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Falha de Mercado

Uma discussão entre Brett Christophers e Adam Tooze, mediada por Kate Aronoff, sobre a crise climática e os limites do capitalismo

Kate Aronoff1
Brett Christophers2
Adam Tooze3

(Esta é uma transcrição editada da conversa ocorrida em 26 de outubro de 2024 na The New School for Social Research, intitulada Market Failure: The Climate Crisis and the Limits of Capitalism. A gravação em áudio está disponível aqui.)

KATE ARONOFF: Brett, você poderia descrever alguns dos temas e argumentos presentes em seu livro The Price is Wrong?

BRETT CHRISTOPHERS: O dióxido de carbono corresponde à maioria das emissões antropogênicas dos gases de efeito estufa, e a maior parte dessas emissões de dióxido de carbono vem da queima de combustíveis fósseis. A maior fonte de emissões dos combustíveis fósseis é a geração de eletricidade, portanto a geração de eletricidade está no centro da crise climática. A eletricidade vai se tornar ainda mais importante por conta do modo como o mundo está predominantemente se voltando para a descarbonização: a ideia básica tem sido eletrificar o máximo possível o transporte, os processos industriais, a construção civil, a calefação e assim por diante, gerando essa eletricidade sem queimar combustíveis fósseis. A eletricidade é encarada como a solução.

E como estamos nos saindo globalmente, no que tange à descarbonização da eletricidade? Olhando o copo meio cheio, a descarbonização está ocorrendo de forma mais rápida do que pensávamos. Os gráficos mostram curvas de desenvolvimento muito ascendentes no investimento em nova capacidade em energia renovável e na geração de eletricidade a partir das fontes renováveis.

Mas a geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis continua aumentando, independentemente do crescimento das fontes renováveis. Durante muitos anos, os prognósticos diziam “a geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis vai atingir o pico este ano”. Eles afirmaram isso em 2021, 2022, 2023 e 2024, e isso ainda não ocorreu – por várias razões, particularmente por conta da crescente demanda global por eletricidade de qualquer tipo. Portanto, é difícil afirmar que estamos sendo bem sucedidos na descarbonização da eletricidade, mundialmente falando. Tenho certeza de que a geração de eletricidade por meio de combustíveis fósseis vai atingir o pico em algum ano próximo, mas mesmo nesse caso, se ela decair lentamente, ainda estaremos falhando. O último Prognóstico Energético Mundial da Agência Internacional de Energia indicou que em todo lugar do mundo estamos bem distantes de onde deveríamos estar em termos do crescimento de energia renovável a fim de atingir a meta de zerar as emissões líquidas em 2050 – e o objetivo de zerar as emissões líquidas elabora todo tipo de hipótese sobre o sucesso de várias tecnologias de emissão negativa.

Por que a descarbonização da eletricidade está acontecendo muito mais lentamente do que o necessário? Primeiramente, quando se trata da descarbonização da eletricidade, estamos apostando tudo na energia solar e eólica. Existem países onde as energias nuclear, hídrica e geotérmica são importantes, mas essas tecnologias não vão dar conta do trabalho de descarbonização. A solar e a eólica, no entanto, tendem a crescer de 13% da geração de energia hoje para mais do que 50% ou 60% na metade do século XXI.

Em segundo lugar, estamos, em grande parte, dependendo do setor privado para alcançar a descarbonização. Isso não quer dizer que os governos não estão fazendo nada: os governos projetam e regulam os mercados de eletricidade e proporcionam apoio e subsídios para incentivar os atores do setor privado a acelerar a descarbonização. Mas os governos, com algumas exceções notáveis (a China como a mais significativa delas), não vão fazer isso por conta própria. Eles não vão colocar no balanço contábil público a descarbonização por meio do financiamento, do investimento, da propriedade e da operação estatais das usinas solar e eólica. Em vez disso, eles estão deixando o setor privado fazer a descarbonização, empurrando-o na direção correta. Essa é a abordagem na maioria dos países, incluindo os EUA.

