Alenka Zupančič1
Em 2006-2007, uma exposição chamada “Paranoia” estava em exibição no Freud Museum, em Londres. Um de seus objetivos era refletir (principalmente através de obras de arte) “o sentimento coletivo de consternação com a estupidez, o preconceito e a superstição gerados pela ‘guerra ao terror’ em um mundo pós-11 de setembro”.2 Alguns dos principais mecanismos de paranoia que o texto que acompanha a exposição traz à tona, com base em diversas citações de Freud, incluem a projeção, a ausência de uma verificação da realidade, a verdade sem poder sobre nós, o expediente do bode expiatório e uma inclinação para a agressão.
A partir da ênfase inicial no “mundo pós-11 de setembro”, também fica claro que a “paranoia” foi entendida aqui em seu amplo significado e contexto social, e não apenas como uma categoria clínica. Essa também é a abordagem que vou adotar neste ensaio. Olhando para o mundo quase duas décadas após a exibição ter ocorrido, nós certamente podemos detectar algumas similaridades na leitura política e popular do que está acontecendo agora. Em ambos os casos, há o sentimento de que algo acabou para sempre, ou que o mundo nunca mais será o mesmo. O mundo como o conhecíamos está passando por mudanças dramáticas. Nossos ambientes naturais e sociais estão sofrendo transformações drásticas, e profundas mudanças tectônicas estão ocorrendo enquanto falamos. Essas mudanças se manifestam principalmente através de uma série de crises que continuam nos atingindo uma após a outra, levando a um aumento de precariedade e incerteza: crises econômicas, a crise do Covid, a guerra na Ucrânia, a crise do Oriente Médio (que eufemismo!), a crise induzida por Trump (visando a uma nova ordem doméstica e global) e muito mais. Em outro nível, há também a crise climática, acompanhada por eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes em diferentes partes do mundo.
Diversas características emergentes neste contexto contemporâneo de crises também têm semelhanças com a época em que Freud teorizou sobre os aspectos sociais da paranoia – ou seja, o período entre as duas Guerras Mundiais, levando ou coincidindo com a ascensão do fascismo. Hoje, o fascismo parece estar ressurgindo de uma forma nova – uma que não é simplesmente idêntica às suas encarnações anteriores, mas que exige mais reflexão e análise.
Neste artigo, eu gostaria de contribuir um pouco para essa análise, examinando as novas formas emergentes de poder, a ascensão de novos líderes autoritários e seu relacionamento com o povo (particularmente seus apoiadores) a partir da perspectiva de uma forma singular de paranoia que parece fazer parte dessa nova configuração do “fim dos tempos”.
Antes de avançar, a seguinte observação é necessária: os comentários que se seguem não devem ser vistos como uma alternativa à análise socioeconômica ou geopolítica, nem como uma tentativa de sugerir que um mapeamento psicológico de nossos dilemas sociais é superior a outras abordagens. No que eu sim acredito, no entanto, é que tal análise pode nos ajudar a entender certos mecanismos que desempenham um papel fundamental na orquestração de antagonismos sociais, que são amplamente independentes da psicologia individual. Uma vez que grande parte dessa análise se concentrará no exemplo de Donald Trump e sua atual administração, também é importante enfatizar que eu não enxergo Trump ou a sua personalidade como a raiz do problema. Muito tinha que acontecer para alguém como ele ganhasse a presidência – e pela segunda vez, ainda por cima. Não devemos de forma alguma nos tornar vítimas de uma fantasia trumpiana invertida, cultivada por muitos democratas, e simplesmente acreditar que, se Trump fosse removido, “a América seria grande novamente”. No entanto, sua personalidade particular foi capaz de dar forma concreta a antagonismos pré-existentes e guiná-los em uma determinada direção. Mesmo que o problema seja “sistêmico”, sua aparência concreta é sempre determinada por alguma contingência.
O que “realmente” aconteceu conosco?
