Rei Lear
Relações entre filhos e pais


José Roberto Goldim


A peça teatral Rei Lear, de William Shakespeare, escrita em 1606, aborda a relação dos filhos para com seus pais.

Rei Lear

Lear
...Digam-me, minhas filhas - já que pretendo abdicar de toda a autopridade, posses de terras e funções de estado-, qual das três poderei afirmar que tem mais amor, para que minha maior recompensa recaia onde se encontra o mérito natural. Goneril, minha filha mais velha, falará primeiro.

Goneril
Senhor, eu o amo mais do que podem exprimir quaisquer discursos; mais que a luz dos meus olhos, do que o espaço e a liberdade, acima de tudo que pode ser avaliado - rico ou sublime; não menos do que a vida, com sua graça, beleza, honra e saúde; tanto quanto um filho jamais amou um pai ou um pai jamais se viu amado; um amor que torna a fala inútil e a palavra incapaz. Eu o amo além de todos os valores disso tudo.

Cordélia (à parte)
E o que irá dizer Cordélia, agora? Ama; e cala.

Lear
De todos estes limites, incluindo o espaço desta linha a esta, florestas ensombradas e planícies cultivadas, os rios abundantes e as vastas pradarias, te faço aqui dona e senhora. Um direito perpétuo extensivo aos descendentes teus e da Albânia. Que diz nossa segunda filha, esposa de Cornualha, nossa amada Regana?

Regana
Eu sou feita do mesmo metal de minha irmã e julgo ter valor igual ao dela. Do fundo do coração acho que exprimiu também o meu amor, ao exprimir o dela; fica distante porém quando eu me declaro inimiga de quaisquer desses prazeres que os sentidos têm como supremos; só me sinto feliz em idolatrar Vossa Amada Alteza.

Cordélia (à parte)
E então, pobre Cordélia? Mas, contudo, não sei; pois teu amor, tenho certeza, é mais profundo do que tua. fala.

Lear
A ti, e aos que de ti descenderem, pertença para sempre este vasto terço de nosso belo reino, não menor em extensão, valor e encantos naturais do que foi dado a Goneril. agora, nossa alegria, embora a última e mais moça, por cujo amor juvenil os vinhedos da França e os prados de Borgonha disputam apaixonados; que poderás tu dizer que mereça um terço mais opulente do que o delas duas? Fala.

Cordélia
Nada, meu senhor.

Lear
Nada virá do nada. Fala outra vez.

Cordélia
Infeliz de mim que não consigo trazer meu coração até minha boca. Amo Vossa Majestade, como é meu dever, nem mais nem menos.

Lear
Vamos, vamos, Cordélia: corrige um pouco tua resposta, senão prejudicas tua herança.

Cordélia
Meu bom senhor, tu me geraste, me educaste, amaste. Retribuo cumprindo o meu dever de obedecer-te, honrar-te, e amar-te acima de todas as coisas. Mas para que minhas irmãs têm os maridos se afirmam que amam unicamente a ti? Creio que, ao casar, o homem cuja mão receber minha honra deverá levar também metade do meu amor, dos meus deveres e cuidados. Jamais me casarei como minhas irmãs, para continuar a amar meu pai - unicamente.

Lear
Mas, teu coração está no que dizes?

Cordélia
Está, meu bom senhor.

Lear
Tão jovem e tão dura?

Cordélia
Tão jovem, meu senhor, e verdadeira.

Lear
Pois se assim é, assim seja: tua verdade será então teu dote.(...) renego aqui todas as minhas obrigações de pai, parentesco e afinidade de sangue, e, de hoje em, diante, e para todo o sempre, te considero estranha a meu coração e a mim mesmo. (...) darei em meu peito acolhida, piedade e proteção igual a ti, que não és mais minha filha.

Shakespeare W. O Rei Lear. Porto Alegre: LP&M, 1994 (1606):10 (cena 1).


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texto incluído em 06/06/2003