Em terceiro lugar, estamos confiando no setor privado na sua estrutura atual. Não houve uma reforma significativa da indústria e do mercado de eletricidade nas últimas décadas; nem nenhum movimento importante para reformular o modo como a eletricidade é comprada e vendida. Essas estruturas existentes são cada vez mais liberalizadas e desregulamentadas.

Há uma narrativa dominante segundo a qual os obstáculos para uma descarbonização mais rápida são de natureza política, tais como licenças lentas para o funcionamento de usinas solares e eólicas. Os interesses que dizem “não no meu pedaço” são suficientemente poderosos para pôr um ponto final em novos desenvolvimentos. Interesses velados em combustíveis fósseis têm grande poder em modificar as decisões dos operadores das linhas de transmissão. Importante para essa narrativa é a ideia de que o problema não é econômico, ao menos não mais. Há vinte anos, era muito mais caro gerar eletricidade por meio dos fonte solar e do vento do que da queima do gás natural ou do carvão. Mas desde meados dos anos 2000, o custo dessas tecnologias de geração caiu muito e bem rapidamente, principalmente devido aos desenvolvimentos chineses. Na metade dos anos 2010, era tão barato, senão até mais barato, gerar eletricidade a partir do vento e do sol quanto do gás natural e do carvão. Nesse ponto, tínhamos efetivamente resolvido o problema econômico e alcançado a paridade de grade. Logo, como sempre, os obstáculos restantes só podiam ser de natureza política ou partidária.

Em meu livro, eu digo que essa narrativa está errada. O que não quer dizer que obstáculos como licenças e interesses velados não são importantes. Mas a economia ainda é um problema, e o problema é o da lucratividade. É inútil olhar para as energias renováveis predominantemente através da lente do custo. Quando olhamos para a lucratividade, a instalação de energias renováveis não é um negócio particularmente atrativo ou confiável.

Eu não estou falando do lado manufatureiro do negócio, mas sim do desenvolvimento de usinas solares e eólicas, da propriedade e operação dessas usinas, e da venda da eletricidade que elas geram ao longo de sua vida útil (o equipamento dura em média de vinte e cinco a trinta anos). Esse aspecto do negócio tem espinhosas questões de lucratividade, e isso é um problema na medida em que dependemos do setor privado.

Quando pensamos na descarbonização da eletricidade, o que acontece no Sul Global importa mais do que o que acontece na América do Norte ou na Europa. Os setores de energia dos países ao longo do Sul Global dependem mais intensamente de combustíveis fósseis do que os setores elétricos dos países no Norte Global. Projeções sensatas sugerem que o volume de crescimento global futuro na demanda por eletricidade vai se concentrar no Sul Global, onde as necessidades e os desafios econômicos e financeiros são maiores, principalmente devido ao custo maior do capital.

KATE ARONOFF: O que eu achei muito útil no The Price is Wrong é como ele oferece uma forma de entender a abordagem geral que os políticos nos EUA e na União Europeia adotaram, mais claramente nos EUA por meio da Lei de Redução da Inflação. A Lei de Redução da Inflação foi uma tentativa de cortejar o investimento privado através de US$ 400 bilhões em incentivos fiscais para uma ampla gama de tecnologias verdes, sob a premissa de que muitos elementos da descarbonização podem se transformar em ativos. O caso da eletricidade nos ajuda a pensar em como isso se reflete em outros setores.

O ex-chefe do Conselho Nacional de Economia, Brian Desse, que foi conselheiro da campanha de Kamala Harris, descreveu essa lei como uma legislação que busca “encorajar investimentos privados em energia limpa. Os incentivos fiscais tornam os investimentos mais atraentes”, ele explicou, “mas os negócios, juntamente com as cooperativas rurais, as empresas sem fins lucrativos e outras, devem julgar se investir seu dinheiro numa fábrica de hidrogênio ou uma usina eólica é rentável. No fim das contas, a lei será tão bem sucedida quanto o apetite deles em investir em uma escala que vai reduzir significativamente as emissões que aquecem o planeta e aumentam a segurança energética do país”.

