Caso Jesse Gelsinger

Jesse Gelsinger era um rapaz de 18 anos de idade que tinha um distúrbio metabólico, de origem genética, denominada deficiência de ornitina transcarbamilase (OTC), que tem como principal consequência a não eliminação de amônia. Ele apresentavaum desenvolvimento compatível com a sua idade em termos de escolaridade e relacionamento social. Este distúrbio metabólico é raro, ocorre na proporção de 1/40.000 nascimentos. De modo geral os bebês afetados entram em coma com 72 horas de vida, resultando em seqüelas neurológicas graves. A metade dos pacientes acometidos morre no primeiro mes de vida. Apenas metade dos sobreviventes ultrapassa a barreira dos 5 anos de idade. Jesse Gelsinger tinha uma forma parcial deste distúrbio. No seu caso era controlável através de uma drástica redução da ingesta de proteínas e da utilização de medicamentos. Ele tinha que tomar 32 comprimidos por dia.

Ele foi convidado pelo seu pediatra para participar de um projeto de pesquisa fase I, primeira administração em seres humanos, de uma forma de terapia gênica para este distúrbio, no Institute for Human Gene Therapy (IHGT) da Universidade da Pennsylvania/EUA, em conjunto com a Genovo, Inc., que o patrocinaria. O pesquisador responsável era o Dr. James Wilson, vinculado a Universidade da Pennsylvania e a empresa Genovo, que havia sido fundada por ele em 1992. O objetivo básico era verificar se os vetores iriam atingir efetivamente as células-alvo. Os pesquisadores utilizaram adenovírus como vetores. Este tipo de vetor é de maior risco que outras formas. Ele não iria se beneficiar diretamente desta pesquisa, pois tinha o seu distúrbio controlado.

A pesquisa era dirigida para tentar tratar uma forma deste distúrbio que afeta bebês de forma mais grave. Inicialmente o projeto era para ser desenvolvido em bebês em estado terminal. O Prof. Arthur Caplan, eminente bioeticista da Universidade da Pennsylvania,  e que serviu de consultor de Bioética para o grupo de pesquisadores, achou inadequado solicitar que os pais de bebês nesta situação fossem consultados sobre a eventual participação de seus filhos em um projeto desta ordem. Ele deu a sugestão de que o projeto deveria ser realizado em indivíduos adultos e capazes de decidir por si próprios.

Jesse Gelsinger foi convidado para participar desta pesquisa pelo Dr. Steven Raper, vinculado a Universidade e ao Instituto,  em setembro de 1998. De julho a setembro de 1999 participou de inúmeros encontros com o Dr. Raper e o Dr. Mark L. Batshaw para receber detalhes sobre os procedimentos e os riscos envolvidos. O Dr. Batshaw era vinculado a Universidade, ao Instituto e ao Children's Hospital of Philadelphia (CHOP), onde o estudo efetivamente seria realizado.  O pai do paciente, Paul Gelsinger, não foi adequadamente informado sobre as reações de toxicidade hepática verificadas nos primeiros quatro participantes do projeto, nem sobre as reações adversas e mortes ocorridas em três macacos Rhesus, durante os ensaios pré-clínicos. O paciente e sua família também não sabiam sobre aos vínculos acadêmicos e econômicos dos pesquisadores. Estas informações não constavam no Termo de Consentimento Informado utilizado no estudo.  Vale salientar que o estudo havia sido aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (IRB) do Children's Hospital of Philadelphia (CHOP).

No dia 13 de setembro de 1999 foi dada uma infusão, na artéria hepática, do gene de correção da OTC, utilizando vetor adenoviral. Ele teve uma séria reação imunológica atribuída ao vetor e faleceu quatro dias após, quando foi constatada sua morte encefálica.

Jesse Gelsinger foi o primeiro paciente a morrer em um ensaio clínico de terapia gênica. Mais de 400 ensaios já haviam sido realizados envolvendo mais de 4000 pacientes.

A sua família entrou na justiça contra a Universidade, os pesquisadores, o consultor de bioética e o Comitê de Ética em Pesquisa, baseando-se nas falhas de obtenção do consentimento informado e nos eventuais conflitos de interesse presentes no projeto.

Assim que a morte do participante foi comunicada às autoridades norte-americanas, houve a interrupção do projeto. Em janeiro de 2000 as pesquisas de terapia gênica da Universidade da Pennsylvania foram interrompidas.  A Universidade encaminhou uma resposta ao FDA e após uma revisão de todos os projetos a maioria pode voltar a ser realizada.

O FDA lançou um aviso relembrando os pesquisadores sobre a importância de relatar os eventos adversos ocorridos em ensaios clínicos, especialmente os de terapia gênica. Após este aviso foram informados 691 eventos adversos, sendo que 652 já haviam ultrapassado o período de comunicação previsto.

Este caso é ilustrativo de como o processo de avaliação de um projeto de pesquisa deve ser minucioso, envolvendo a forma pela qual o consentimento informado vai ser efetivamente obtido junto aos participantes e sobre o acompanhamento de reações adversas durante os ensaios clínicos. Também é importante para relembrar sobre a possibilidade de conflitos de interesse dos próprios pesquisadores e instituições de pesquisa. Vale relembrar que 40% dos ensaios clínicos em terapia gênica em curso nos Estados Unidos são patrocinados diretamente pela indústria privada.



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Texto incluído em 25/09/2001 e atualizado em 27/09/2001
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