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Plataformas e a Crise da Imaginação Política

Neste artigo inédito, Letícia Cesarino aborda a crise da imaginação política e a necessidade de afirmação da soberania em um contexto mundial marcado pelo apoio das Big Techs à ideologia neorreacionária

Letícia Cesarino1

Com a ascensão de Donald Trump para um segundo mandato em 2025, e o alinhamento político cada vez mais explícito dos principais fundadores e CEO do Vale do Silício com sua política transacional e antidemocrática, a pauta da soberania foi catapultada para o centro do debate público e midiático brasileiro. O incrível imbróglio envolvendo a guerra tarifária com o Brasil foi se mostrando ser menos sobre a anistia a Jair Bolsonaro do que sobre o uso do Estado americano para defender interesses econômicos, notadamente, das chamadas big techs. O pix se coloca como entrave à expansão de empresas como a Meta no mercado brasileiro de pagamentos digitais, a Lei Geral de Proteção de Dados atrapalha o extrativismo massivo dos vampiros da Inteligência Artificial, o julgamento do Marco Civil da Internet pelo STF tornou-se uma pedra no sapato de uma indústria que acreditava já ter travado qualquer regulamentação significativa por meio de seus pesados lobbies junto ao Congresso Nacional.

Em meio ao escalamento das tentativas de interferência de Donald Trump no processo soberano de punição da intentona golpista no Brasil, o procurador do MPF-SP Yuri Luz fez um alerta crucial. A legislação em vigor relativa a “crimes contra a soberania nacional”, ao entender guerra e segurança nacional apenas em termos territoriais, não contempla muitos dos cenários que hoje se desenrolam, como a “weaponização” de tarifas comerciais e a possibilidade de empresas estrangeiras cortarem acesso a nuvens e outros serviços essenciais utilizados pelo próprio Estado brasileiro. Em outras palavras, a lei não antecipou que guerras e disputas por soberania ocorreriam, hoje, em larga medida em, e através de, infraestruturas de informação e comunicação. 

Isso significa que os debates sobre regulamentação de plataformas, Inteligências Artificiais e outros serviços digitais foram ultrapassados pelos eventos. Não que não devam prosseguir; mas não são mais caminhos suficientes para defender nossa democracia e, agora, nossa soberania. O jogo mudou. Agora, trata-se de uma disputa com as plataformas pelo que elas, na realidade, sempre foram: espaços de soberania paralela sobre os quais o poder público nunca teve ingerência alguma, a não ser via decisão judicial – justamente, a previsão do Artigo 19 do Marco Civil da Internet.

Se falamos de soberania, não estamos falando em política num sentido convencional, ou seja, de terreno comum compartilhado onde adversários possam debater ideias e propostas. Estamos falando de metapolítica e de uma lógica de guerra – não no sentido da violência, mas da estratégia e tática, de disputa por território, inclusive no “terreno humano”. Assim, diagnósticos de conjuntura são importantes, mas não num sentido especulativo ou contemplativo, e sim para orientar a ação tática no terreno móvel da guerra.

Nesse sentido, o diagnóstico é que a internet, no modelo plataformizado e hiperconcentrado que existe hoje, tornou-se uma ameaça existencial à democracia. Na atual conjuntura, a pauta da soberania digital assume uma urgência inédita diante do rápido avanço da corrosão democrática, como mostra o caso dos EUA. Existe um ponto de não-retorno, depois do qual esse processo se torna irreversível. É preciso, portanto, atuar em duas frentes: desaceleração do escalamento para evitar o colapso da democracia, mas também construir infraestruturas alternativas nas fraturas da hegemonia dominante.

É preciso compreender, ainda, que tecnologias, e em especial tecnologias cibernéticas (ou seja, aquelas que mimetizam a camada da cognição humana que compartilhamos com outros animais), não são nem nunca foram neutras. Máquinas cibernéticas são construídas com propósito, o que significa que os designs algorítmicos sempre têm um viés. E os vieses atuais são construídos com base no legado do complexo industrial-militar no qual a indústria tech se desenvolveu ao longo do século XX. De um lado, a lógica do capital de risco, da economia da atenção, da publicidade de massa; e, de outro, a lógica da vigilância, do controle e da guerra. Esse é o DNA da indústria: nesse sentido, ela tem uma tecnopolítica que sempre foi antidemocrática, como detalhei em outras ocasiões.

Esse caráter tecnopolítico das plataformas começou a ficar evidente dez anos atrás, com a primeira onda de eleições de lideranças populistas de extrema direita. Naquele momento, vieram à tona os problemas que passamos a designar como pós-verdade, desinformação, polarização, populismo, teorias da conspiração, radicalização, brain rot,além de outros efeitos sistêmicos “não intencionais” da plataformização da vida, que então se aceleraram com a pandemia da covid-19. É nesse momento que emerge a regulação de plataformas como principal pauta política para mitigação desses problemas, exemplificada no Brasil pela proposta, hoje praticamente extinta, do Projeto de Lei 2.630/2020.

Nos últimos dois anos, contudo, numa nova fase da disputa metapolítica entre democracia e indústria tech se anuncia – ao que tudo indica, marcada pela pauta da soberania digital. Podemos elencar como marcos a eleição de Trump para um segundo mandato e a popularização das IAs generativas. O alinhamento das big techs com o presidente americano desvelou uma espécie de reencontro entre essência e aparência. Hoje, a indústria pode ser, de forma aberta e consciente de si, o que ela sempre foi.