Circunstâncias econômicas terríveis, guerras, incerteza e instabilidade social, e outras formas de crise: podemos de fato observar que essas são precisamente as condições em que a paranoia social prospera. Mas isso é suficiente para propor uma relação causal direta entre os dois e, assim, explicar as crescentes formas sociais da paranoia, apontando para dificuldades, crises reais, ameaças e traumas aos quais muitas pessoas estão expostas? Acredito que este seria um erro grave. Embora as condições reais e empíricas de dificuldades e inseguranças certamente desempenhem um papel importante, a causalidade é mais complexa. Isso já é aparente se considerarmos o fato de que não há correlação direta entre o grau de dificuldade real que se experimenta e uma tendência, por exemplo, de se acreditar em teorias da conspiração – uma das formas sociais predominantes que a paranoia contemporânea manifesta. Os defensores mais ardentes das teorias da conspiração raramente são os mais desamparados.
O elemento-chave da causalidade ocorre no nível em que a dificuldade empírica ou a crise são narrativamente enquadradas. Com isso, não me refiro simplesmente às explicações (e eventuais bodes expiatórios) oferecidas para esclarecer por que estamos onde estamos – isso já é secundário. O que está em jogo é algo mais fundamental (ainda que constitua um curto-circuito entre o mais íntimo/particular e o social): a saber, a caracterização de “onde estamos” (ou seja, o que exatamente aconteceu conosco, ou está acontecendo conosco), em vez de por que chegamos até aqui (o que, novamente, pertence a outro nível que certamente também existe).
Em outras palavras, o que está em jogo é uma representação narrativa da dor – do status de nossas “feridas” –, que então abre um novo playground ou “plataforma” na qual nossa dor existe socialmente (mesmo que não a experimentamos diretamente), em relação aos outros, como uma força de ligação e divisão, e como base para possíveis “explicações” e receitas para a recuperação.
Se olharmos para como os problemas atuais que afetam um número crescente de pessoas no Ocidente estão sendo enquadrados pela direita populista – mais proeminentemente nos EUA –, o que veremos? Que eles estão sendo enquadrados através dos abrangentes tropo e retórica da “castração”. Talvez uma palavra mais adequada seja “emasculação”, já que isso é expresso principalmente em termos de uma perda imediata, quase física, de poder, de potência, de vitalidade e de gozo. Por exemplo, podemos detectar isso na maneira como a extrema direita se apropriou da noção de “liberdade de expressão” – não como um direito civil de proteger vozes críticas, mas simplesmente como um direito de gozar: nesse discurso, “perda da liberdade de expressão” refere-se à incapacidade de insultar os outros livremente e dizer o que se quiser dizer. Requisitos de linguagem educada e cuidadosa, bem como proibições sobre símbolos e retórica associados ao nazismo e ao fascismo, são cada vez mais apresentados como impedimentos à liberdade entendidos como liberdade de gozo – e, nesse sentido, como “castradores”. Outra característica desse enquadramento peculiar de males sociais como “emasculação” é a invocação da humilhação e o medo de ser humilhado: “Todo mundo está rindo de nós”, “Ninguém nos leva a sério”, etc.
Esse enquadramento narrativo em particular, no entanto, não é simplesmente um enquadramento possível entre outros, mas um enquadramento singular. Poderíamos descrevê-lo como um enquadramento de “crise”, que tem um poder peculiar de bloquear a possibilidade de lidar com a crise em um nível simbólico. No contexto da clínica lacaniana, a paranoia é entendida como uma estrutura erguida em torno de uma inacessibilidade (ou foraclusão) de algum significante-chave. Entretanto, se falamos sobre paranoia como um fenômeno social e político, é importante ter em mente que geralmente não estamos lidando com uma situação em que, devido a algumas circunstâncias contingentes, mas objetivas, um significante-chave fica fora de alcance e dá origem a uma estrutura paranoica. Em vez disso, estamos lidando com uma inacessibilidade do significante que está sendo produzida no nível social – e produzida intencionalmente –, mesmo que aqueles que a produzem não entendam completamente os mecanismos por trás disso. Mas eles sabem como aplicá-los, e sabem disso porque a estrutura da paranoia não é estranha para eles.