Faz quase três anos da aprovação da Lei de Redução da Inflação, e a União Europeia adotou sua própria versão dela. Como você avalia esse período do Zeitgeist político da indústria verde? O quão efetivas são a Lei de Redução da Inflação e as políticas similares imaginadas para a indústria verde como ferramentas para a descarbonização? Seriam elas muito pequenas para funcionar, ou elas têm falhas básicas de projeto?

ADAM TOOZE: Uma das coisas mais legais do livro do Brett é que se trata de uma explicação global de verdade. Ele situa o dilema que ele está propondo no pano de fundo da história da política global de regulação de energia desde os anos 1990. Esse livro devia ser ensinado em cursos sobre o neoliberalismo. Embora alguns dos modelos mais desmembrados de provisão de energia dos EUA e do Reino Unido tenham se tornado exemplos para outros países, esse modelo separa a geração da rede e da distribuição no varejo, que é onde muitos dos problemas de incentivo estão localizados. Uma parte do dilema do Sul Global é que o seu movimento em direção a mais desmembramento segue firme, ao passo que em muitos países ricos estamos caminhando na direção oposta por causa dos problemas bem evidentes com o desmembramento. Essa é a matriz arruinada dentro da qual a política tem que trabalhar.

De modo brilhante, o Brett esboça os modelos de negócio da NextEra Energy e de outros atores no sistema estado-unidense, que são cruciais para entender a política da Lei de Redução da Inflação. Ele explica a lógica autocontraditória do desenvolvimento e do investimento na energia verde. Novos investimentos em energia verde muito eficiente e barata levam ao declínio das taxas de lucro dentro do setor – em parte por causa dos custos antecipados, enquanto os custos marginais posteriores são próximos de zero, e em parte por conta do modo como a eletricidade é precificada no atacado. O setor canibaliza a si mesmo: geradores instalam uma capacidade cada vez mais eficiente e ficam presos em uma guerra fiscal em leilões nos quais eles vendem a eletricidade pelo preço de custo, acrescida de uma fração cada vez menor.

O verdadeiro problema com esses projetos é que eles exigem muito capital. Como você os financia antecipadamente? Ninguém em sã consciência emprestaria bilhões de dólares para um ativo cujo valor basicamente depende dos resultados altamente incertos dos acordos sobre o preço da eletricidade. Desse modo, é muito difícil angariar fundos para esses projetos. Mesmo que o custo nivelado pareça ótimo, usinas a gás ainda são melhores em termos de financiamento porque seu fluxo de caixa é mais previsível e as margens de lucro são mais estáveis.

A política tem que ser avaliada em termos de sua capacidade de resolver esse problema. A Lei de Redução da Inflação enfrenta esses problemas básicos? Dado que ela foi projetada por lobistas e atores de dentro desse sistema – como qualquer legislação nos EUA –, ela auxilia de várias formas, especialmente na questão da estabilidade. Eu sou cético quanto à Lei de Redução da Inflação, mas os defensores dela me mostraram que o aspecto mais importante dessa política é a previsibilidade do fluxo de subsídio. Do ponto de vista dos investidores em energia renovável dos EUA, a Lei parece um compromisso público de longo prazo com um punhado de subsídios mais previsíveis. Isso por si só muda o jogo. Não é um glorioso passo em direção a um futuro pós-neoliberal, mas ajusta o sistema de subsídios. Os resultados são inegáveis. Por exemplo, embora houvesse fortes razões para a construção sem subsídio da tubulação de energia renovável do Texas (um projeto inacabado ainda), o subsídio torna o projeto mais lucrativo.