É possível que, tomados individualmente, nem todos os envolvidos tenham plena consciência da relação antagônica entre sua indústria e a democracia. É o caso de Bill Gates – único fundador entre as top 5, aliás, que não compareceu à posse de Trump. Mas para outros, que se veem hoje dentro dos círculos de poder mais íntimos da Casa Branca, isso sempre foi não apenas consciente, mas um projeto. Talvez a fala mais contundente nesse sentido seja a de Peter Thiel, patrono financeiro e ideológico do vice-presidente J.D. Vance, e fundador da PayPal, Palantir e outras empresas que vêm não apenas fechando contratos governamentais milionários em áreas como a defesa, mas também tendo seus próprios altos executivos nomeados para altas patentes do Exército americano.

Em 2010, num evento significativamente chamado Libertopia, Thiel assim se dirigiu a uma plateia de pares: “Nós nunca venceríamos uma eleição para implementar certas pautas porque somos uma pequena minoria. Mas talvez seja possível mudar unilateralmente o mundo, sem ter que ficar tentando convencer as pessoas, implorando para pessoas que nunca concordariam conosco, através de meios tecnológicos. É por isso que a tecnologia é essa alternativa formidável à política.”

Desde então, as infraestruturas digitais se tornaram de fato uma alternativa total à política democrática. Inclusive, a ideologia neorreacionária, que muitos desses executivos e fundadores abraçam, se baseia num diagnóstico sombrio de exaustão e colapso iminente da democracia. Eles propõem, no seu lugar, a fundação de Estados privados (também chamados estados-rede), sem o fardo dos impostos ou da solidariedade dos direitos universais, regidos de forma monocrática por híbridos de CEOs e monarcas.

Diante disso, fica claro por que a pauta da regulação, sozinha, não é mais suficiente para defender a democracia. Isso só será possível através da construção de uma infraestrutura soberana e livre do controle da indústria tech e de seus aliados autocráticos. É urgente que a sociedade brasileira e o poder público tenham controle sobre a materialidade técnica dos dispositivos digitais. 

Chegamos aqui ao que talvez seja a questão mais central da nossa época: a da imaginação política. Com o ocaso do socialismo real nos anos 1980, a esquerda perdeu a alternativa existencial ao capitalismo que sustentava sua imaginação de futuro, inaugurando a era do que Mark Fisher chamou de realismo capitalista. O polo da utopia “revolucionária” foi então ocupado, de forma mistificada, pela extrema direita, através das mídias digitais e das fantasias reacionárias ali cultivadas, e que têm se mostrado capazes de capturar afetivamente boa parte do senso comum – como fez, aliás, o fascismo histórico no entreguerras.

Muito se tem especulado sobre como destravar essa crise de imaginação política. Mas talvez o problema esteja nas próprias premissas da questão. Na nossa sociedade, tendemos a entender a imaginação como dizendo respeito a ideias: se eu estudar o suficiente, debater com os grandes intelectuais, ocupar bastante espaço na mídia, refletir intensamente, eu posso, quem sabe, ser brindada com o grande insight que irá destravar a prosperidade da esquerda brasileira. Infelizmente, não é assim que funciona.

Como nos lembra a ecologia da mente, “ideias” não pertencem a um simbólico abstrato, mas se ancoram na materialidade do mundo humano e não-humano. Não apenas indivíduos, mas “sistemas” também imaginam, e eles imaginam oscilando, concretamente, entre o que a sociedade é e o que ela poderia ser. Nos termos de Victor Turner, entre estrutura e antiestrutura. Isso é verdadeiro para outros mamíferos, para sociedades do passado, e também para nossas sociedades.

Sob esse ângulo, fica claro que nos sentimos impotentes, bloqueados porque hoje a indústria, com sua lógica aceleracionista e antidemocrática, domina toda a infraestrutura pela qual opera a nossa “mente estendida”. Nossa capacidade de imaginar está materialmente travada, nossos territórios existenciais não conseguem oscilar para alternativas porque estas foram capturadas pelo mundo da fantasia – inclusive, das fantasias (contra)revolucionárias – das plataformas digitais. 

Como ensinou Marx, fazemos história, mas não nas condições que escolhemos. Porém, também aprendemos com o materialismo histórico-dialético que nenhuma hegemonia é, ou pode ser, eterna. Enquanto os neorreacionários apostam no colapso da democracia, precisamos apostar na aceleração e no colapso da indústria deles. A própria convergência tecnopolítica antidemocrática, eugênica e imperialista que vemos hoje é um provável sinal de que esse limite possa estar chegando. 

Daí conclui-se que apenas explorações práticas pelos caminhos da soberania digital serão capazes de propiciar a materialidade para que essa nova imaginação política emerja. Isso implica nos prepararmos, desde já, para quando as fendas na hegemonia do capitalismo de plataforma começarem a aparecer. Enquanto eles se preparam para o fim do mundo, nós nos preparamos para o início de um novo mundo. E isso só pode ser feito nos e a partir dos territórios, em alianças heterogêneas em rede, cada um com sua vocação e campo de atuação. Na forma do que David Graeber chamou de revolução ao contrário: de baixo pra cima, não (apenas) planejando, mas performando a sociedade dos comuns que queremos – imaginando, na prática, um “comunismo” para o século XXI.

* * *

  1. Antropóloga, professora na Universidade Federal de Santa Catarina, onde coordena o recém-criado Laboratório de Humanidades Digitais (LABHDUFSC). Autora de O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital; foi Assessora Especial no Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania entre 2023 e 2024. ↩︎

Carbono, vol. 9 – agosto de 2025.
ISSN: 3085-7066

Uma resposta em “Plataformas e a Crise da Imaginação Política”

Excelente. Utilizarei seu texto na turma de final de curso de Relacoes Internacionais da UFSC, na disciplina de Economia Politica Internacional.

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