Estamos, portanto, lidando com um movimento interpretativo que bloqueia, em algum ponto crucial, o registro simbólico: o enquadramento de uma crise em termos que evocam a “castração” percorre um longo caminho para expulsar seu significante, tornando-o inacessível. A narrativa da “emasculação” não simplesmente induz medo ou ansiedade de castração – ela também consegue proibir o próprio significante que poderia ajudar as pessoas a processar essa ansiedade dentro do registro simbólico, ou seja, ajudá-las a transpô-la do registro de impotência (física) para o de impossibilidade (simbólica) ou “castração simbólica”. A castração permanece operacional apenas no registro do imaginário e do real. Se você continuar dizendo às pessoas que elas estão sendo “castradas”, isso obviamente não é muito empoderador para elas. A mensagem, em vez disso, é: você é (torna-se) impotente, e eu – o líder populista – sou o único em quem você pode confiar para eventualmente devolver algum poder para você. Em outras palavras, não se trata simplesmente de induzir medo, ansiedade e insegurança nas pessoas, mas também – e acima de tudo – de cortar essas experiências do registro simbólico, apresentando-as como o real que, pelo menos por enquanto, torna as pessoas irritadas, indignadas e, ao mesmo tempo, impotentes.
O grito de guerra é assim: estamos sendo emasculados, e não podemos permitir isso – eu, seu líder, não permitirei isso! Como sugerido, isso é particularmente evidente nos EUA e na retórica cotidiana de sua política. Todos são acusados de “roubar” da América, “explorá-la”, “tirar vantagem dela”; dizem que o país foi invadido por “estupradores e criminosos”; as pessoas LGBTQ estão “vindo atrás de nossos filhos” e querem “castrá-los quimicamente”. As pessoas que criticam Trump são rotuladas como vítimas de TDS, “Trump Derangement Syndrome”3 (que supostamente faz as pessoas perderem sua racionalidade quando se trata de Trump), que é uma das maneiras pelas quais os pressupostos paranoicos da extrema direita são projetados na oposição.4 E dado que TDS também é o acrônimo para “Testosterone Deficiency Syndrome” [Síndrome da Deficiência de Testosterona], esse nome desempenha uma dupla função: acusar o outro lado de paranoia enquanto ao mesmo tempo sugere sua “emasculação”.
A economia, a fronteira, a política externa e os assuntos internos – todos eles se tornam altamente sexualizados nessa visão de mundo, e essa sexualização gira principalmente em torno da oposição grosseira Poderoso/Fraco, que invoca e depende das fantasias de “castração”.
É importante enfatizar que não estou tentando fornecer uma leitura psicanalítica mais profunda dessa retórica, apontando para algum medo ou ameaça subjacente de castração. Ao contrário, a retórica é bastante explícita: os próprios novos líderes autoritários são os que gritam “castração!” e usam esse tropo ou “ameaça” para mobilizar as pessoas. Longe disso, eles agem como psicólogos amadores que pressionam os gatilhos certos na população. O fato de eles próprios serem sensíveis a alguns desses gatilhos muda pouco em termos de seu uso instrumental.
A castração como uma doença contagiosa
Há outra característica peculiar operando nesta “ameaça de castração” instrumentalizada: a ameaça imediata não é apresentada como vindo de algum outro grande Poder concorrente, mas sim daqueles que já são vistos como “emasculados” e “fracos”. É verdade que também há a sugestão de alguma outra agência de poder – como um “estado paralelo” ou “Bruxelas” – orquestrando essa emancipação nos bastidores. Mas o ponto importante é que a arma dessa outra agência não é o poder ou a violência, mas a propagação da fraqueza.
Ser fraco (“emasculado”) é visto como contagioso; corrompe imediatamente a natureza dos fortes e poderosos. É por isso que, por exemplo, uma simples menção em escolas e jardins de infância da existência de pessoas gays e trans é considerada capaz de corromper imediatamente a Natureza eterna e inata das crianças, transformando-as todas em gays ou trans – ou seja, em “pessoas emasculadas”. Da mesma forma, os imigrantes são perseguidos precisamente quando já estão mais vulneráveis, por causa de seu status precário, e não simplesmente como representantes de alguma outra potência alternativa. Com certeza – e de forma semelhante à referência ao “estado paralelo” – há também a ideia ou fantasia de uma potência alternativa que ameaça enfraquecer e nos “substituir”. Mas, novamente, a maioria das lutas e batalhas instantâneas é travada contra os fracos, e não contra os fortes.
