Qual o peso do vídeo na arte contemporânea? Pode ser bem leve se consideradas as poucas gramas de um CD, mas bem pesado se levado em conta todo o equipamento e o pessoal mobilizado para uma videoinstalação. Essa é uma irônica abordagem para enfatizar a importância e o peso que pode ter o Estudiogaleria Mamute, focado na produção de vídeo, recentemente criado em Porto Alegre, sob a direção de Niura Borges. Sua localização em um prédio de 1925, tombado pelo patrimônio, na rua Caldas Júnior, 375, é interessante, pois se alocam em uma antiga construção as mais recentes tecnologias. Com ênfase na videoarte, a ideia inovadora desse novo espaço de arte na cidade é trabalhar com as tecnologias digitais da imagem, voltando-se à prática, à pesquisa e à exposição desta produção.Mamute, vale quanto pesa?
Articulado ao Estudiogaleria, foi criado, também, o Núcleo de Vídeo RS, com direção geral de Niura Borges, direção artística de Marcelo Gobatto, curadoria geral de Paulo Gomes, tendo como conselheiros Sandra Rey, Ana Maio e Maria Lucia Cattani. O Núcleo, que conta com a parceria do Santander Cultural, teve seu lançamento realizado na Sala Multiuso, com uma palestra de Hugo Fortes, “Imagens da natureza”. O palestrante é artista visual, pesquisador, designer e professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Como artista plástico, tem participado de inúmeras exposições, bienais e festivais no Brasil, e no exterior. O Núcleo de Vídeo RS se propõe a “organizar e representar toda a cadeia produtiva que ainda se enxerga segmentada em pequenos grupos de pesquisadores, artistas visuais, videomakers, produtores, divulgadores entre outros profissionais”. Muita gente trabalha com essas novas mídias e está se construindo uma cultura do vídeo, e o projeto do Núcleo de Vídeo RS e do Estudiogaleria Mamute é fazer parte deste processo dando sua contribuição para o futuro. O debate, a investigação e a experimentação são caminhos para o desenvolvimento dessa prática no meio artístico local. As inscrições estão abertas aos interessados.
Percebe-se, ainda hoje, grande dificuldade nas abordagens das produções artísticas que utilizam os meios digitais, em relação a demais produções de arte contemporâneas. A crítica mais tradicional, na maioria das vezes, alija de seus interesses obras cuja produção envolva, preponderantemente, inovações tecnológicas, não refletindo sobre as grandes transformações na visualidade que esse tipo de produção enseja. Parece ignorar que essa produção já se instalou definitivamente no campo das artes visuais e ganha terreno a passos largos, como se pode observar pela presença de fotos digitais interferidas, vídeos, vídeos-instalações e mesmo web arte em feiras, exposições e bienais internacionais. No vídeo digital, evidenciam-se novas possibilidades na abordagem da imagem, como, por exemplo, um mergulho visual que altera a relação do espectador com o espaço. O desenvolvimento das tecnologias computacionais oportunizou a criação de imagens que fogem de uma relação direta com a realidade, criando suas próprias referências. É possível utilizar na produção de vídeoarte tanto imagens captadas do entorno quanto imagens construídas por processos de síntese em computadores. Em ambos os casos, a função básica do uso de tecnologias digitais é provocar novas experiências perceptivas e afetivas.
Procurando ao mesmo tempo valorizar as especificidades do vídeo e aproximar estas produções do meio artístico contemporâneo, Niura Borges e sua equipe encontram na sua própria prática uma resposta para a demanda de um espaço como o que agora inauguram. A proposta envolve a difusão desta produção, expondo e comercializando as obras, com cópias certificadas e tiragens definidas pelos aristas, a realização de cursos, palestras trocas e experimentações na prática do vídeo. Este projeto inovador, voltado totalmente aos artistas da arte digital, tem um caráter teórico-prático-reflexivo.
A mostra inaugural do Estudiogaleria, “Exposição N1 – Condutores Digitais”, tem curadoria de Paulo Gomes, apresentando trabalhos de Andrei Thomaz (animação gerada por software), Maria Lucia Cattani (vídeo), Hugo Fortes (vídeo), Marcelo Gobatto (impressão digital e vídeo) e Sandra Rey (videoinstalação). O conjunto dos trabalhos apresentados oferece ao público um panorama das muitas possibilidades expressivas que a videoarte desenvolve. Essa é uma exposição que vale a pena ver com calma (é possível sentar em frente às obras), deliciando-se com cada uma, e dando a elas um momento de recepção que capte o fluxo de seus discretos movimentos. Um olhar apressado ou desatento dificilmente capta as sutilezas das imagens que com nos fazem perceber e sentir, de diferentes formas, a passagem do tempo.
Maria Lucia Cattani
Hugo Fortes
Sandra Rey
Marcelo Gobatto
A questão do tempo e do movimento é fundamental na videoarte, desde suas origens nos anos 60, quando essa expressão artística surgiu, com seu caráter crítico e experimental. Entretanto, foi nos anos 90, com o advento das gravações digitais, que esta prática se ampliou e consolidou, dando às videoinstalações uma amplitude de possibilidades através de inúmeros recursos de projeção. O caráter híbrido em relação ao uso da imagem e à linearidade das narrativas adotado pelo vídeo questiona definições de gênero em relação ao cinema e à televisão. Para quem se interessa pela vídeoarte e sua história, uma boa referência é o site, que disponibiliza on-line as mais importantes produções do gênero além de inúmeras outras informações.
Hoje ficou bem mais fácil e amplamente difundido o uso das tecnologias digitais de gravação, com equipamentos acessíveis de grande portabilidade, assim o vídeo passou a ocupar diferentes ambientes, incorporando-se no cotidiano, através de espaços como o YouTube. As inúmeras possibilidades técnicas e o desenvolvimento das linguagens favoreceram o advento de uma produção já madura e de grande qualidade. Prova disso, em nível nacional, são as dezoito edições do Festival Internacional de Arte Contemporânea Vídeo Brasil.
Muitos artistas fazem do vídeo um meio expressivo e constroem linguagens pessoais, mas a consolidação dessa prática no meio de arte ainda é uma tarefa, a ser realizada, mediante a ação conjunta de artistas propositores e espectadores participantes. As experiências que se inauguram em Porto Alegre, com o Estudiogaleria Mamute e o Núcleo de Vídeo RS, ampliam as possibilidades participativas, mostrando-se efetivamente como significativos espaços para os artistas e também para o público. Assim, cada artista, de acordo com seus processos de trabalho e seus objetivos conceituais, pode ali elaborar e discutir suas experiências. Ali, também, é mobilizada a sensibilidade dos espectadores, desafiando-os nessa zona onde imaginário e real se tocam e se cruzam, em busca de uma nova subjetividade.
Texto publicado originalmente no Jornal Sul 21 em 25/ago/2012
http://www.sul21.com.br/jornal/mamute-vale-quanto-pesa/











