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Conexões Imprevistas: o Arquipélago de Amitav Ghosh

Na antologia “Wild Fictions”, Amitav Ghosh reúne ensaios de toda sua carreira, tratando de temas como o pensamento ecológico, a forma como a ficção informa a política, os indícios da possível crise de representação, entre outros

Resenha do Livro: GHOSH, Amitav. Wild Fictions: Essays on Literature, Empire, and the Environment. Chicago: University of Chicago Press, 2025.

João Gabriel Alcântara Manfrim1

Ouverture

Para minha surpresa ao escrever esta resenha, já faz uma década desde a publicação de The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable (2016).2 Da autoria de Amitav Ghosh, escritor indiano de longa carreira no mundo da língua inglesa, este livro-ensaio se propôs a explorar uma questão que se revelou crítica para nossos tempos: qual é o papel da ficção no desenrolar do Antropoceno – esta aparente nova época geológica em que, como espécie, nos inserimos?

Sobre o Antropoceno: embora discutível na sua dimensão geológica, o termo, na sua qualidade “guarda-chuva”, aparece como um reajuste paisagístico para as características ululantes – e cientificamente declaradas – do século XXI: a crise climática, a morte da biodiversidade, a elevação do nível do mar, o triunfo da economia dos combustíveis fósseis, entre outras tragédias e desastres cujo epicentro é o agenciamento do ser humano sobre a Terra. Partindo, portanto, desta que pode ser entendida como a “experiência do desarranjo” no capitalismo, Ghosh, numa guinada curiosa, desloca seu foco dos “horizontes apocalípticos baseados em dados brutos” para uma investigação do alcance sensível das produções humanas – como o romance –, optando, assim, por realçar a dimensão estética do problema.

Para tanto, ele se baseia num conceito clássico de mimeses: a arte como representação do real num jogo informativo de mão-dupla que constrói algo substancial e duradouro. Há, portanto, a construção de conhecimento sobre o humano – mas também sobre o mundo. Tomando exemplos práticos: consideremos o tanto que algo como “a política do café com leite” consegue perdurar apenas por sabermos que “São Paulo dá café/ Minas dá leite/ E a Vila Isabel dá samba” (Noel Rosa, Feitiço da Vila, 1934). No caso de uma canção como esta, um dado histórico persiste esteticamente através do tempo; agora, no que diz respeito à literatura, por meio de um romance, há um leque enorme de conceptualizações (leves ou pesadas) que informam a realidade pela sua “observação e documentação”. Pensemos, por exemplo, em como um comportamento feito o “arrivismo” é intimamente informado pela ficção do século XIX, com romances como os da Comédia Humana de Balzac.

Com base nessa relação, Ghosh se pergunta “se” e “por quê” o romance, enquanto “forma” de expressão da “literatura séria” do Ocidente, mostra-se, historicamente, tão relutante em tornar sensível os elementos que formam a experiência da era do carbono – entre os quais vale destacar a incongruente relação com aquilo que se denomina “natureza”. Mas o que o leva a formular estas questões? Assim como outras artes, a Literatura, por certo, não é feita de reações em tempo real. Por que, então, cobrar este tipo de resposta? Ghosh responde com o seguinte: a crise climática não só é discutida como também é veiculada em diferentes formas, mas “quase sempre em relação à não ficção”, enquanto que “romances e contos raramente são vistos por este horizonte”.3 Ou seja, o que é posto em xeque é justamente o possível sintoma de uma ficção (e sua linguagem) que cada vez mais não conversa com a realidade presente – e que, quando conversa, tem sua recepção relegada à ficção de gênero, “como se, na imaginação literária, mudança climática exibisse parentesco com vida extraterrestre ou viagens interplanetárias.”4

Assim, mais do que uma consideração sobre formas literárias, trata-se de um olhar antropológico sobre a cultura atual, suas predileções estéticas e, principalmente, seu imaginário – três termos que talvez possam ser mais bem definidos através da fixação por aquilo que Ghosh chama de “aventura moral e individual”.5 Isto é, histórias sobre o sujeito, sua identidade e seus dramas tanto localizados “na consciência” quanto dispostos num mundo entendido como acessório – um acessório útil e até significativo, mas quase sempre desprovido de conexões reais para além de si mesmo, tal qual um set de novela que nunca sobrevive inteiramente ao fim de uma produção. Aqui, portanto, o problema passa a se referir a escalas e a conexões entre dois termos: o humano e o mundo.