Com esse regime de subsídios, o governo dos EUA começa a arbitrar um acordo intra-corporativo e intra-elite. A estabilização real para os projetos caros de investimento em energias renováveis é alcançada por meio de acordos entre empresas, com o Google, a Amazon e empresas do tipo aceitando o compromisso de comprar uma certa quantia de energia a um determinado preço. Quando um projeto garantir isso, um banco de investimento ou um financiador do capital privado dirá “Esse é um risco que eu posso correr, e o restante podemos fazer o hedge, ou algum sistema de subsídio vai absorver”. É nos mecanismos através dos quais esses contratos são marcados como arriscados ou sem risco que tem havido alguma mudança.

KATE ARONOFF: Brett, estou curiosa para saber o que você ouviu das pessoas de dentro da indústria quanto ao que mudou com a Lei de Redução da Inflação. Quais foram as mudanças nos últimos anos, e quantas são resultado dessa política?

BRETT CHRISTOPHERS: Quando a Lei chegou, já havia incentivos gerais do mesmo tipo que a legislação introduziu. Mas ela surgiu depois de um período de grande incerteza sobre se os subsídios existentes seriam mantidos. Não havia uma visão de longo prazo, o que a indústria considerou problemático. A Lei de Redução da Inflação oferece aos investidores em energia renovável tanto créditos fiscais de investimento, quanto créditos fiscais de produção. Ela os estendeu por pelo menos dez anos e elevou a taxa de crédito de volta ao nível original. Assim, efetivamente, a Lei inflou de novo a lucratividade a fim de atrair investimento.

Quando olhamos para a Lei dessa forma, não deveríamos esperar que ela fizesse muito, porque ela não mudou fundamentalmente o contexto. Eu suspeito que o que a Lei está – ou não está – fazendo no setor industrial da fabricação é mais importante do que os créditos e subsídios que ela oferece para a implementação de energias renováveis. As mudanças importantes estão acontecendo na forma como a Lei está mudando os incentivos para que os desenvolvedores de energia renovável nos EUA comprem de fabricantes estado-unidenses ou continuem importando da Ásia.

Em outros lugares do mundo, os governos basicamente apoiaram o desenvolvimento em energia renovável por meio de tarifas feed-in, através das quais o governo oferece aos desenvolvedores de energia renovável um preço fixo a longo prazo pela eletricidade. Então o desenvolvedor acredita na promessa do governo, vai ao banco e diz: “Agora você pode me emprestar dinheiro, porque você pode constatar que eu serei capaz de vender minha eletricidade por um preço que vai me permitir pagar a dívida”. Isso não acontece nos EUA, e é por essa razão que os acordos corporativos de compra de energia são tão importantes. Créditos fiscais não oferecem um preço fixo a longo prazo, mas os acordos corporativos de compra de energia, sim. O Google, a Amazon e a Microsoft estão cumprindo nos EUA o mesmo papel que o governo desempenha em outros países.

ADAM TOOZE: Sua análise desmembra vendas no varejo, rede, geração e financiamento em quatro etapas distintas que têm quatro grupo de atores completamente diferentes. Alguns são desenvolvedores de projetos de energia de corpo e alma; depois, temos as pessoas que lidam com os consumidores e que têm a obrigação de entregar a energia; e, por fim, regulando tudo isso, existem pessoas que precisam ganhar uma margem maior do que 7% ou 8% de retorno e que não ligam para como elas vão conseguir isso. Elas têm times de analistas que pesquisam, mas, essencialmente, elas podem pular fora, e isso paira sobre muitos dos projetos que você descreve. Com um sistema totalmente integrado, tal qual o da China, existe uma urgência conectiva, convincente, em expandir massivamente o suprimento de energia, o que gera um impulso coletivo dentro do sistema a fim de satisfazer a necessidade por mais energia.

Isso me deixa com uma questão de comparação. Se o seu argumento definitivo é o de que as energias renováveis não são construídas porque elas não dão dinheiro, minha resposta seria: como diabos o fraturamento hidráulico foi feito? Ninguém ganhou dinheiro com o fraturamento hidráulico por anos. Talvez eu esteja errado, e alguém importante ganhou dinheiro de fato. Mas você consegue me persuadir de que o gás é uma aposta mais segura do que uma usina eólica?