O modelo aqui é bastante simples – além de nauseante: quando alguém está por baixo e vulnerável, continue chutando-o até que ele morra ou se arraste para longe. Caso contrário, isso pode afetar seriamente a sua própria “virilidade”. Esta é uma das razões por trás do efeito verdadeiramente nauseante do infame “confronto” no Salão Oval durante a visita de Zelensky em fevereiro. Algo semelhante poderia ser dito sobre as infames gravações de vídeo das deportações cruéis de “imigrantes ilegais”, distribuídas através de canais oficiais. Se essas coisas estavam anteriormente escondidas dos olhos do público, agora são exibidas e estão sendo vangloriadas. O espetáculo da humilhação ativa e do espancamento dos “fracos” não apenas se tornou aceitável, mas é ativamente encorajado e serve a um propósito específico. Grande parte da retórica de Netanyahu e das ações sionistas genocidas segue a mesma lógica. O plano “Gaza Riviera” de Trump tem um fundamento semelhante: Gaza está em ruínas, a devastação está completa e o povo palestino já está derrotado – então eles podem muito bem reconhecer isso e rastejar para longe de nossa vista.
Por outro lado, os líderes autoritários se sentem bem na companhia um do outro – ou seja, na companhia de outros “homens poderosos”. Há algo nessa lógica que sugere que o poder é tão contagioso quanto a fraqueza: ele se espalha por você. Se você está na companhia dos poderosos, o poder se alastra sobre você. Se você está na companhia dos fracos, é a fraqueza (“emasculação”) que contagia você. Essa atitude se alinha intimamente com a famosa declaração de Elon Musk sobre a empatia ser “a fraqueza essencial da civilização ocidental”.
Devemos enfatizar, no entanto, que o aspecto verdadeiramente prejudicial desta posição não é simplesmente a aliança dos “poderosos” contra os “fracos”, mas sim que essa retórica e essas imagens de poder ofuscam uma realidade muito diferente: esse “poder” é fundamentalmente um poder paranoico – um poder da paranoia.
Freud já tinha destacado que o medo de ser contaminado pelos fracos (ou “castrado pela contaminação”) – isto é, a ideia de que a castração é contagiosa, algo que pode ser “pego” – é uma característica-chave da paranoia.5 E é fácil ver o porquê: é devido à ausência do corte significante que separa o simbólico do real. Sem seu significante, a castração não é mais a base da diferenciação simbólica e do poder simbólico, mas, em vez disso, funciona mais como um vírus. (Em algumas partes da sociedade, parece inclusive que a negação do vírus da Covid e de seu poder está retornando aqui de forma deslocada – como um devastador “vírus da castração”.)
No entanto, a questão não é que esses próprios líderes estejam mostrando sinais claros de paranoia e, portanto, sejam, na verdade, “fracos” e receosos de que não são realmente tão poderosos e confiantes quanto fingem ser – como se tal exposição pudesse de alguma forma fazê-los perder seu poder prejudicial. Porque o fato é que não faz, e podemos observar isso praticamente todos os dias. Eles não vão “murchar” se os expusermos como “de fato” fracos, porque essa fraqueza paranoica específica é precisamente o que os trouxe ao poder sob as condições atuais – e o que os mantém lá. Em outras palavras: eles não entrarão em colapso se os expusermos, porque seu poder não é um poder simbólico – pelo menos não primordialmente. O que não quer dizer que ele seja inofensivo ou incapaz de nos machucar – muito pelo contrário.
É um poder que existe apenas como força material real acumulada – poder militar ou policial, pressão direta e, é claro, riqueza (estamos falando de alguns dos indivíduos mais ricos do mundo). O outro lado disso é a suposição paranoica – correta – de que a maioria das pessoas não os respeita de verdade, ou não suficientemente. Novamente, o infame confronto Trump-Zelensky no Salão Oval é um exemplo claro disso (“Você está sendo desrespeitoso!”). O velho ditado de que o respeito não pode ser comprado ou forjado é verdadeiro – mas, no caso do poder paranoico, essa verdade só leva ao aumento das demonstrações de força em busca do ponto de ruptura do outro.
