Vikentii Vikentevich Veresaev - Memórias de um Médico (1901)

José Roberto Goldim



Vikentii Vikentevich Veresaev (1867-1945), cujo nome real era Vikentii Vikentevich Smidovich, foi médico, poeta e escritor russo.  Ele publicou vários textos literários e de crítica literária, especialmente sobre autores russos importantes como Dostoevsky, Tolstoi e Pushkin. Publicou, igualmente, uma crítica às posições assumidas por Friedrich Nietzsche.

Em 1901 publicou um livro - Memórias de um Médico - sete anos após ter se formado em Medicina. É um livro autobiográfico, mas contém algumas passagens que são fruto da criatividade literária do autor. Isto foi questionado pelo autor da apresentação da obra na sua versão em  inglês, publicada em 1916, Henry Pleasants Jr, que tambem era médico e autor do livro Doctor in the House.

Veresaev aborda vários tópicos em diferentes capítulos de seu livro, tais como: a fragilidade do corpo humano; as dificuldades que um jovem médico se confronta ao praticar a Medicina; os jovens médicos e a técnica; em Medicina, sem risco, sem benefício; a Medicina é arte e não ciência; a questão da vivisecção; a incerteza do diagnóstico; a relação do médico com os pacientes e especialmente com os pobres; a realção da Medicina com a seleção natural e a sobrevivência dos não adaptados; a morte do paciente; a conduta profissional e as relações do médica frente a vergonha, ao dinheiro e ao Direito.

Na edição norte-americana, o capítulo VIII, da versão original, foi publicado como um apêndice: Experimentos em Homens e Mulheres Vivos.   Neste texto o autor faz uma série de descrições de pesquisas realizadas em seres humanos que podem ser questionadas desde o ponto de vista ético, especialmente as produzidas por Neisser sobre gonorréia. Ele apresenta com detalhes várias pesquisas questionáveis realizadas em seres humanos, na sua maioria doentes, mulheres e crianças. Vale salientar que estes experimentos foram igualmente questionados por muitos outros autores. Em função do reconhecimento da inadequação destes procedimentos foram propostas as primeiras regulamentações para a realização de pesquisas em seres humanos nos Estados Unidos e na Prússia.

As suas críticas estavam explícitas em comentários contundentes, tais como:
"Estes bizarros discipulos da ciência seguiam seu caminho sem encontrar qualquer oposição efetiva, seja de seus discipulos ou da imprensa médica" (p.365).
"...martirologia dos pacientes infelizes oferecidos como vítimas da ciência..."(p.365)
Ele destacou o Dr. Manassein, que era o editor da revista Physician, como uma voz discordante do cenário de inadequações: "Não será a hora dos médicos se unirem e se levantarem em revolta contra estes experimentos, não interessando o quão instrutivos eles possam ser?"(p.366)


O autor também dedicou o capítulo XIX à questão da vivisecção de animais. Ele fez muitas críticas sobre o uso de animais em atividades de ensino e de pesquisa. Ele questionou a posição de Descartes e de Malebranche de desqualificar qualquer possibilidade de sofrimento dos animais. A sua proposta era de que não se mantivessem as práticas até então vigentes, mas que também não se proibissem totalmente os experimentos em animais. Ele afirmou que "não devemos ridicularizar as pretensões dos antivivisseccionistas - os sofrimentos dos animais são verdadeiramente horríveis e a simpatia para com eles não é um sentimentalismo". (p.155) A adequação no uso de animais era uma necessidade imperiosa para a prática da ciência, pois a "vivisecção é imprescindível à ciência médica".(p.151)


É um texto de referência histórica fundamental para entender a evolução do pensamento humano que resultou no estabelecimento do marco regulatório para a pesquisa em seres humanos.



Livro disponível na íntegra:

Veresaev VV. The Memoirs of a Physician. New York: Alfred A Knopf; 1916.

__________________

Referências

Rothman DJ. Strangers at the bedside. sl[New York}:Basicbooks, 1991:27-28.

Capron AM. Human experimentation. In: Veatch RM. Medical ethics. Boston: Jones and bartlett, 1997:137.

Kipper DJ, Goldim JR. A pesquisa em crianças e adolescentes. J Pediatr (Rio J). 1999;75(4):211–2.



Material de Apoio - Pesquisa em Seres Humanos

Voltar para a página inicial de Bioética

Texto incluído em 07/08/1999 e atualizado em março de 2019

(c)Goldim1999-2019