Quando voltamos um pouco no tempo e observamos a política de energia nos EUA desde 2008, a história principal não é a Lei de Redução da Inflação ou as energias renováveis; a história principal é que os EUA se tornaram o maior produtor de combustíveis fósseis. Pessoas despejaram bilhões nisso, o que reduziu o preço do combustível para todo mundo, mas não gerou dinheiro para ninguém. Talvez alguém na cadeia está ganhando dinheiro e deve ser por isso que a coisa segue em frente. Na Europa, ninguém está investindo em nada, enquanto nos EUA existe uma experiência ao vivo de investimento em energia transformadora no fraturamento hidráulico, juntamente com um investimento medíocre em energia renovável.

BRETT CHRISTOPHERS: Essa é uma ótima questão, e eu vou respondê-la de modo insatisfatório porque eu não sei muito sobre fraturamento hidráulico. O ponto que eu defendo é o de que existe um problema real de lucratividade com as energias renováveis que está obstruindo um desenrolar mais rápido – ainda que, mesmo assim, exista um desenrolar, que pode ser entendido de diversas formas.

Há atores que estão bem satisfeitos com os níveis relativamente marginais de lucratividade. Em muitos casos – não necessariamente o da NextEra, mas o de desenvolvedores menores –, existe um desejo de realizar algo verde, que não devemos subestimar. Esses desenvolvedores, em muitos casos, são entidades empresariais que estão dispostas a aceitar o risco. Como você disse antes, são as instituições financeiras que não estão prontas para aceitar o risco.

A minha pesquisa para o livro apenas reforçou meu ponto de vista de que muito do capitalismo se resume a conquistar fontes confiáveis e defensáveis de monopólio ou oligopólio de poder. Uma coisa a se notar sobre a geração de eletricidade, e mais especificamente sobre a geração de eletricidade a partir de fontes renováveis, é que é incrivelmente competitivo vender uma mercadoria indiferenciável apenas com base na competição de preços.

Se os custos caíram tanto, por que os lucros não estão subindo? Se você é um desenvolvedor de uma usina eólica que viu seus custos de geração caírem 60% nos últimos dez anos, você iria pensar que seus lucros aumentaram. Mas a sua capacidade de aumentar os lucros é totalmente dependente de sua capacidade de capturar ou privatizar os benefícios daquela redução de custos. Não é o que acontece: esses benefícios entram na competição e são repassados na cadeia de fornecimento ou chegam até os consumidores. É claro, isso é o que os consumidores querem: uma transição verde sem que a conta de luz aumente. Os políticos querem que a conta de luz permaneça baixa porque isso os ajuda a se manter no poder, embora essa conta de luz baixa seja contraprodutiva à lucratividade que incentiva investimentos futuros.

ADAM TOOZE: Esse é um argumento absurdamente impopular. Você está basicamente dizendo que estamos tirando os dividendos verdes cedo demais, e, ao invés disso, devíamos permitir o monopólio capitalista verde acumular mais excedentes para que ele possa continuar municiando o investimento. Então, de algum modo nós arbitramos o acordo social para que não tenhamos uma crise no preço dos combustíveis – e deveríamos aliviar os mais pobres, enquanto esfolamos os consumidores ricos.

BRETT CHRISTOPHERS: Parte disso é a minha frustração com o argumento segundo o qual não devíamos reduzir os riscos do capital. Se os mercados de energia e os sistemas financeiros continuarem desse jeito, e se então não reduzirmos os riscos, não haverá investimento. Se a escolha for entre oferecer subsídios que garantam um certo percentual de retorno em investimentos em energia renovável para a BlackRock, resultando em uma transição energética rápida; ou, por outro lado, não aceitar reduzir os riscos do capital, não resultando em transição energética, eu sempre fico com a primeira opção. O problema é que, politicamente falando, estamos limitados a esse conjunto de escolhas.