Nesse raciocínio, Ghosh esboça um cenário hipotético que vai direto ao ponto: num futuro substancialmente revirado pelas ações humanas – com uma Veneza ou Nova York já submersas –, as pessoas do amanhã, buscando em museus e bibliotecas os artefatos do passado, “não procurarão com prioridade e urgência os traços e presságios do mundo alterado que receberam como herança?”.6 Este é um cenário bastante provocativo. Mesmo em hipótese, ele veicula responsabilidade, sinaliza certa alienação e, sobretudo – de um jeito astuto, talvez próximo da inteligência prática do antigo Ulisses –, nos tensiona a realizar agora, em nosso presente, o exercício arqueológico que indica para futuro. Aqui está o pulo do gato do ensaio todo.

Há muito o que se dizer sobre The Great Derangement e suas teses – e muito já se disse. De lá para cá, o livro de Amitav Ghosh, ainda que encontrando justas contestações de abordagem, conseguiu sobreviver como uma problemática cada vez mais vigente para a ficção de nossos dias – e não sem motivo. Tomando as palavras do próprio escritor numa recente entrevista: ontem, escrevia-se sobre a crise planetária; hoje, escreve-se dentro dela. Com sua emergência, portanto, imperando sobre nós, comendo-nos pelas beiradas, esta crise naturalmente requer investigações, novas conceptualizações, formas novas de produção.

Dito isso, num quadro geral, preciso dizer que talvez não seja correto atribuir somente a Ghosh todo o despontar de reflexões estéticas sobre o Antropoceno. Porém, me parece inegável que uma parte razoável de sua proliferação é ligada, sim, às contribuições do escritor. Tomo como indício desde uma diversidade de artigos e resenhas – em jornais como The Guardian ou The New York Times – até uma produção ensaística posterior – como o livro de Mark Bould, The Anthropocene Unconscious (2021); todos, continuamente, propondo-se a retomar, sob novas perspectivas, as questões levantadas por Ghosh. Para além disso, levo em conta também uma produção acadêmica recente, com linhas de pesquisa e projetos (nem que) residualmente inspirados na problematização estética do Antropoceno. (Dentre eles, o próprio website do Carbono). Mas, enfim, por que me detenho neste grande preâmbulo, me desviando até aqui de comentar o livro ao qual esta resenha é – ou deveria ser – dedicada?

Uma resposta honesta seria apenas reiterar o que já foi dito: The Great Derangement propõe uma experiência tão tocante que, em algum momento e medida, sua lembrança pode vir a eclipsar qualquer leitura posterior. E, quando o assunto é justamente um outro (e mais recente) livro do próprio Amitav Ghosh, como é Wild Fictions: Essays on Literature, Empire, and the Environment (2025), então, entramos no terreno do inevitável. Porém, eu gostaria ainda de acrescentar algo: para além da influência e perspicácias duradouras do ensaio, sua leitura muito particularmente afetou a maneira como eu entendia a ficção, seus agenciamentos e conexões no mundo.  

Isso se deu, em grande parte, pelo estilo do autor em face de seus objetos. Com um forte viés antropológico (de formação, vale mencionar), o ensaio estético de Ghosh a respeito da crise climática também se revela um espaço de meditação sobre a História e seus procedimentos; sobre as tradições de seu país, a Índia, cruzadas pela modernidade e pelo imperialismo inglês; sobre o espaço de Calcutá, sua terra natal, num jogo de lembranças e trajetórias familiares sempre marcadas pela relação caprichosa e íntima com os rios Padma e Ganges; sobre a forma como a imaginação política se insere na imaginação literária (e vice-versa) – entre outros tantos temas. Com uma leveza surpreendente de conjectura, ele articula essas coisas como revelando conexões imprevistas.

É para essa qualidade que, num primeiro momento, eu quis chamar atenção: se há um traço característico da não ficção de Amitav Ghosh, certamente é a expressão da tentativa de conexões nem tão óbvias, nem tão convencionais do ser humano com o mundo. Conexões essas que aparecem como um lembrete de que – a despeito da Ciência e da teimosia do espírito humano – continua sempre a restar certo mistério, certa possibilidade de deslumbramento que, nos objetos da arte e da vida, conecta o geral ao específico, o pequeno ao grande.

Foi a isso que The Great Derangement me sensibilizou – e foi por isso que me voltei para Wild Fictions.

Enfim, a resenha!