Mladen Dolar formula de modo conciso as reflexões de Hannah Arendt sobre autoridade: a autoridade simbólica funciona essencialmente como uma ameaça adiada, uma força ou violência postergada. Funciona como “autoridade” apenas enquanto não precisar implementar diretamente a força. No momento em que isso acontece, “a autoridade perde sua autoridade”.6 No que tange à autoridade, o autoritarismo começa no extremo oposto: começa como uma autoridade já perdida (geralmente começa com a força e a realização de ameaças) e tenta voltar ao ponto impossível da coincidência da autoridade simbólica com o real. No autoritarismo, a autoridade é super-realizada; o autoritarismo tem tudo a ver com “realização” (“Nós fazemos as coisas, e eficientemente, não falamos sobre elas apenas”), mas, ao mesmo tempo, essa “realização” tenta desesperadamente chegar a um ponto de eficiência simbólica (ou seja, a “eficiência da conversa” em si), que permanece inacessível a ela. Essa inacessibilidade é a força motriz da “realização excedente” e da “eficiência”.
A enxurrada de “ordens executivas” que estamos testemunhando nos dias de hoje não é apenas uma estratégia para sobrecarregar a oposição – é também uma necessidade que impulsiona essa ordem autoritária em particular, que opera através de uma combinação peculiar de paranoia e perversão.7
Ou devemos dizer que, na posição de poder simbólico, a paranoia se torna uma forma de perversão? A retórica, por parte de Netanyahu, das “ameaças existenciais” que exigem bombardeios “preemptivos” e assassinatos em massa de civis é outra expressão sombria dessa lógica distorcida de paranoia que se tornou perversa. Ou, na versão alemã duplamente distorcida: Merz afirmando que Israel está fazendo o “trabalho sujo por todos nós”.
Quanto mais apaixonadamente esse tipo de autoritarismo tenta alcançar o ponto de pura autoridade simbólica, mais violento ele se torna, mais força bruta ele emprega. De sua perspectiva, não é o significante que forja a realidade; em vez disso, a força é aplicada à realidade para que ela (finalmente) produza e cuspa seu significante. E este é o ponto em que esse autoritarismo se torna perverso: a ideia paranoica de que os significantes estão se escondendo no real encontra aqui a lógica perversa de forçar a realidade a produzir o que está faltando.
Quando a mulher tem que existir
Isso é importante se quisermos entender a combinação peculiar, nesses decretos autoritários, de “naturalismo” (biologismo, engenharia genética) e “simbolismo”. A atual obsessão do governo Trump com o “sexo biológico” – que também acompanha a ascensão da extrema direita em muitos outros países – tem tudo a ver com isso e muito pouco, se alguma coisa, a ver com um debate sério sobre sexo e gênero. Também não é surpresa que o foco esteja (novamente, como tantas vezes ao longo da história) nas mulheres.
Definir o que é uma “mulher” dessa maneira – comicamente ou sinistramente – tornou-se uma prioridade de estado número um. Um dos primeiros decretos executivos assinados pelo presidente Trump depois que ele assumiu o cargo (em meio a grandes crises mundiais e problemas sociais domésticos) foi intitulado “Defendendo as mulheres do extremismo da ideologia de gênero e restaurando a verdade biológica ao Governo Federal”.
A maneira como ele persegue esse objetivo é bem ilustrada em um artigo do decreto: “(b) ‘Mulheres’ ou ‘mulher’ e ‘meninas’ ou ‘menina’ devem significar fêmeas humanas adultas e juvenis, respectivamente.”
É difícil não ver nesta definição mirabolante a impossibilidade que Lacan apontou em seu famoso ditado: “A Mulher não existe”. E é um fato que o imperativo de fazê-La existir no nível significante sempre desempenhou um papel na repressão mais brutal das mulheres. As mulheres historicamente têm sido reprimidas não pelo apagamento de sua identidade simbólica, mas por terem lhe atribuído uma – ao serem informadas do que são e o que isso significa.