KATE ARONOFF: Nos EUA, ouvimos falar de números impressionantes sobre o desenvolvimento de energia renovável ao passo que estamos produzindo mais petróleo e gás do que nunca, muito por conta do crescimento do xisto. Podemos assistir aos EUA descarbonizarem domesticamente até um certo grau, enquanto continuam a exportar combustíveis fósseis.

Emily Grubert e seus colegas chamaram isso de “transição intermediária”: o sistema de combustíveis fósseis atravessa um período de incertezas, o que impõe restrições ao aumento do sistema de energia limpa. São tempos confusos, e, com menos planejamento, se tornam ainda mais confusos.

ADAM TOOZE: Essa coisa de transição intermediária é claramente teleológica: sabemos que existe uma transição, então definimos nossa posição atual em relação ao fato de que estamos no meio do caminho. É um construto mental extraordinário à luz das tendências que estamos observando. Ainda nem começamos a descarbonização no âmbito global.

Até onde consigo ver, a política dos EUA consiste em almejar uma transição lenta, o que significa que o país nunca tem que encarar o abismo escancarado entre levar o clima a sério e redobrar os ativos de combustível fóssil marginalmente viáveis. Se a Ásia e a Europa reduzissem rapidamente a demanda por combustíveis fósseis, haveria um enorme problema de ativos encalhados. Podemos imaginar, como você disse, um tipo de cenário bifurcado em que o ar condicionado é movido por energia renovável no Texas, mas todo mundo continua a dirigir camionetes gigantes e ainda exportamos grandes quantias de petróleo e gás – possivelmente para petroquímicas chinesas (embora a China não vai comprar muito petróleo para combustível num futuro próximo porque a eletrificação está acelerada lá).

BRETT CHRISTOPHERS: Uma parte do obstáculo econômico que afeta as energias renováveis é simplesmente o nível de lucratividade. Mas os retornos são sempre relativos, porque todos os atores capitalistas têm um conjunto alternativo de oportunidades de investimentos à sua disposição, mesmo se essa alternativa de investimento for apenas deixar o dinheiro no banco ou aplicá-lo em títulos do governo livres de risco. Uma taxa de retorno entre 5% e 8%, que é o que as energias renováveis oferecem, pode parecer atraente para certos atores em determinados momentos.

O grupo óbvio para o qual isso não pareceu atrativo é o das grandes companhias de petróleo e gás, que, com seu negócio principal de petróleo e gás indo contra a corrente, não se animou com um retorno esperado de menos de 15% nos anos recentes. Para elas não faz nenhum sentido fazer a transição para um negócio que gera retornos menores do que a metade dessa taxa – contanto que elas acreditem que continuarão a receber esses níveis de retorno atuais. Se elas acreditassem que algo vai acontecer – tipo uma ação regulatória – e que vai prejudicar a lucratividade dentro do curto ou médio prazo, então elas considerariam fazer a transição.

Na Europa, houve um momento há mais ou menos cinco anos em que a British Petroleum e a Shell acreditaram de fato, até mesmo recearam, que seria feita alguma coisa que tornaria os negócios principais delas menos seguros a médio prazo. Em 2020, elas anunciaram que começariam a transição. Os planos de transição delas eram razoavelmente modestos, mas elas diziam que iriam reduzir sua produção de petróleo e gás, gastar mais dinheiro em energias renováveis e assim por diante.

Em maio de 2021, a Agência Internacional de Energia firmou sua posição e disse: “Se vamos zerar as emissões, não pode haver novos desenvolvimentos em petróleo e gás licenciados e aprovados e nenhuma nova mina de carvão”. Mas, uma semana depois, vinte novos campos de petróleo e gás foram aprovados para desenvolvimento. Novas licenças choveram igual confete mundo afora. As BPs e as Shells viram isso e decidiram que os governos nem remotamente estavam levando a sério tomar as medidas que elas temiam, e elas adiaram seus planos de transição. Quando eu comecei a olhar mais seriamente para a questão da energia no final da década de 2010, eu ouvi muito a respeito dos ativos encalhados. Mas, de fato, ninguém mais fala disso, porque está claro que nenhum deles vai ficar encalhado num futuro próximo.

