguai e depois ao longo dos anos em que participou de simpósios com a vivência coletiva de artistas. “Desde aquela época, sentia a necessidade de um lugar alternativo, onde os artistas pudessem compartilhar experiências de forma mais horizontal, como vivenciara no Uruguai. Estava lançada a semente de um desejo”. (Irineu Garcia, 2020).

É um local que estimula os sentidos pela natureza ali presente, com suas variações conforme os horários do dia e clima. A presença de muitas obras de arte integradas ao ambiente natural, cria uma conversa e aproximação contemplativa de conexão entre o processo artístico, natureza e importância da preservação. Os animais que vivem no local, sejam domésticos ou selvagens, ampliam a relação com os seres para além dos humanos.

Cavalos no campo do Instituto, foto Mariana Wartchow, 2024.

Pensando sobre o processo artístico em relação com a natureza e preservação, trago Bruno Latour para a reflexão, onde a nossa alienação por nos sentirmos separados do mundo natural, onde se utiliza para humano o que o distingue da natureza.

A própria expressão “relação com o mundo” demonstra até que ponto estamos, por assim dizer, alienados. A crise ecológica é com frequência apresentada como a descoberta eternamente retomada de que “o homem pertence à natureza”. Uma expressão que parece simples, mas que, de fato, é muito obscura (e não apenas porque “o homem” é obviamente também “a mulher”). A ideia é que os humanos enfim compreenderam que fazem parte de um “mundo natural” ao qual devem aprender a se conformar? Com efeito, na tradição ocidental, a maior parte das definições do humano enfatiza até que ponto ele se distingue da natureza. Isso é o que se quer exprimir, mais frequentemente, com as noções de “cultura”, de “sociedade” ou de “civilização”.

(Bruno Latour, 2020)

Oportunidades de ambientes que reduzam essa alienação e oportunizem práticas ou experiências que nos tragam de volta sensação de pertencimento, da qual fomos afastados culturalmente são muito importantes, o Instituto se apresenta como um local com essa potência. Assim como a relação ritual e do sagrado que envolvem arte e natureza em uma perspectiva irreligiosa.

A relação ritual se mostra com a “árvore dos desejos”, é um exemplo desse mundo mágico criado no local, onde várias pessoas que estiveram no local deixam penas ali encontradas, acompanhadas de seus desejos, presas ao tronco rugoso de uma grande árvore do local.

Tronco da “árvore dos desejos”
 foto: Mariana Wartchow, 2024.

O estabelecimento de um universo da Arte, à parte da realidade do dia-a-dia, como um campo irreligioso do sagrado, vivido por seus membros e reconhecido pela sociedade como um todo, só é possível pela adesão profunda que cada obra é capaz de criar no espectador. Isso porque ela diz da individualidade do artista, mas diz também da individualidade daquele que a contempla, ou a experimenta de alguma forma, estabelecendo um tipo de vivência compartilhada. Para realizar esta tarefa, de estabelecer um novo campo de sagrado, a imagem artística necessita realizar um trajeto não linear, uma forma de desvio e de retorno. Diferentemente da imagem publicitária, ela não pode evaporar o sentido nem esvaziar a reflexão. Ao contrário, ela deve conduzir o espectador a ver e ao mesmo tempo tomar consciência de que algo lhe escapa, dar-se conta de que é impossível captar-lhe todas as nuances.

(Maria Amélia Bulhões, 2003, p.58)

Percebo o Instituto como uma forma de desvio e de retorno, ali a natureza mobiliza o encontro e a arte acompanha, um microuniverso se apresenta com essa relação íntima que traz novos significados existenciais e de partilha social, no sentido de compartilhar. Malcom Ferdinand traz a “grande partilha” da modernidade, falando da separação que coloca a humanidade acima da natureza. Então precisamos ir contra essa partilha homem-natureza, mas a favor de uma partilha entre as pessoas que as conectem com tudo que lhes envolve, precisamos relembrar e ativar a percepção de integração.

Por um lado, a fratura ambiental decorre desta “grande partilha” da modernidade, a oposição dualista que separa natureza e cultura, meio ambiente e sociedade, estabelecendo uma escala vertical de valores que coloca “o Homem” acima da natureza. Ela se revela por meio das modernizações técnicas, científicas e econômicas de domínio da natureza, cujos efeitos são mensurados pela dimensão da poluição da Terra, da perda de biodiversidade, das alterações climáticas e à luz das desigualdades de gênero, das misérias sociais e das vidas descartáveis geradas.

(Malcom Ferdinand, 2022)

 Irinei constantemente traz questões sobre o ambinete que lhe envole nos trabalhos, seja na escolha de materiais, como pedras da cidade, ou árvores retiradas da cidade, ou sobre o lixo, tomando a arte como esse campo de diálogo e conscientização.

Irineu Garcia em seu ateliê, local que também conta a história de anos de trabalho.
 Foto: Mariana Wartchow, 2024.

O ateliê conta com um prédio com dimensões amplas e estruturas para a realização dos trabalho, a área externa também conta com estruturas para o trabalho com pedras em grandes dimensões e toda a área que envolve como sítio também se torna um amplo ateliê para dar suporte e estimular a criação. Os visitantes que participam dos eventos também utilizam todo esse espaço extremamente favorável para suas criações.

Série de esculturas de Irineu Garcia em processo de instalação.
 foto: Mariana Wartchow, 2024.

Outros artistas que estiveram no local deixaram trabalhos que se integraram ao local.

Obra de Rumen Dimitrov, artista da Bulgária, que integrou a Residência Artística kaá.
 Foto: Mariana Wartchow, 2024. 
Instituto Yvy Maraey
foto: Mariana Wartchow, 2024.

Referências:


Site do Instituto Yvy Maraey: http://www.institutoyvymaraey.org.br/ 

E-book Kaá: Arte e Natureza / organizadores Maria Amélia Bulhões e Denis Rodriguez. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020. Disponível em: http://www.institutoyvymaraey.org.br/publicacao-publication/ 

BULHÕES, Maria Amélia. 0 imaginário da Arte: mitos e ritos na contemporaneidade. Salvador, EBA/UFBa, v. 1 pág 57-65n° 5,2° Semestre 2003.

FERDINAND, Malcolm. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu editora, 2022.

LATOUR, Bruno. Diante de Gaia – oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

Instituto Yvy Maraey: Arte e Natureza em Harmonia

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