Reunindo textos tão recentes quanto os da década de 2020 – e tão antigos quanto aqueles do início dos anos 2000 –, Wild Fictions é a criação de uma grande unidade sobre a carreira de Amitav Ghosh como escritor. Abraçando para si uma variedade abundante de materialidades – desde ensaios e conferências a posts de blog e trocas de e-mail –, a antologia trabalha com as abordagens de Ghosh sobre os temas correlatos ao autor em diferentes épocas: o pensamento ecológico e sua consciência política, as ricas experiências que embasam a escrita de ficção, os indícios da possível crise de representação, entre outros.

Partido desse vasto punhado de textos – que, de uma seção para outra, não parece revelar uma conexão óbvia, seja temática, seja formal –, buscar uma definição pode se revelar um empecilho. Como que ciente disto, o autor, na introdução ao livro, nos oferece uma chave de leitura: ele nos diz que o fio condutor que regula o emaranhado espaçoso de tópicos do livro é “O testemunho de uma ruptura no tempo, do registro de chegada ao fim de uma era que começou 300 anos atrás, no século XVIII.”7 Isto é, o fim da “modernidade” e de seu paradigma cuja base surgiu na era das navegações, fortaleceu-se pela colonização e imperialismo eurocêntricos e que, por fim, vem a “definhar” neste período conturbadíssimo de “unipolaridade” estadunidense desde 2001. Trata-se, portanto, de um testemunho do total esgotamento do mundo – material, natural, político, imaginativo –, provocado por esse paradigma que, segundo Ghosh, nasce do fato de que,

“Não é mais possível insistir na ficção da existência de uma divisão rigorosa entre o natural e o político: incêndios de vegetação, ciclones bomba e eventos semelhantes são também criaturas profundamente políticas no sentido em que são produtos de processos históricos que beneficiaram uma pequena porção de seres humanos às custas de uma grande parcela da população mundial.”8

Após essa premissa – que, em essência, quebra e problematiza as concepções de natureza com relação ao humano –, podemos, enfim, dar uma olhada na organização de Wild Fictions. Após sua introdução, aparecem as seis seções temáticas que constituem o livro. Bisbilhotemos algo delas.

O índice: arquipélago de conexões

A primeira seção, “Mudança Climática e Meio-Ambiente” (“Climate Change And Environment”), traz textos de defesa e reflexão ambientais a respeito dos impactos diretos da crise climática. Exemplo disso é “Loucura nos Sundarbans?” (“Folly in the Sundarbans?”). Tomando como assunto esse manguezal tão presente na sua obra (de ficção e não ficção) – tanto por suas dimensões estritamente ecológicas quanto imagéticas (quiçá espirituais) –, Ghosh articula um verdadeiro manifesto rigorosamente racional contra os empreendimentos do “capitalismo verde” – que prevê a defesa da biodiversidade pela lente exclusiva do turismo.

Da mesma forma, essa primeira seção trata ainda dos impactos indiretos da crise climática, como sua ligação sinuosa com as emergentes migrações das últimas décadas, que são objeto de “O grande Corte de Raízes: migração e deslocamento em uma Era de Crise Planetária” (“The Great Uprooting: Migration and Displacement in an Age of Planetary Crisis”). Nesse artigo de 2021, Ghosh investiga o cenário da crise de migrações europeia usando como norte o deslocamento de tantos habitantes de Bengala, sua região de origem, até a Europa – em tentativas de acesso, por vezes, ilegais. E, para a possível surpresa de leitores, o que ele constata não é necessariamente a pressão da crise climática atuando sobre essas pessoas, mas, sim, a noção de que “considerar a mudança climática como a principal causa contemporânea da migração é o mesmo que ignorar uma grande variedade de fatores históricos, sociais e tecnológicos que estão atuando como aceleradores de fluxos populacionais globais”.9

Dentre os fatores que cita para entender as ondas migratórias, reiterando o “paradigma” ao qual faz referência na introdução, Ghosh dá destaque para o “imaginário universal” que atua sobre os imigrantes e que os alcança por meio de dois pontos: a presença da tecnologia, com smartphones, e a sombra do passado, com os antecedentes familiares sempre falando mais alto do que a realidade material. O primeiro ponto evidencia no smartphone o veículo para percepções “unificadas” de lucro e sucesso que cruzam todas barreiras culturais. Já o segundo ponto evidencia o “motor de emulação” que dá corda aos desejos da migração: trata-se de uma busca de motivações no passado, em casos de outras gerações (primos, pais, avós que migraram), para ignorar as limitações do presente. Enfim, trata-se de um artigo de visão bastante ampla (e atual10) que se propõe a analisar sua problemática sem ignorar o imaginário que a fundamenta – e realiza isso numa espécie de atualização e retomada de experiências talvez familiares (e até estimadas) na ficção. Pensemos, por exemplo, no drama do sonho americano na novela América (2005), de Glória Perez, ou, então, da trajetória sempre enviesada pelos sonhos parisienses de Eugène de Rastignac, na obra de Balzac.

