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Entrevista com Mariana Salomão Carrara

Nessa conversa com a autora vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura de 2023, tratamos de como a literatura aborda as questões sociais e ambientais no presente marcado, entre outras coisas, pelos agrotóxicos

Carlos, Guerlinda, Elvira, Alice, Maria e Pedro formam a família que protagoniza o último romance de Mariana Salomão Carrara, A árvore mais sozinha do mundo.1 Na zona rural do Sul do Brasil, eles plantam tabaco como forma de subsistência, em terras arrendadas de fazendeiros da região, que não se constrangem ao cobrar um alto preço pela produção e pelos insumos. Porém, não é a família que narra a história, senão os objetos da casa e, especialmente, a árvore solitária que se ergue no quintal da residência onde os personagens residem. São esses objetos que, de suas perspectivas próprias, e com estilos peculiares, narram os trágicos acontecimentos que cercam a vida das mulheres e de Carlos. Ao redor de tudo isso, eventos climáticos extremos perturbam a ordem do trabalho e das relações familiares. É, no entanto, um objeto silencioso que atua mais decididamente para o desdobramento da narrativa: o agrotóxico usado na plantação de tabaco devasta a saúde física e mental do patriarca, levando a mais dívidas, ao empobrecimento e, fatalmente, à diáspora do campo. Nesse livro, que coloca o Antropoceno, as mudanças climáticas e as condições materiais de reprodução da vida no campo num Brasil assolado pelo agronegócio, Mariana Salomão Carrara apresenta elementos de uma consciência ambiental, mesclados com a sensibilidade literária que marca a sua produção literária. Acompanhe, abaixo, a conversa que o Carbono teve com a autora.


ANTONIO BARROS: No seu livro, a história é construída a partir de objetos que narram o cotidiano da família. Com isso, você traz uma maior riqueza de perspectivas, que se manifesta também na variação dialetal dos narradores e, até mesmo, na forma como cada objeto vê o cotidiano dos humanos. De que modo essa escolha pelos objetos-narradores traz, para os leitores, uma maior compreensão dessa interrelação entre o humano e o vegetal, o humano e o material?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: Vejo esses narradores não-humanos como espiões domésticos, que têm uma relação afetiva com a história da família. A família não enxerga neles a consciência que têm, mas, ainda assim, ama-os de volta, já que também os objetos e a árvore são registros materiais da história deles, dos tempos antes do casamento, dos tempos antes das dívidas, da época das filhas pequenas. Ao acompanharmos os sentimentos e a tragédia da família pelo olhar afetivo desses que vivem ali em silêncio com eles, ganhamos também essa camada de carinho que eles já trazem ao relato, e, à medida que os humanizamos, vai ficando mais embaçada e tênue a fronteira que separa humanos da natureza ao redor e dos objetos. Talvez essa mistura seja uma forma mais ambientalmente adequada de enxergarmos nossa existência. Pode ser que lidemos melhor com as coisas do mundo se formos também essas coisas; somos nossa caminhonete, somos a árvore, somos o nosso lixo. 

ANTONIO BARROS: Me parece que esse recurso dos objetos-narradores torna o seu livro ainda mais especial. A antropomorfização da árvore, do espelho, da Rural e do equipamento de proteção casa perfeitamente com a ideia de que, num contexto de maior atenção ao clima, humanos e objetos vivem em correlações mútuas. Porém, o principal objeto do livro – o agrotóxico – não ganha voz, ainda que seja determinante para o desenrolar da trama. A que se deve esse silêncio? Você considerou colocar o agrotóxico como narrador em algum momento?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: Não me ocorreu essa ideia, talvez porque não me parecesse positivo humanizar o veneno. Os agrotóxicos pesadíssimos do tabaco são uma coisa morta e que mata. Por outro lado, já me fazia sentido dar voz ao equipamento de segurança individual, a roupinha, e colocá-la como a única roupa mais “jovem”, com oito anos, o que trazia o contraste da narração ingênua, infantil, justo no momento mais grave do contato da família com o agrotóxico. Isso reflete um pouco também a relação deles com o veneno, como mais uma das tarefas implacáveis da lavoura, obedecendo às regras da “firma” e do “orientador”, sem grande problematização e sem que haja espaço também para contestar o uso de cada defensivo. 