KATE ARONOFF: A Lei de Redução da Inflação e o Acordo Verde Europeu estão ambos preocupados em proteger o legado das indústrias que demandam muito carbono – especialmente as de carros nos EUA e na Alemanha. Os EUA estão pressionando outros países a rejeitar os painéis solares chineses baratos e outros importados mais baratos usados como elementos na descarbonização. Onde a gente vai parar com os EUA tentando construir uma aliança multilateral contra a China?

ADAM TOOZE: O Brett tem uma abordagem simples e no entanto brilhantemente esclarecedora: ele restringe o problema à eletrificação, à geração solar e eólica, e se elas podem ser lucrativas para os investidores. A discussão do livro começa nos anos 2010, quando já havíamos identificado a solução tecnológica – estamos apostando tudo nisso e agora é tarde demais para fazer outra coisa. Mas esse não é o caso dos veículos elétricos, e também não é o caso em outras áreas da descarbonização que são difíceis de atenuar.

Estamos acostumados a pensar no desastre ambiental como uma tragédia coletiva. Existe muito gado para pouca cerca, então o gado sai pastando e come a grama toda; se tivéssemos direitos de propriedade, teríamos um gerenciamento melhor do gado e da grama. Mas e se o problema real for o quão rápido podemos aumentar o rebanho de gado que não come grama? Quais os incentivos necessários para criar um gado que não come grama?

Se você é a Volkswagen, seu problema é: qual o lugar mais provável onde se encontra o ambiente no qual de algum modo vamos resolver o misterioso problema da fabricação do carro elétrico? Eles falharam na Europa. Deve ser na China, porque a empresa sabe que é o único ambiente de aprendizagem no qual ela de fato estará inserida na próxima etapa da produção automobilística.

A política dos EUA para a fabricação de carros elétricos não chineses só vai dar certo se ela oferecer um cenário plausível que se encaixa na estratégia corporativa, e no momento isso é impossível. Os atores locais estão pulando fora. A Ford não é uma empresa de carros, de todo modo; tudo o que ela faz são camionetes. A GM está lidando com uma crise existencial. A Stellantis é basicamente uma empresa europeia. A questão não é só “Quão lucrativo isso fica em um portfolio?”, mas sim “Qual é o nosso futuro corporativo viável?”. Isso requer um processo mais elaborado de visão coletiva. Aço verde? Como vamos fazer isso? Ninguém sabe ainda. Mas o que sabemos é que a China produz metade de todo o aço do mundo. No ecossistema do aço chinês, alguns engenheiros geniais podem estar trabalhando nisso, talvez ligado com o hidrogênio verde. Se você compra o bilhete estado-unidense dizendo “Isso não é com a gente”, você está assumindo um risco enorme.

Os estado-unidenses dizem que é tudo se resume a margens de lucro e diminuir riscos; eles não estão entendendo a seriedade dessa escolha estratégica. O fato de que a Boeing não consegue mais fazer aviões seguros, ou que a Intel não consegue mais produzir chips de ponta, não é uma mera questão de níveis de retorno. Ou melhor, porque elas pensaram que era uma questão de níveis de retorno, elas não conseguem mais produzir essas coisas. Se você está no negócio de fabricação de ponta, por que você ficaria nos EUA?

BRETT CHRISTOPHERS: Nos EUA e na Europa, os agentes corporativos atuais não mostraram basicamente nenhum interesse em tecnologias de mitigação, ou eles voltaram atrás nos compromissos com essas tecnologias. O único interesse real que esses agentes mostram é em tecnologias de emissões negativas. As empresas de petróleo e gás estão investindo um bocado em captura e armazenamento de carbono na Louisiana, explicitamente para evitar a necessidade de transição. Como a política se interrelaciona com isso? No caso do Reino Unido, o novo governo do Labour parece apoiar a moda das tecnologias de emissões negativas.