Capa do livro de Amitav Ghosh

A segunda seção da antologia de Ghosh é intitulada “Testemunho” (“Witnesses”). Nela, organizam-se pesquisas do autor a respeito de um de seus temas ditos prediletos: recordações de punho sobre a Primeira Guerra Mundial. Pautando-se sempre pela sua terra natal, Ghosh trabalha com um escasso material que expressa a participação indiana na Grande Guerra – que, assim como a de outras colônias do período, por vezes é esquecida.

Ele se alinha pelo relato duas figuras: Sisir Sarbadhikari, membro da Unidade de Ambulância Bengalês (Bengal Ambulance Corps) que, mesmo prisioneiro, manteve um diário extenso, e o Capitão Kalyan Mukherji, médico do Serviço Médico Indiano (Indian Medical Service), que, apesar de ter falecido como prisioneiro de guerra, manteve um diário que, postumamente, foi retomado e publicado pela sua avó, Mokshada Devi.

Em ambos os casos, vemos relatos agridoces e muito tocantes que, de um jeito estranho, revelam certos detalhes que instigam uma sensibilidade moderna. Exemplo disso é o drama de Sarbadhikari no seu Abhi Le Baghdad (“O caminho até Bagdá”). Após seu regimento ter sido feito prisioneiro pelas tropas Turcas no fim do Cerco de Kut (1915-1916), ele relata:

“Nossos nomes foram chamados um por um e nós fomos revistados. Que sorte eles não terem tirado minhas botas! De outra forma, eu não sei se esta história teria sido escrita. Meu diário estava escondido nas minhas botas.”11

Vejam só: feito prisioneiro, disposto num destino incerto e prestes a cruzar uma caminhada quase infinda – e com recursos extremamente escassos – até Bagdá, a grande preocupação de Sarbadhikari é o punhado de papel comprimido nas suas botas… Uma vida inteira contida num papel escondido nas botas.

Nessa segunda seção, evidencia-se também um dos traços particulares de Wild Fictions: o profundo gosto pelas descobertas e partilhas intelectuais. Ghosh – num trabalho de resumo muito parelho, talvez, ao dos discípulos de Aristóteles ou dos comentadores de peças perdidas de Eurípedes – traça uma espécie de narrativa simplificada dos relatos de Sarbadhikari e Mukherji, como que buscando apresentar para a língua inglesa um tipo de matéria que, de outra forma, certamente não seria encontrada e muito menos transmitida.

Na terceira seção, “Viagem e Descoberta” (“Travel And Discovery”), temos três ensaios a respeito de viagens de Ghosh em três períodos diferentes de sua vida: um dedicado aos seus anos de formação em Antropologia, quando fez trabalho de campo numa região do Egito; outro, a uma viagem à China em companhia de seu filho mais velho; e um último consagrado às Ilhas Molucas – também conhecidas como “Ilhas das Especiarias” –,  em que Ghosh trata da intervenção da crise climática no que antes foi o motor econômico do arquipélago, a noz-moscada e o cravo-da-índia. Desses três, preciso admitir que o primeiro, intitulado “Confissões de um Xenófilo” (“Confessions of a Xenophile”), é particularmente tocante. Escrito e apresentado em 2008, durante uma conferência no Cairo para escritores árabes, Ghosh começa da seguinte forma:

“Depois do meu país, a Índia, não há outro lugar no mundo que tenha sido mais importante para a minha formação de escritor do que o Egito. Hoje, faz cerca de 28 anos desde que eu cheguei ao Cairo em 19 de abril, 1980 […]. O pretexto imediato para minha jornada era a pesquisa: um pouco antes, eu havia ganho uma bolsa de estudos que me levou da Delhi University para Oxford para estudar antropologia social. Meu sonho era escrever ficção, mas, feito muitos aspirantes a romancistas, sentia que me faltava a riqueza necessária da experiência. Os escritores que eu admirava – V.S. Naipul, James Baldwin e outros – tinham ido ao mundo e o visto girar: eu não queria mais do que isso para mim.”12

Com esse tom talvez sentimental – remontando suas aspirações e o início de sua formação como escritor –, Ghosh apresenta sua estada numa pequena vila do Cairo para articular não apenas suas próprias lembranças, mas também as profundas ligações entre os materiais estéticos no funcionamento da vida. Isto, pois uma parte essencial de seu relato é a dificuldade de comunicação que teve no início com seus anfitriões, coisa que se resolveu do jeito mais pitoresco imaginável: quando os escassos conhecimentos da língua árabe falharam, “eu descobri um meio de comunicação em que nós ficávamos em termos parelhos: era a língua do aflaam al-Hindeyya – isto é, canções de filmes Hindi.13 Assim, por intermédio de representações, melodias, letras e danças de filmes indianos dos anos 1950 e 1960 que chegavam ao Egito, a comunicação se desenrolava entre esses habitantes de mundos tão distantes – mas talvez nem tão distintos.