Os sexos “feminino” e “masculino” não estão sujeitos à cultura e ao(s) significado(s) cultural(is) de seu sexo da mesma forma – não há simetria aqui. Quando se trata de “homens”, o significado cultural atribuído à masculinidade colore o seu ser desta ou daquela maneira; ao passo que, quando se trata de mulheres, ele cria o ser delas: o significado (cultural) é o ser delas, de modo imediato. Da perspectiva lacaniana, poderíamos por assim dizer que a “mulher” é uma construção cultural em um sentido muito mais forte e ontológico do termo. A especificação e determinação do que significa ser uma mulher toma o lugar do significante inexistente, e espera-se que ele cumpra o papel deste último: o conteúdo ou significado tem ele próprio que funcionar como um significante (do feminino), e é precisamente nesse ponto que a pior violência está sendo gerada.
Também podemos ver na ordem executiva como e por que o policiamento “trans” e o policiamento de “mulheres” são essencialmente parte da mesma agenda. “Trans” funciona como o objeto excedente no qual a falta de um significante para o “outro sexo” aparece como algo positivo, algo visível e externo. A ideia subjacente é a de que, se esse objeto excedente for removido, as mulheres serão “inteiras” novamente – elas funcionarão como a contraparte significativa adequada para os homens, e essa complementaridade restaurada resolverá a (não) relação sexual e social.
Em outras palavras, os “homens de verdade” de Trump não têm medo da Mulher como uma possível contraparte significativa de sua própria masculinidade; eles têm medo das mulheres como sendo o outro sexo com quem compartilham o mesmo significante – apesar de suas diferentes sexualidades. Este é o ponto lacaniano: funções de diferença sexual através de uma “semelhança” irredutível – os sexos compartilham a mesma falta, representada pelo “significante fálico”. O que esses “homens reais” rejeitam é precisamente esse significante fálico – o falo como significante –, porque ele já pressupõe a “castração”. Seu apego obsessivo a qualquer coisa fálica ou com forma fálica é uma correlação direta disso. Só funciona para eles se eles estiverem repletos disso, ou se isso estiver repleto deles.
Paranoia, perversão e amor
A autoconfiança do “homem de verdade” não sugere o oposto da paranoia? Não – mas sugere sua fusão com a perversão, como sugerido acima. A estranha combinação de acreditar em si mesmo como “intocável” enquanto permanece “paranoico” é a forma mesma dessa fusão. “Homens de verdade” como Trump são “os mais poderosos”, “os maiorais”, mas ainda fica faltando a dimensão simbólica desse poder. O contrário desta ausência é uma necessidade compulsiva de preencher a falta de poder simbólico com o real – com a exibição de poder “real”. A autoconfiança megalomaníaca anda de mãos dadas com uma obsessão em eliminar todos os traços que poderiam contestar esse poder, desafiá-lo ou submetê-lo à crítica. O que costumávamos chamar de “pensamento crítico” está sendo atingido por um tsunami proveniente desse lado oposto de megalomania confiante – que é a incapacidade paranoica de perceber argumentos críticos como qualquer coisa que não seja ameaças diretas físicas à integridade de alguém. A “liberdade de expressão” como liberdade de gozar acaba como um triunfo de censura e perseguição, e a luta contra a “cultura de cancelamento” é uma forma por excelência de “cultura de cancelamento”.
Então, sim, esses “homens de verdade” permanecem “paranoicos”, mas não são menos perigosos por causa disso. Na verdade, isso os torna ainda mais prejudiciais. É por isso que, quando a zombaria – apontar a “verdadeira fraqueza” deles – se torna nossa única resposta, nós somos a piada. Especialmente porque, quando combinado com o poder do estado, essa dinâmica se torna verdadeiramente explosiva.
Essa “realização” do poder simbólico – a tentativa de preencher o poder simbólico com força empírica – também ecoa a proposição de Jacques-Alain Miller de que, na paranoia, o gozo está localizado no Outro em si (ou seja, no enquadramento simbólico, que normalmente é desprovido de gozo). Envolve localizar o outro no Outro, ou até mesmo substituir o Outro pelo outro.8 E isso, novamente, ressalta a talvez inesperada proximidade entre o autoritarismo e a paranoia.