ADAM TOOZE: O Golfo do México será um centro de tecnologias de emissões negativas porque os EUA já possuem uma massa crítica ali. A rede de gasodutos de hidrogênio presente ali é bem mais sofisticada do que em qualquer outro lugar do mundo. Não é coincidência que o “Plano Marshall da Energia Limpa” do Brian Deese especifica a energia geotérmica, o hidrogênio, a captura de carbono e a energia nuclear, que são áreas genuínas nas quais os EUA têm uma vantagem: a energia nuclear é da indústria militar e as outras três estão diretamente ligadas aos combustíveis fósseis. Os estado-unidenses são muito bons em perfuração, portanto eles absolutamente deveriam ser um líder mundial nessa arena.

KATE ARONOFF: Deese argumenta que os EUA criarão por aí novos mercados para tecnologias de energia limpa de ponta – ele foca em tecnologias incipientes como o hidrogênio e a captura de carbono. O quão confiante você está de que esses se tornarão grande setores de exportação para os EUA?

ADAM TOOZE: Há um argumento de fundo aqui com a crítica que a Daniela Gabor faz à “redução de risco” como o modo central de se entender o momento atual. Há duas maneiras diferentes de se pensar isso. A abordagem do Brett é a mais direta, ou seja “Podemos eliminar os riscos do jeito certo e pensar bastante nas questões distributivas, uma vez que não temos nenhuma outra ferramenta”. Minha visão inclinada para as Humanidades é a de que isso tudo é bobagem. Quando eles dizem que teremos um Plano Marshall Verde isso soa como se tudo estivesse no lugar certo, mas aí os números e a análise concreta mostram que ele é extremamente ínfimo – ninguém em sã consciência pode levá-lo a sério.

A questão mais modesta é se os EUA poderiam se tornar um grande centro de inovação nesses elementos francamente periféricos da transição energética verde. É claro que poderiam. Você encontra um primeiro empreendedor e o incentiva; você assusta todos os demais fazendo-os pensar que, se eles não inovarem, eles estão ferrados; e então você cria um mercado estável. Você precisa de um planejamento de dez, quinze, vinte anos. Serão necessários subsídios. Você tem que ter clareza sobre isso e resolver os acordos distributivos, não apenas por uma questão de equidade, mas porque os subsídios só são plausíveis se os acordos distributivos são explícitos. Do contrário, as pessoas vão pensar que você vai retirá-los de novo. Essa é uma das coisas que os alemães acertaram em relação à energia nuclear: eles criaram consenso coletivo acerca dela. A indústria só ficou irritada com a Angela Merkel porque ela acelerou o programa.

Os EUA são de fato os líderes mundiais em combustíveis fósseis sofisticados. É por isso que as Shells e BPs deste mundo sempre estão buscando estratégias alternativas – elas têm um complexo de inferioridade porque elas sabem que a Exxon é a maioral. As empresas estado-unidenses têm um registro de segurança muito melhor e são melhores do que as operadoras europeias em preservar a vida dos trabalhadores; elas também são bastante rígidas no que tange à corrupção. Portanto os EUA poderiam ser um grande líder na questão da transição energética, mas seria preciso muito menos baboseira e mais incentivos permanentes.

* * *

(Essa entrevista foi originalmente publicada na Dissent Magazine em 24 de fevereiro de 2025. Agradecemos à equipe da revista por permitir a tradução e a publicação. Para ler o original, clique aqui. Tradução de Antonio Barros.)

  1. Jornalista que escreve para a New Republic, sócia do Instituto Roosevelt e membro do comitê editorial da Dissent. ↩︎
  2. Professor de Geografia na Universidade de Uppsala e autor do livro The Price is Wrong: Why Capitalism Won’t Save the World, cuja resenha se encontra no Carbono. ↩︎
  3. Professor de história da Universidade de Columbia e autor do livro Portas Fechadas: como a covid abalou a economia mundial. ↩︎

Carbono, vol. 5 – abril de 2025.
ISSN: 3085-7066

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