Há, aqui, a possível recolocação de um sentimento quase ingênuo de contato entre povos. Porém, não creio que seja essa a intenção de Ghosh. As lembranças de seu tempo no Cairo logo despontam numa reflexão sobre o motivo pelo qual esse tipo de diálogo entre o Egito e a Índia, entre a Ásia e o Oriente Médio, tornou-se tão reduzido, tão limitado a despeito de suas conexões pré-coloniais. A partir disto, ele evoca uma noção de cosmopolitismo que pré-data os habituais cruzamentos estipulados na modernidade – tão alicerçados no imperialismo europeu como seu único grande intermediário… Se eu pudesse, traduziria este ensaio na íntegra. Continuando…

As últimas três seções de Wild Fictions, “Narrativas” (“Narratives”), “Conversas” (“Conversations”) e “Conferências” (“Presentations”) apanham uma diversidade de textos extensa demais para uma descrição mais detalhada. Trata-se de resenhas de livros, transcrições e notas de conferências que Ghosh apresentou em universidades, documentações de pesquisas que o autor realizou para a escrita de seus romances, posts de blogs etc. Considerando injusto ter que escolher um texto específico para comentar, queria apenas pontuar algo sobre “Provincializando a Europa: Uma Correspondência” (“Provincializing Europe: A Correspondence”), da quinta seção.

Como o título já indica, trata-se de uma correspondência realizada entre Ghosh e Dipesh Chakrabarty, autor do livro chamado Provincializing Europe: Postcolonial Thought and Historical Difference (2007), que serviu de mote para a troca entre os dois. Em matéria, digamos, intelectual, é um texto muito rico: lemos um debate amigável, mas caloroso, sobre pós-colonialismo na Índia, feito entre dois escritores acurados que expressam seu interesse pelas pontuações um do outro (seja pela concordância, seja pela discordância).  Agora, o que, de fato, mais me saltou aos olhos nessa leitura foi a transcrição da materialidade em que o texto nasceu: é, de fato, uma troca genuína de e-mails. Ao início e fim de cada entrada, aparecem as costumeiras convenções (“prezado”, “caro”; “com estima”, “seu” etc.), além de comentários curiosos, como este que faz Chakrabarty, ao justificar a demora para responder: “Infelizmente, não consigo imprimir mensagens com o computador que estou utilizando no momento na Austrália”14 – coisa que, para minha sensibilidade moderna, aparece quase como um “traço de ficção” (um pouco semelhante ao uso outrora corrente dos telefones de orelhão).

Retomando a noção disruptiva da introdução de Wild Fictions, é preciso notar o quanto a passagem do tempo se faz valer durante a leitura dessas seis seções e seus capítulos. Certamente, trata-se de um efeito secundário do pulo entre textos, mas isso não implica numa falta de contribuição para a antologia: assim como The Great Derangement, a impressão mais marcante dos ensaios de Ghosh é a de que, mesmo como leitores, aderimos sempre a um movimento contínuo e incessante que cobre as mais diversas dimensões do mundo – seja pelo tempo, seja pelo espaço.

Finalizando, acho interessante compartilhar uma dúvida que me acompanhou pela experiência da antologia: qual é o sentido de seu título?

Por fim, por que “Wild Fictions”?

Entrei nessa coletânea me perguntando o que diabos “Wild Fictions” poderia significar. Me parecia um nome evocativo e um tanto caprichoso – o que certamente contribuiu para minha primeira e errônea impressão de que se tratava de um livro de contos. Para minha surpresa, uma resposta se revelou na leitura de um dos ensaios compilados na seção de “Narrativas”.