ANTONIO BARROS: Na verdade, a ideia do veneno, da toxina, perpassa todo o romance. Maria constantemente se envenena com a nicotina do tabaco. Carlos sofre as consequências diretas da lida com o agrotóxico. A mudez de Pedro pode também ter sido causada pelo defensivo agrícola durante a gravidez de Guerlinda. Parece que tudo o que acontece no livro tem como origem o veneno, desde a mudança no comportamento de Carlos até, por consequência disso, o incêndio no final. Você pretendia que o livro fosse lido como uma alegoria do presente climático, em que estamos sendo envenenados por gás carbônico, microplásticos e outros resíduos químicos?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: É interessante a leitura como alegoria do nosso apocalipse climático, nossos envenenamentos. Mas também é uma questão bastante literal, inspirada nas reportagens sobre a epidemia de suicídios no Rio Grande do Sul, associada aos agrotóxicos pesados do fumo. Também as estufas mais simples, com a falta de dinheiro para manutenção, comumente se incendeiam. Então esses retratos são bastante inspirados na realidade do plantio de tabaco no Brasil.  

ANTONIO BARROS: Além disso, outra presença constante, embora esquiva, é o clima. Enchentes e ondas de calor se alternam, prejudicando a produção na lavoura. A sazonalidade previsível dos romances rurais do passado dá lugar à imprevisibilidade e à impetuosidade do clima. E, no entanto, a família de Carlos e Guerlinda parece lidar com isso com resignação, o que torna o clima ainda mais elusivo. Você diria que ainda é difícil dar mais destaque ao clima dentro da forma romanesca? Ou a resignação da família é, no fundo, uma alegoria da apatia contemporânea?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: Acredito que a relação da família com as intempéries é mais de resignação, no sentido de não verem também nenhuma escapatória – como a árvore gosta de dizer, parece que eles têm mais raízes fincadas ali do que ela – e também de esperança – que é um sentimento que a árvore não compreende, parece descabido. Também se pode pensar que, ao mesmo tempo que a humanidade está implicada e é responsável pelas catástrofes climáticas, há humanos que as sentirão primeiro e mais violentamente, e são os mais vulneráveis, perdendo ali toda a sua plantação a cada oscilação fora do previsto. 

ANTONIO BARROS: Outro elemento que me parece determinante é a dívida, que, por sua vez, gera a pobreza. Seu livro não narra uma família totalmente pobre, mas sim uma família que vai empobrecendo por meio da despossessão e do endividamento. Até o veneno utilizado na plantação é comprado por meio da dívida, que vai minando os sonhos e as relações familiares. Como você chegou a essa ideia de equiparar a dívida e o agrotóxico como duas coisas que corroem as relações humanas e ecológicas?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: Essa ideia veio de uma reportagem da BBC que expunha exatamente essas duas situações, o hiperendividamento e a depressão por agrotóxicos, no contexto de algumas famílias plantadoras de tabaco no Sul do Brasil. Então, essa é a parte bem literal do livro, que me motivou a mergulhar nas pesquisas pra entender bem a situação.

ANTONIO BARROS: Por fim, o romance recupera outros tópicos que já estavam presentes em Não fossem as sílabas do sábado: a maternidade e o cuidado feminino do lar. Porém, diferentemente da tragédia pessoal de Ana, a tragédia de Guerlinda, Elvira, Alice e Maria é de cunho socioambiental e econômico. Em relação a esses tópicos, que diferenças existem entre um romance e outro?

MARIANA SALOMÃO CARRARA: Os dois romances mantiveram as minhas tendências a tratar do doméstico, íntimo, na primeira “pessoa” (ainda que dessa vez fora dos humanos), e também o tema da maternidade (nesse caso três gerações envolvidas) e a relação entre as mulheres. Acredito que o contexto social e a mudança radical das cidades para o campo sejam as grandes diferenças. Fazia tempo que eu queria mergulhar em algum ofício muito específico e retratá-lo minuciosamente, e acabei fazendo isso com a lavoura de tabaco e essa família.

* * *

  1. CARRARA, Mariana Salomão. A árvore mais sozinha do mundo. São Paulo: Todavia, 2024. ↩︎

Carbono, vol. 9 – agosto de 2025.
ISSN: 3085-7066

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