Isso também tem consequências importantes para o relacionamento entre esses líderes e seus seguidores – a saber, a combinação aparentemente estranha de duas características que muitas vezes definem esses seguidores. Por um lado, eles cultivam uma completa desconfiança em toda a autoridade pública, nas instituições e na ciência. Por outro lado, eles depositam uma confiança cega no líder, mesmo quando suas declarações são obviamente contraditórias ou comprovadamente falsas – ele simplesmente não pode fazer nada de errado. Como essas duas coisas – essa desconfiança absoluta, muitas vezes “paranoica”, e a confiança incondicional – andam juntas?
Em seu texto “Psicologia das massas e a análise do eu (1921)”, Freud chama essa confiança cega de “amor”, que sem dúvida chega perto disso, em vez de simplesmente chamá-la de “confiança cega”.9 Pois, em um ponto decisivo, essa confiança não é realmente cega – ela vê algo: mais precisamente, o gozo. O amor está situado aqui em contraste com a confiança baseada no respeito. Simplificando, o respeito pressupõe uma distância a ser mantida – uma que evacua as questões imediatas de gozo e desejo da relação com o Outro. O “amor”, por outro lado, implica uma relação íntima e privilegiada com o Outro, relação que inclui desejo e gozo. No entanto, Lacan parece reunir os dois quando, surpreendentemente, situa a questão do conhecimento no coração do amor: “Celui à qui je suppose le savoir, je l’aime” (“Aquele a quem suponho o saber, eu o amo”).10 O amor nunca é simplesmente imediato; envolve uma pressuposição de conhecimento da parte do Outro.
Isso poderia nos ajudar a distinguir entre dois tipos de amor. Um é baseado no desejo – isto é, na falta no Outro – e, consequentemente, no questionamento do enigma do Outro: “O que o Outro quer?” e “O que eu sou para o Outro?”. O amor é uma resposta a essa interrogação – uma resposta na qual o sujeito responde à falta no Outro com sua própria falta: dando ao Outro o que não se tem. No amor, preenchemos a falta implícita no desejo do Outro com nossa própria falta ou desejo, e não com qualquer conteúdo positivo. Mais precisamente – e para reiterar o ponto de Lacan –, é a pressuposição do conhecimento que constitui a forma positiva e concreta que o “dar minha falta ao Outro” assume. Essa pressuposição é, claramente, não baseada em qualquer evidência empírica do conhecimento do Outro, mas, sim, depende do lugar que o Outro ocupa em relação a mim e aos outros.
Porém, este não é o único tipo de amor, e não é o tipo a que Freud se refere em seu ensaio sobre a psicologia das massas, em que ele também o chama de “hipnótico”. Estou tentada a chamar essa outra forma de amor de “perversa”, porque ela é baseada em um tipo perverso de sedução. O Outro aqui seduz ou fascina o sujeito não pelo desejo ou pela falta, mas pela plenitude. Não há troca ocorrendo (como a troca da minha falta pela falta no Outro), e, nesse sentido, o vínculo assim criado é de fato hipnótico: permanece externo e unilateral. O que distingue essa relação do respeito clássico pela autoridade social é que esta última se baseia na autoridade sendo esvaziada do gozo, ao passo que a primeira opera em nome do gozo. Esta é também a razão pela qual a autoridade perversa – ao contrário da autoridade clássica – não é vulnerável à exposição do gozo. Pelo contrário, tal exposição apenas a reforça.
A pressuposição do conhecimento aqui não é um símbolo vazio de confiança. O amor pelo líder começa com alguma experiência de prazer – possivelmente perdida – que ele evoca ou agita em nós, que então se torna associada ao conhecimento: conhecimento sobre o gozo. Pegando Trump novamente como exemplo: em seu caso, a pressuposição do conhecimento não tem a ver com percepção política ou sabedoria na governança. É simplesmente isso: ele é rico, ele sabe como ficar rico – e “rico” aqui evoca o gozo. Ele sabe como desfrutar e pode cuidar do nosso gozo. Ao mesmo tempo, a exposição do gozo (“Eu posso fazer e dizer o que eu quiser”) funciona como uma fonte de fascínio – fascínio no sentido estrito, onde se é incapaz de desviar o olhar, atraído e repelido ao mesmo tempo. O gozo é a atração.