Publicado em 2008 no website Outlook – portal de informações de publicação em hindi e inglês –, “Ficções Selvagens” (“Wild Fictions”) é um ensaio que, não sem razão, foi escolhido como título da coletânea. Ele começa com a seguinte premissa: “Se histórias têm um papel vital – como eu acredito que tenham – em nosso entendimento sobre o mundo, então uma questão de extrema importância é: quais são as narrativas que animam a contenda sobre a natureza que, hoje, está sendo conduzida ao redor do planeta?”.15 A partir disto, o autor tenciona traçar conexões íntimas dos efeitos da ficção, aliados aos procedimentos da ciência, com o atual imaginário ocidental sobre a natureza, evidenciando como essa relação informa, historicamente, grande parte de nossas medidas práticas de relação com o meio-ambiente – inclusive aquelas que se pautam numa “consciência ecológica”.

Para tanto, do lado da ficção, ele apresenta um conto escrito por Jacques-Henri Bernardin de Saint-Pierre publicado em 1791. Chama-se “The Indian Hut” (“A Choupana Indiana”) – e seu autor jamais pisou na Índia. Nele, um erudito inglês viaja para a Índia em busca de respostas para questões sobre o mundo consideradas como vitais por ele. Lá, ele entra em contato com sábios de todo o Oriente, mas sequer chega a uma única resolução – nem mesmo quando fala com o mais qualificado pândita da Índia. Desiludido deste último encontro, ele pretende desistir, mas, numa de suas trilhas de volta para onde estava hospedado, é pego por um ciclone que o força a se refugiar numa floresta. Nela, ele encontra uma rústica choupana onde vivem um homem recluso e sua esposa que, prontamente, o acolhem. Conversando com seus anfitriões, o erudito encontra suas respostas – todas informadas por uma natureza que, na sua pureza e simplicidade, distingue-se do mundo dos humanos.

Do lado da ciência, Ghosh relata uma ocasião histórica sobre o rio Hooghly, que liga Calcutá ao Golfo de Bengala. Em 1852, Hooghly apresentou uma leva de marés altas que, após sua descida, trouxe para suas margens uma pluralidade de vida marinha. Sabendo disto, o naturalista inglês Edward Blyth correu para investigar espécimes presentes numa dessas margens. No entanto, ele se deparou com gestos de colaboração da comunidade local que se alinhavam não com seus desígnios científicos, mas, sim, com uma sensibilidade em relação à vida do rio. Assim, em questão de dois dias, grande parte da vida marinha foi devolvida à sua origem, enquanto que Blyth ficou inadvertidamente sem objeto para suas investigações.

Num primeiro olhar, esses dois casos podem parecer um tanto dissemelhantes – concordando apenas no que diz respeito ao fato de seus autores (europeus) interagirem com um mundo “à margem” do seu. No entanto, Ghosh pontua que, “enquanto Saint-Pierre imagina a natureza como um templo e espaço sagrados, para Blyth, ela é um ‘campo’ em todos possíveis sentidos do termo”16 – em especial, no científico (um campo de estudo). Portanto, sua conexão é de que “em ambos, a [noção de] natureza é incontaminada pelas pessoas: trata-se de um domínio definido pela exclusão de seres humanos. Deste modo, a natureza vem a ser imaginada como um Éden perfeito demais para a progenitura infeliz de Adão e Eva.”17

Seria esse, portanto, o imaginário da natureza que, segundo o autor, prevalece até os dias de hoje: um em que a presença humana é contrária e “estranha” à natureza – que, por sua vez, é vista como um terreno de corte delimitado. Mas o que exatamente produz uma concepção como esta? E o que dizer a respeito de sua expressão concreta? É aqui que as “Wild Fictions”, enfim, aparecem.

Buscando responder essas perguntas, Ghosh toma como objeto nossa relação com a entidade “floresta” e as políticas de estado que historicamente basearam a ação do ser humano sobre ela. O que ele evidencia, considerando lugares como parques e reservas, é a presença constante de uma consciência, a princípio, “ecológica” que, por vezes, ao promover gestos como o deslocamento e readequação de populações locais (sobretudo indígenas), mira não na preservação do meio ambiente, mas, sim, na pura continuidade viciosa desse desarranjo entre ser humano e natureza. Ou seja, trata-se do tipo de empreendimento essencialmente colonial que, no passado, muito caracterizou “políticas de interesse” como a do “Indian Removal Act” nos EUA; e, que, hoje, geralmente, é associado ao capitalismo verde e seu modus operandi, que busca esvaziar um determinado espaço pela motivação de estar “preservando um sistema natural” – e, assim, torná-lo rentável. Na concretização deste cenário, Ghosh comenta que

