A produção científica em Odontologia no Brasil: panorama e tendências

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Por Equipe bib.odo¹

Em 2025, o Brasil ocupa a segunda posição no ranking mundial de produção científica em Odontologia, segundo o SCImago Journal & Country Rank (SJR), ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Esse ranking, baseado na base de dados Scopus, avalia a quantidade e o impacto das publicações científicas por país e por área do conhecimento. A posição de destaque do Brasil evidencia a relevância da pesquisa odontológica nacional no cenário internacional e reforça a maturidade e vitalidade da comunidade científica brasileira.

Esse protagonismo é reflexo de um sistema acadêmico amadurecido, alicerçado em políticas públicas de incentivo à ciência, na consolidação dos programas de pós-graduação e na prática de publicação em periódicos internacionais de alto impacto. Compreender essa conjuntura pode orientar pesquisadores, definir políticas, desenvolver currículos e fortalecer a prática clínica da Odontologia.

Panorama da produção científica em Odontologia no Brasil

Em uma análise bibliométrica publicada na Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde (Reciis), Sígolo et al. (2022), examinaram a produção científica brasileira em Odontologia entre 2010 e 2020 a partir dos dados das bases Web of Science e Scopus. Por meio de uma abordagem híbrida, que combinou análise de desempenho e mapeamento científico, o estudo buscou destacar os principais atores da área (como autores, revistas e instituições), o impacto de suas atividades e os aspectos estruturais da pesquisa odontológica brasileira.

As análises revelaram que os autores que ocuparam as três primeiras posições em número de publicações (Quadro 1) também figuram entre os dez com maiores índices h e g, atuando majoritariamente na área de materiais dentários. Verificou-se uma forte colaboração entre autores, evidenciada pelas múltiplas autorias nas publicações. Além disso, a maioria dos pesquisadores está vinculada a instituições públicas situadas nas regiões Sudeste e Sul do Brasil.

Quadro 1 – Principais autores em relação ao número de publicações

Fonte: Sígolo et al. (2022)

Ao analisar as revistas com maior número de publicações relacionadas à Odontologia, constatou-se que a maioria é composta por periódicos de acesso aberto, de origem brasileira, publicados em língua inglesa e vinculados a instituições de ensino ou associações científicas.

Quadro 2 – Modelo de publicação dos periódicos com maior número de publicações

Fonte: Sígolo et al. (2022).

Com base nesses dados, Sígolo et al. (2022, p. 81) concluem que “a indexação dos periódicos brasileiros em bases de dados importantes, como a Scopus e a WoS, tem ampliado a visibilidade das pesquisas brasileiras na área”. Além disso, três desses periódicos que publicam artigos de autores brasileiros figuram entre os dez com maiores índices h, embora tenham origem nos Estados Unidos e enfoque nos temas de materiais dentários e endodontia.

Por fim, o estudo identificou que a maioria das colaborações ocorre entre pesquisadores afiliados a instituições brasileiras, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, formando padrões bem definidos em suas redes de colaboração.

Figura 1 – Rede de colaboração entre as instituições dos autores das publicações analisadas

Fonte: Sígolo et al. (2022).

Analisando a rede de colaboração, observa-se a centralidade de instituições como USP, UNICAMP e UFRGS. Esse dado é relevante, pois revela que a produção científica odontológica brasileira está fortemente concentrada em universidades públicas, responsáveis por sustentar a posição de destaque do país no cenário internacional.

Tendências temáticas da pesquisa odontológica brasileira

Complementando a análise quantitativa, o estudo de Sígolo et al. (2024), publicado na revista AtoZ: Novas Práticas em Informação e Conhecimento, explorou a dimensão temática da produção científica brasileira em Odontologia por meio da análise de palavras-chave de 22.880 artigos publicados entre 2012 e 2021. Com base na construção de redes de coocorrência e diagramas estratégicos, o estudo identificou temas centrais, emergentes e declinantes. 

