É muito comum encontrarmos na literatura uma representação mais ou menos realista do futuro. A ficção científica, desde os notáveis trabalhos de Julio Verne, por exemplo, notabilizou-se por nos entregar narrativas futuristas que, com o passar do tempo, se concretizaram na vida real (pelo menos em parte). Aparentemente, a ficção literária tem uma relação sólida com o futuro mais remoto, seja por meio das distopias sociopolíticas, seja por meio da imaginação especulativa que cria mundos de fantasia nos quais vigem outras condições para o ser humano. Mas e quanto ao passado remoto? Ou, melhor ainda, pré-histórico? Por mais que haja narrativas ambientadas no passado e que recriam, com maior ou menor rigor factual, a ambientação dos tempos antigos, é muito raro encontrarmos textos literários que se propõem a tarefa de narrar histórias situadas em tempos imemoriais. Os Imortais,1 romance da escritora brasiliense Paulliny Tort, se passa em um passado que é ao mesmo tempo mítico e histórico, narrando o encontro dos neandertais com os Homo sapiens. Nele, o passado mítico se funde com uma narrativa objetiva, quase realista, que usa a ficção literária para propor um exercício de imaginação ao leitor: acompanhar a trajetória de uma Homo sapiens vivendo em meio a um grupo de neandertais. A partir dessa proposta, Tort nos conduz por ambientes rústicos e inóspitos, por um universo de escassez e mutismo, sem, contudo, limitar o texto a uma mera narração fria de supostos fatos concretos. No livro, em vez disso, abunda, de modo particularmente notável, a dimensão sentimental de criaturas com que nossa sensibilidade moderna tem pouco ou nada em comum. Ao corajosamente trazer para o espaço ficcional personagens relegados aos livros de ciência, Tort está nos confrontando com perguntas acerca de nossa linha do tempo, desde a mais distante, até a mais atual, colocando lado a lado dois colapsos: o dos neandertais e o do Homo sapiens, vítima de sua própria ganância. Ela está, também, desafiando o status quo da literatura do presente, calcada em representações do contexto atual e interessada nas vidas sociais de personagens totalmente inseridas na civilização humana. Nesta entrevista que a escritora gentilmente nos concedeu, ela fala sucintamente de alguns desses temas. Confira!
ANTONIO BARROS: Os Imortais é escrito em 3ª pessoa e é ambientado na pré-história, diferenciando-se, assim, da produção literária corrente, que, em geral, prioriza o uso da 1ª pessoa e temas contemporâneos. Como foi o processo de elaboração da forma? E como você situa o livro na produção literária atual?
PAULLINY TORT: Embora eu passe bastante tempo no texto, não sinto que a escrita de ficção é algo que está plenamente no domínio do controle. A voz soa como ouço a história. Sobre a situação do livro em relação à produção literária atual, isso caberá mais às pessoas do futuro, se elas ainda estiverem interessadas.
ANTONIO BARROS: O livro não tem diálogos, só interações verbais ou gestuais narradas de modo indireto. A falta de diálogos não impediu, porém, que a narrativa se aprofundasse na psicologia das personagens. No entanto, estamos falando de personagens cuja realidade se situa a mais ou menos 50 mil anos do presente. Como foi conjugar pesquisa histórica e imaginação?
PAULLINY TORT: Uma coisa não se separa da outra. Não fiz uma pesquisa para o livro, mas evolução e outros temas da biologia me acompanham há muitos anos (em entrevistas recentes, falei da minha experiência acadêmica e um estágio em primatologia). Ao mesmo tempo, sou uma leitora ativa de ficção, gosto de literatura antigona, cresci com poesia. E gosto muito de ler sobre linguagem, botânica, fungos etc. A leitura e a escrita fazem parte da forma como vivo. Tudo acontece ao mesmo tempo, não há procedimentos estanques.
ANTONIO BARROS: Há um elemento no livro que me parece bastante presente: o sílex. Embora não seja a mesma coisa que o silício, você diria que há um paralelo possível entre as ferramentas rudimentares dos neandertais – manuseadas com mais habilidade pelo Homo sapiens – e a revolução tecnológica das máquinas atuais?