“Quando turistas urbanos visitam reservas ou parques nacionais, eles apresentam uma vaga concepção de que sua experiência de paragens silvestres é parelha àquela dos espectadores de uma peça de teatro: raramente, se é que em alguma ocasião, eles recebem um vislumbre do que, de fato, os proporciona essa experiência – isto é, o aparato administrativo de expulsão, restrição, e assim por diante, que faz com que essas paragens silvestres se conformem à noção de “imaculado” do turista. Neste sentido, os dois são parceiros na produção de uma ficção silvestre: é a sua voluntária suspensão de descrença que torna possível algo como exclusividade de florestas.”18

Para embasar seu argumento, Ghosh comenta casos da própria Índia, mas também do Oriente Médio, que expressaram esses mesmos procedimentos (limitantes) na construção de reservas e parques – e falharam em seus desígnios às custas da biodiversidade que procuravam preservar. Entretanto, não é necessário se ater a exemplos tão distantes da realidade brasileira para compreender o ponto de Ghosh. A influência desse tipo de imaginário alcança todos os cantos do mundo. É o caso recente do povo Avá-Guarani, no Paraná. Depois de um processo de desapropriação legal do território do Parque Nacional do Iguaçu, os indígenas tiveram seu acesso ao parque efetivamente negado pela Justiça Federal com base em “ameaças de invasões” – que, supostamente, acarretariam em “possíveis danos ambientais”.

Respondendo, por fim, à pergunta que fiz ao início desta seção: “ficções selvagens” (wild fictions) é um termo de conjunção entre as infelizes limitações de nosso imaginário e os objetos daquilo que denominamos “natureza”, seja ela essa demarcação em redoma que expulsa a presença humana, seja ela algo diferente – talvez a ser relembrado, talvez a ser imaginado. Deixo, como conclusão, as palavras de anseio de Ghosh que encerram o ensaio “Ficções Selvagens”. Acredito que elas simbolizam singelamente um traço essencial de sua obra:   

“O relacionamento entre as pessoas e seus arredores constitui um espectro de experiências tão vasto quanto a mente humana é capaz de o conceber – ele cobre desde o conhecimento de um pescador sobre as correntezas de um rio até as meditações de São Francisco de Assis, desde o deslumbramento de uma criança com a visão de uma borboleta até a indignação popular diante de um vazamento de petróleo. A própria vastidão deste espectro nos aponta a razão pela qual os relacionamentos humanos com a natureza são tão profundamente formados pelas suas imaginações ficcionais, seja por histórias de um autor como Bernardin de Saint-Pierre, […] seja por romances como o incomparável Moby Dick, de Herman Melville. É de minha crença que apenas a ficção é capaz de fornecer uma tela grande o suficiente para abordar esse relacionamento em todas suas dimensões […]. Conclui-se, então, que, se a natureza deve ser reimaginada de maneira a restaurar a presença humana que abriga em si – não como uma presença predatória, mas colaborativa –, então, é preciso que, em primeiro lugar, isto seja contado como uma história.”19