Entre os termos mais frequentes nas palavras-chave, destacam-se: dental caries, endodontics, dental implants, oral health, orthodontics, epidemiology e periodontitis. As palavras endodontics e orthodontics foram especialmente recorrentes em 2017, enquanto o termo oral health teve crescimento significativo a partir de 2020.

A combinação dos termos mais frequentes permitiu a geração de uma matriz de coocorrência, agrupando palavras em conjuntos tematicamente próximos (Figura 2). As cores representam diferentes clusters, formados por termos fortemente relacionados.

Figura 2 – Rede de coocorrências de palavras-chave (2012-2021)

Fonte: Sígolo et al. (2024).

 A partir da construção dessa rede, Sígolo et al. (2024) identificaram seis grandes clusters temáticos: 

  1. Saúde bucal (cluster vermelho): dental carie, oral health, orthodontics, epidemiology, quality of life, child, malocclusion, children e prevalence;
  2. Endodontia (cluster azul): endodontics, one-beam computed tomography, diagnosis, chlorhexidine, root canal preparation, orthognathic surgery, mandible, temporomandibular joint, apical periodontitis, calcium hydroxide e sodium hypochlorite;
  3. Implantes dentários (cluster verde): dental implants, systematic, review, osseointegration, finite element analysis, meta-analysis, bone regeneration e pain;
  4. Materiais dentários (cluster marrom): dental materials, dentistry, composite resins, ceramics e dental;
  5. Dentina (cluster laranja): dentin, bond strength, dental enamel, fluoride, tooth bleaching, enamel e hydrogen peroxid;
  6. Periodontite (cluster roxo): periodontitis, saliva, periodontal diseases, inflammation, immunohistochemistry, periodontal disease, cytokines e oral cancer.

A análise desses clusters permite inferir tendências relevantes. Por exemplo, revisões sistemáticas e meta-análises se destacam na pesquisa sobre implantes dentários. No campo da saúde bucal, há um viés social significativo, enquanto os estudos sobre periodontite se concentram em aspectos inflamatórios e imunológicos.

Considerações finais

Estudos bibliométricos proporcionam uma visão abrangente de um campo científico. Elementos como a afiliação institucional dos pesquisadores, suas redes colaborativas e as tendências temáticas revelam uma Odontologia brasileira em constante evolução, sustentada por metodologias consistentes e por instituições públicas de ensino superior.

Para bibliotecas universitárias, como a da Faculdade de Odontologia da UFRGS, esse tipo de informação é estratégico, pois permite orientar melhor seus usuários na busca e seleção de conteúdos e desenvolver coleções mais alinhadas às demandas da pesquisa científica. Para alunos e pesquisadores, trata-se de uma oportunidade de compreender as particularidades da área e direcionar seus esforços para temas que reforcem e ampliem a Odontologia brasileira em posição de destaque internacional.

Notas

¹ Utilizamos a inteligência artificial generativa Chat GPT (modelo GPT-4-turbo) para revisão gramática do texto e sugestões de alteração da escrita visando tornar a leitura mais fluida.

Referências

SÍGOLO, B. O. O et al. Produção científica brasileira em odontologia: análise bibliométrica a partir das bases de dados Web of Science e Scopus. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação & Inovação em Saúde: RECIIS, Rio de Janeiro, v. 16, n. 1, p. 64–85, jan./mar. 2022. DOI:  https://doi.org/10.29397/reciis.v16i1.2404. Disponível em: https://www.reciis.icict.fiocruz.br/index.php/reciis/article/view/2404. Acesso em: 4 jun. 2025.

SÍGOLO, B. O. O.  et a. Mapeamento de tendências temáticas de pesquisas da odontologia brasileira: uma análise bibliométrica. AtoZ: Novas Práticas em Informação e Conhecimento, Curitiba, v. 13, 16 p., 2024. Disponível em: https://doi.org/10.5380/atoz.v13.89409. Acesso em: 4 jun. 2025.