Caso
Quimera Camundongo-Humana


José Roberto Goldim


O jornal CORREIO DO POVO, na edição de  sábado, 21 de agosto de  2004, publicou a notícia de que um pesquisador brasileiro, radicado nos Estados Unidos, havia gerado camundongos com neurônios humanos. Estas células, conforme a notícia, eram funcionais. O pesquisador ao ressaltar a importância da autorização do uso de células-tronco embrionárias humanas em estudos, afirmou que:

'Criamos uma quimera, cujo cérebro é, em parte, de camundongo e, em parte, de humano. O animal não apresentou nenhuma alteração de comportamento'.

Comentário

Em 1995, na França,  já havia sido transplantado tecido nervoso humano para cérebros de ratos, com a finalidade de verificar o desenvolvimento de tecido glial.

Desde 1997, quando foi solicitada a patente para um "humouse", ou seja, uma quimera camundongo-humana, este debate vem sendo realizado. 

A utilização de células-tronco embrionárias humanas em pesquisas científicas já é, em sí, um procedimento com inúmeras questões éticas que merecem reflexão. A utilização de células-tronco embrionárias humanas para a produção de quimeras é ainda mais discutível.

A utilização de células-tronco embrionárias para produzirem neurônios humanos em um camundongo se reveste de um conteúdo todo especial.

Qual é o significado moral de introduzir neurônios humanos em um cérebro de camundongo? Este camundongo passa a ter um estatuto diferente dos demais? Ou é apenas um experimento a mais, sem novas considerações éticas relevantes, além das já realizadas para outras pesquisas semelhantes?

A questão central desta reflexão é a da utilização de partes do ser humano como material de pesquisa. A tradicional diferença entre pessoa e coisa, fica comprometida quando células ou tecidos humanos passam a ser patenteados ou transferidos para outras espécies de seres vivos.

A perda de uma parte do corpo, em geral, não acarreta a morte do indivíduo. Exemplo disto são as amputações. O indivíduo perde uma perna, um braço, uma mão, mas continua a existir, a ser reconhecido como sendo uma pessoa. Da mesma forma, pode receber órgãos de outras pessoas, com rim, fígado, pâncreas, pulmão, córnea, sem contudo se transformar, por este motivo, em outra pessoa. Até mesmo órgãos de animais de outras espécies poderiam ser transferidos, sem que a característica humana do paciente receptor fosse sequer contestada A única exceção é o sistema nervoso central.

A partir de 1968 a caracterização do final da vida de um ser humano se deslocou do critério cardiorrespiratório para o critério encefálico. O funcionamento dos neurônios do sistema nervoso central passou a balizar a passagem da vida para a morte do indivíduo.  Caso fosse tecnicamente possível, não existiria um transplante de cérebro ou encéfalo, mas sim, este cérebro ou encéfalo é que receberiam um transplante de corpo. A identidade do indivíduo estaria preservada nas suas lembranças, no seu modo de ser, predominantemente nas suas características neuronais centrais.

Transferir células-tronco embrionárias humanas para um ambiente neuronal de outra espécie animal é ultrapassar uma barreira de investigação que merece ser adequadamente discutida e refletida antes que suas conseqüências possam ser irreversíveis. As questões que envolvem a dignidade ou a condição humana como ficam a partir deste momento? Esta pesquisa é o típico exemplo de "conhecimento perigoso", que merece ser refletido e avaliado em todas as suas conseqüências e não apenas desde o ponto de vista de sua possível e eventual aplicação terapêutica. A elucidação destas questões demandam mais pesquisas, realizadas de forma eticamente adequada para que possam permitir avançar os conhecimentos imprescindíveis ao desenvolvimento da humanidade.


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Texto incluído em 21/08/2004
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