* * *

  1. Estudante de Graduação de Licenciatura em Letras – Francês e Português (Línguas e Literaturas) – na UFRGS. Atualmente, é bolsista de Iniciação Científica, sob orientação do Prof. Antonio Barros, e membro da equipe do Carbono. ↩︎
  2. Amitav Ghosh. The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable. Gurgaon: Penguin Books India, 2016. ↩︎
  3. Amitav Ghosh, The Great Derangement, op. cit., p. 9. No original: “When the subject of climate change appears in these publications, it is almost always in relation to non-fiction; novels and short stories are very rarely to be glimpsed within this horizon” (tradução minha, assim como todas as seguintes). ↩︎
  4. Idem, p. 9-10. No original: “as though in the literary imagination climate change were somehow akin to extraterrestrials or interplanetary travel.” ↩︎
  5. Idem, p. 171. ↩︎
  6. Idem, p. 14-15. ↩︎
  7. Amitav Ghosh. Wild Fictions: Essays on Literature, Empire, and the Environment. Chicago: University of Chicago Press, 2025, s./p. No original: “bearing witness to a rupture in time, of chronicling the passing of an era that began 300 years ago, in the eighteenth century.” ↩︎
  8. Idem, s./p. No original: “it is no longer possible to cling to the fiction of there being a strict division between the natural and the political: wildfires, rain bombs and the like are also deeply political creatures in that they are the byproducts of historical processes that have hugely benefited a small minority of human beings at the expense of the great majority of the world’s population.” ↩︎
  9. Idem, s./p., destaque meu. No original: “In other words, to think of climate change as the principal cause of contemporary migration is to ignore a great variety of historical, social and technological factors that are acting as accelerants of global population flows.” ↩︎
  10. Recentemente, foi publicado no jornal The Guardian, na seção de “Long Reads” (“Leituras Longas”), um texto que trata sobre as condições atuais da migração universitária para o Reino Unido: como um eco do que Ghosh trata aqui, são destacadas as dimensões tanto de imaginário, que fomentam o sonho de “estudar fora”, quanto de aliciamento tecnológico, com plataformas digitais de direcionamento de estudantes se especializando em visar “aqueles mais rentáveis” – isto é, mais propensos a dívidas. ↩︎
  11. Amitav Ghosh. Wild Fictions, op. cit., s./p. No original: “Our names were called out one by one and we were searched. What luck that they didn’t make me take off my boots! Otherwise I don’t know if this story would have been written. My diary was hidden in my boots.” ↩︎
  12. Idem, s./p. No original: “Next to my own country, India, there is no place in the world that has been more important to my development as a writer than Egypt. It is now nearly twenty-eight years since I first landed in Cairo on 19 April 1980: The immediate pretext for my journey was research: a short while earlier, I had won a scholarship that took me from Delhi University to Oxford to study social anthropology. My dream was of writing fiction, but like many an aspiring novelist, I felt I lacked the necessary richness of experience. The writers I admired – V.S. Naipaul, James Baldwin and others – had gone out into the world and watched it go by: I wanted no less for myself.” ↩︎
  13. Idem, s./p. No original: “I discovered one medium of communication where we were on equal terms: this was the language of aflaam al-Hindeyya – that is to say, Hindi film songs.” ↩︎
  14. Idem, s./p. No original: “Unfortunately, I cannot print out messages from the computer I am currently using in Australia.” ↩︎
  15. Idem, s./p. No original: “If stories play a vital role—as I believe they do—in our understanding of the world, then a question of pressing importance is: What are the tales that animate the struggle over nature that is now being waged all around the planet?” ↩︎
  16. Idem, s./p. No original: “Where Saint-Pierre imagines nature as a sacred space and a temple, for Blyth it is a ‘field’ in all the varied senses of the term.” ↩︎
  17. Idem, s./p. No original: “In both nature is uncontaminated by people: it is a domain defined by the exclusion of human beings. Thus did nature come to be imagined as an Eden too perfect for the fallen progeny of Adam and Eve.” ↩︎
  18. Idem, s./p. No original: “When urban tourists visit national parks or sanctuaries, they have little conception that their experience of the wilderness is akin to that of spectators at a play: rarely, if ever, are they given a glimpse of the stage machinery that provides them with their experience—that is to say the administrative apparatus of eviction, restriction and so on that make these wildernesses conform to the tourist’s notion of the ‘pristine’. They are in this sense partners in the production of a wild fiction: it is their willing suspension of disbelief that makes the exclusivity of forests possible.” ↩︎
  19. Idem, s./p. No original: “The relationship between people and their surroundings constitutes as vast a spectrum of experience as the human mind is capable of conceiving —it ranges from a fisherman’s knowledge of a river’s rapids to Saint Francis of Assisi’s meditations, from a child’s wonder at the sight of a butterfly to public outrage at an oil spill. The very vastness of this spectrum points us to the reason why the human relationship with nature is so profoundly formed by fictional imaginings of it, whether they be the stories of a writer like Bernardin de Saint-Pierre […] or novels like Herman Melville’s incomparable Moby Dick. It is my belief that only fiction can provide a canvas broad enough to address this relationship in all its dimensions […]. It follows then that if nature is to be reimagined in such a way as to restore the human presence within it, and not as predator but partner, then this too must first be told as a story.” ↩︎

Carbono, vol. 22 – setembro de 2026.
ISSN: 3085-7066

Uma resposta em “Conexões Imprevistas: o Arquipélago de Amitav Ghosh”

Ótimo texto! Achei muito interessante a escrita da resenha da maneira que o autor construiu, e definitivamente coloquei Wild Fictions na minha lista de livros.
Os pontos que mais chamaram a minha atenção foram como Ghosh descreve a visão ficcional que temos da natureza e a fala sobre as escritas ficcionais contemporâneas estarem inseridas na crise planetária. Vários tópicos ambientais abordados na resenha parecem claros para quem lê um pouquinho das notícias diárias e afins, mas acredito que ainda não pensemos de forma aprofundada e crítica o suficiente no cenário que estamos vivendo. Daí, ainda mais, a necessidade de literaturas que toquem no antropoceno.
Obrigada pela resenha!

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