Então, para voltar à nossa questão de como entender a coexistência da completa desconfiança em todas as autoridades públicas e a confiança incondicional no líder, temos que entender que essa confiança “incondicional” é, de fato, totalmente não incondicional. Ela é condicionada pelo gozo excedente, que também é o nosso gozo, circulando no Outro – sob a presunção paranoica de que alguém (todo mundo!) está tentando roubá-lo. Nesse sentido preciso, o amor pelo líder nada mais é do que a forma positiva que a desconfiança assume em todas as outras autoridades – elas são um só e o mesmo mecanismo. Amar o líder é desconfiar de tudo e de todo mundo.
Isto, é claro, não é o tipo de amor que liberta ou empodera, que “se dá como força”; ele apenas nos torna “fortes” no exercício interminável do expurgo – ou, como Lacan os chama em sua discussão sobre perversão e poder, cruzadas. Ele acrescenta este aviso profético: “Bizâncio não se recuperou das Cruzadas. É preciso atentar para esses jogos, porque isso ainda pode acontecer, mesmo hoje, em nome de outras Cruzadas”.11
De fato.
* * *
(Este texto foi originalmente publicado no site e-flux, em 9 de julho de 2025. Agradecemos encarecidamente à autora por ceder os direitos da tradução. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Manoella Deorristt. Revisão de Antonio Barros.)
- Filósofa e teórica social eslovena, uma dos membros proeminentes da “Escola de Psicanálise de Ljubljana”. Conselheira de Pesquisa do Instituto de Filosofia, Centro de Pesquisa Científica da Academia Eslovena de Ciências e professora da Escola Europeia de Pós-Graduação na Suíça. Autora de vários artigos e muitos livros, incluindo O que é sexo? e Por que a psicanálise?. ↩︎
- Ver aqui. ↩︎
- Síndrome do Desatino de Trump. [N.T.] ↩︎
- No entanto, isso não significa que, nos últimos anos, e próximos das eleições, o foco exclusivo dos Democratas em Trump – à custa do desenvolvimento de uma política social sólida – não era uma realidade. Infelizmente, era. E esse exclusivo foco estratégico em Trump contribuiu significativamente para a derrota eleitoral dos Democratas. Trump funcionou como um fetiche que possibilitou aos Democratas renegarem suas próprias deficiências quando se tratava de abordar os problemas econômicos e sociais que um número crescente de pessoas enfrentava. Existe um problema parecido em muitos outros países, onde a esquerda parece incapaz de fazer frente à ascensão de movimentos populares protofascistas por qualquer outro meio que não seja instar os eleitores a simplesmente votarem contra este ou aquele líder populista. ↩︎
- Em seu estudo sobre a fobia (Sigmund Freud, “Análise da fobia de um garoto de cinco anos [‘O Pequeno Hans’]”. Tradução: Paulo César de Souza. Obras Completas, vol. 8. São Paulo: Companhia das Letras, 2015), bem como no estudo sobre a paranoia (Sigmund Freud, “Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia [Dementia paranoides] relatado em autobiografia [‘o caso Schreber’]”. Tradução: Paulo César de Souza. Obras Completas, vol. 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010). ↩︎
- Mladen Dolar. Od kod prihaja oblast. DPU, 2021, p. 29. É claro que isso não quer dizer que a autoridade simbólica é simplesmente não violenta, mas que ela exercita um tipo diferente de violência (a violência simbólica). Essa diferença, não obstante, leva a duas lógicas muito diferentes. ↩︎
- Como foi sugerido por Marie Bendtsen na conferência internacional “Reawakening Freud” (“Redespertando Freud”), ocorrida na Universidade de Copenhagen em 17 e 18 de janeiro de 2025. ↩︎
- Jacques-Alain Miller. “Paranoia, Primary Relation to the Other”. The Lacanian Review, nº 10, dezembro de 2020, p. 81-85. ↩︎
- Sigmund Freud. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. ↩︎
- Jacques Lacan. O Seminário. Livro 20: mais ainda. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. ↩︎
- Jacques Lacan. O Seminário. Livro 16: de um Outro ao outro. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 248. ↩︎
Carbono, vol. 10 – setembro de 2025.
ISSN: 3085-7066
