Modos de Morrer
em Unidades de Tratamento Intensivo


Prof. José Roberto Goldim
Prof. Paulo R.A. Carvalho


Vários autores tem se preocupado com a questão do modo de morrer dos pacientes internados em Unidades de Tratmento Intensivo.

Lantos, Berger e Zucker publicaram em 1993 um artigo sobre a utilização de ordens para não reanimar pacientes pediátricos. Os resultados indicavam que 30% dos 54 pacientes pediátricos de uma UTI de Chicago/EEUU morreram sem que fossem feitas manobras de reanimação, devido a decisãos prévia neste sentido. Os dados referiam-se a um período de uma ano de acompanhamento.

O estudo multicêntrico SUPPORT ( Study to Understand Prognoses and Preferences for Outcomes and Risks of Treatment), realizado nos Estados Unidos durante quatro anos, iniciou com a seguinte afirmação:

Os sentimentos decorrentes desta constatação, percebida por muitos médicos intensivistas mesmo antes deste estudo, fizeram com que várias pesquisas fossem realizadas em diferentes locais do mundo sobre os diferentes modos de morrer dos pacientes internados em Unidades de Tratamento Intensivo.

Um estudo nacional realizado por Predengast, Claessens e Luce, com dados de 1997, nos Estados Unidos avaliou o modo de morrer de 6303 pacientes, após avaliar 74502 internações em UTIs.

No HCPA foi realizado um estudo por Carvalho e colaboradores, avaliando o modo de morrer de 44 pacientes da UTI Pediátrica, no período de julho/96 a junho/97.

Em ambos estudos foram considerados os mesmos critérios para avaliar o modo de morrer: morte encefálica, não resposta a manobras de reanimação cardiorrespiratória, decisão de não reanimar, não adoção de medidas de suporte de vida e retirada de medidas de suporte de vida.

Tabela 1 - Comparação entre os modos de morrer verificados em UTIs norte americanas e na UTI Pediátrica do HCPA.

Modo de Morrer

UTI Pediátrica
Chicago/1993

Estudo Nacional
EEUU/1997

UTI Pediátrica
HCPA/1997

Morte encefálica

24,0%

6,2%

34,1%

Não resposta a manobras de
reanimação cardiorrespiratória

46,0%

24,5%

25,0%

Decisão de não reanimar

30,0%

22,8%

20,5%

Não adoção de medidas de
suporte de vida

-

12,6%

4,5%

Retirada de medidas de
suporte de vida

-

33,9%

15,9%

O estudo de Lantos e colaboradores não apresentou dados referentes a não adoção ou retirada de medidas de suporte de vida. Desta forma, a comparação entre os resultados, exceto o relativo à morte encefálica, fica prejudicado. Não foram verificadas diferenças significativas entre as casuísticas norte-americana e brasileira quanto a não resposta a manobras de reanimação, quanto a decisão de não reanimar e a não adoção de medidas de suporte. A ocorrência de morte encefálica foi significativamente maior na amostra brasileira (X2=55,19; p<0,000001), quando comparada com o estudo geral de várias UTIs norte-americanas. Quando comparada com o estudo de Lantos, a proporção de mortes encefálicas não apresentou diferenças significativas. A retirada de medidas de suporte de vida foi maior na amostra norte-americana (X2=6,33; p<0,01) comparativamente a amostra do HCPA.


Lantos JD, Berger AC, Zucker AR. Do-not-ressucitate orders in a children's hospital. Crit Care Med 1993;21(1):52-55. (resumo MEDLINE)

The SUPPORT principal investigators. A controlled trial to improve care for seriously ill hospitalized patients: the Study to Understand Prognoses and Preferences for Outcomes and Risks of Treatments (SUPPORT). JAMA 1995;274:1591-1598. (resumo MEDLINE)

Prendergast TJ, Claessens MT, Luce JM. A national survey of end-of-life care for critically ill patients. Am J Respir Crit Care Med 1998;158:1163-1167. (resumo MEDLINE)

Carvalho PRA, Santo AE, Rocha TS, Hunsche A, Lago P. Modos de morrer pacientes internados UTIP do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Revista HCPA 1998;18(supl):239.

O Prof. Paulo R.A. Carvalho é pediatra intensivista, chefe do Serviço de Pediatria do HCPA, professor do Departamento de Pediatria da FAMED/UFRGS e membro do Comitê de Bioética do HCPA.


Critérios para Abordagem do Processo de Retirada de Tratamento
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Morte e Morrer - Material de Apoio
Página de Abertura - Bioética

Texto incluído em 27/12/1998
(c)Goldim&Carvalho/1998