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O Estado da Cultura, 2024

Um vislumbre da sociedade do pós-entretenimento (e não é bonito)

Ted Gioia1

Todos os anos, o Presidente faz um discurso sobre “O estado da União”,2 mas é um sonífero. É só olhar para os seus valorosos representantes eleitos lutando para manter os olhos abertos. É porque eles já ouviram tudo isso antes.

Nós também. Nada muda na política. Não os candidatos, certamente.

Há mais variedade no posto de gasolina do meu bairro, onde pelo menos eu posso escolher entre três tipos de combustível e cinco sabores de Big Gulp.

Portanto, deixa a política para lá. Toda a ação agora está rolando na cultura do mainstream – que está mudando na velocidade da luz.

Eis porque, em vez disso, precisamos de um discurso sobre “O Estado da Cultura”. Minha fala do ano passado foi citada e mencionada e ela era absolutamente verdadeira naquele momento – mas ela já está tão obsoleta quanto o serviço de apoio ao usuário do ChatGPT-1 no Bored Ape Yatch Club.3

De fato, 2024 pode ser a época mais veloz – e perigosa – para a economia criativa. E isso vai ser verdade, não importa o que aconteça em novembro.4

Então vamos mergulhar de cabeça.

Quero te mostrar por que o entretenimento morreu. E o que está vindo em seu lugar.


Se a cultura fosse como a política, você teria apenas duas escolhas. Elas seriam mais ou menos assim:

Várias pessoas criativas acham que essas são as únicas opções – tanto para elas quanto para seu público. Ou elas dão à audiência o que ela quer (o trabalho do artista) ou elas fazem exigências ao público (é onde a arte começa).

Mas elas estão muito erradas.

Talvez seja mais inteligente olhar a economia criativa como uma cadeia alimentar. Se você é um artista – ou lutando para se tornar um – sua realidade frequentemente é essa.

© Ted Gioia

Até recentemente, a indústria do entretenimento vinha crescendo bastante – tanto que qualquer coisa muito pedante ou indie ou alternativa era considerada um efeito colateral.

Mas mesmo essa imagem inquietante não é inquietante o suficiente. Isso porque ela ignora a maior mudança que está acontecendo agora.

Estamos testemunhando o nascimento da cultura do pós-entretenimento. E ela não vai ajudar as artes. Na verdade, ela não vai ajudar a sociedade de modo algum.

Até mesmo esse grande peixe da figura está em apuros. Empresas de entretenimento estão em dificuldades de um modo que ninguém havia previsto anos atrás.

Tomemos o exemplo do cinema:

Os negócios da TV também atingiram o limite em 2023. Depois de anos de crescimento estável, o número de séries começou a encolher.

A música pode estar nas piores condições entre todas. Basta considerar a última grande jogada da Sony – investindo no catálogo de músicas de Michael Jackson, estimado em 1,2 bilhão de dólares. Nenhuma gravadora investiria sequer uma fração desse montante para lançar novos artistas.

Em 2024, os músicos valem mais velhos do que jovens, mais mortos do que vivos.

Isso levanta uma questão óbvia. Como a demanda por novos entretenimentos encolhe? O que poderia substituí-la?

Mas algo vai substituí-la. E já está começando a acontecer. Eis aqui um melhor modelo da cadeia alimentar no ano de 2024.

© Ted Gioia

O setor da economia da cultura que mais cresce é a o da distração. Ou chamemos de rolar ou passar pro lado ou perder tempo, tanto faz. Mas não é nem arte, nem entretenimento, só atividade incessante.

O segredo é que cada estímulo dura só uns poucos segundos e depois tem que se repetir.

É um baita negócio e logo vai ser maior do que arte e entretenimento juntos. Tudo está sendo convertido em TikTok – uma plataforma apropriadamente batizada para um negócio baseado em estímulos que devem se repetir após pequenos segundos no relógio.

O TikTok fez fortuna com vídeos de rolagem rápida. E agora o Facebook – outrora um lugar para se conectar com a família e os amigos – o está imitando. Tchauzinho, vovó; olá, reels. O Twitter fez a mesma coisa. E, é claro, o Instagram, o YouTube e todo mundo que está tentando enriquecer nas mídias sociais.

* * *

(Este é um excerto do texto original publicado em inglês em 18 de fevereiro de 2024. O autor gentilmente autorizou a publicação da tradução de parte do artigo. Para continuar a leitura, clique aqui. Tradução de Antonio Barros. Revisão da tradução de Camila Cardozo.)

  1. Ted Gioia é crítico cultural, historiador da música, produtor de discos e pianista de jazz. Publicou 12 livros, traduzidos para 11 línguas, e é autor da newsletter The Honest Broker. ↩︎
  2. Trata-se de um relatório anual apresentado pelo presidente dos EUA no Congresso, que aborda a situação corrente do país e as propostas do governo para a sequência do mandato (N. T.). ↩︎
  3. Bored Ape Yatch Club (BAYC) é o conjunto de NFTs (non-fungible tokens) que representa desenhos de macacos gerados por algoritmo (N. T.). ↩︎
  4. Referência às eleições presidenciais de 2024, que teve como vencedor o ex-presidente Donald Trump (N. T.). ↩︎

Carbono, vol. 1 – dezembro de 2024.
ISSN: 3085-7066

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