PAULLINY TORT: Não pensei no que estava fora daquele mundo enquanto escrevi. Essas leituras que recebo são muito interessantes, às vezes bonitas, inteligentes, mas não se comunicam com o meu processo.
ANTONIO BARROS: Outro aspecto que chama a atenção na obra é a natureza, que se expressa na aridez do ambiente, marcado por lodo, escassez de víveres e intempéries. É inevitável não recordar as distopias climáticas que se amontoam nas prateleiras. A narrativa propõe algum elo entre esses dois pontos extremos da escala temporal, a aurora do Homo sapiens e seu ocaso na degradação climática?
PAULLINY TORT: Mais uma vez, são aproximações que leitores fazem. É claro que sou uma criatura que pertence a um tempo – e esse tempo tem suas características, seus problemas, suas urgências, seu Stimmung. Mas, ainda que nosso destino pareça importante e único, desconhecemos a real dimensão dos sapiens na existência. Embora nos sintamos donos e senhores da natureza, a Terra não foi feita para nós, outros humanos estiveram aqui por mais tempo, e a vida continuará se deixarmos de existir. O Universo também não existirá um dia. Que estamos adiantando nosso fim, não há dúvida, mas, para ter consciência disso, não precisamos de ficções. Não precisamos nem mesmo saber ler. Precisamos levar a sério as forças que sustentam tudo o que vive.
ANTONIO BARROS: Os papéis de gênero também estão bem marcados no romance, e o protagonismo das mulheres torna-os ainda mais impactantes nesse sentido. De que modo Os Imortais se soma ao debate de gênero na literatura nacional?
PAULLINY TORT: Eu não atribuiria um “debate de gênero” ao paleolítico, sobretudo quando falamos de outra espécie humana. O conceito “gênero” soa bastante anacrônico em relação ao período narrado. Mas o comportamento das fêmeas na natureza costuma ser muito diferente daquilo que até recentemente se propagava como fato biológico. Na etologia, assim como na primatologia, tem se demonstrado cada vez mais o protagonismo das fêmeas e a agência delas sobre a própria vida sexual. Pesquisas avançam nesse sentido. E há estudos que sugerem que as mulheres neandertais podiam ser fisicamente tão fortes quanto os homens, o que devia se refletir nos papéis sociais que elas desempenhavam. Consegue imaginar uma sociedade em que homens e mulheres dispõem da mesma potência física? Quanto à literatura nacional, não posso fazer a relação porque não tenho acompanhado tanto ultimamente.
ANTONIO BARROS: O romance tem uma progressão temporal linear e, no entanto, ele narra um ritmo cíclico nas saídas para a caça, nas funções e, inclusive, no deslocamento territorial dos neandertais. Sem dar spoiler, o final parece abrir uma nova dimensão do tempo, o tempo cronológico, do progresso. Na sua opinião, como se articulam essas diferentes temporalidades, pensando no que é deixado para trás e no que se abre para a protagonista?
PAULLINY TORT: O que significa “progresso”? Os neandertais também tiveram um passado: e eles não “progrediram” em relação a uma vida pregressa? Não faço ideia de como – e se – essas diferentes temporalidades que você sugere se articulam. Para mim, ainda estamos na mesma linha de tempo dos neandertais. É verdade que nossa espécie se cercou de bugigangas, que desenvolvemos comunicações velozes e máquinas extraordinárias. Já viajamos à lua! Inventamos novas plantas, novos bichos, aprendemos a resistir a doenças e problemas, enquanto criamos novas doenças e novos problemas, mas ainda sofremos e nos alegramos como nas cavernas. Ainda nos apaixonamos e odiamos, construímos e destruímos, sentimos compaixão, inveja, morremos e matamos. Surgimos ontem na Terra. No tempo cósmico, não somos nada.
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Carbono, vol. 21 – agosto de 2026.
ISSN: 3085-7066
