Panorama Racial e Socioeconômico – DEPOIMENTOS

Apresentamos a última postagem do levantamento Panorama Racial e Socioeconômico 2020, promovido pela Secretaria de Ações Afirmativas e Diversidade do Centro Estudantil de Relações Internacionais da UFRGS (CERI/UFRGS)!

Os depoimentos registrados nesse post foram compartilhados por alunos e alunas que enfrentaram situações de discriminação e preconceito dentro do ambiente acadêmico do curso de Relações Internacionais da UFRGS. O CERI considera o Panorama Racial e Socioeconômico, assim como o Panorama Gênero, Machismo e Sexualidade, de extrema importância para que possamos reconhecer a gravidade de atitudes inaceitáveis de intolerância e para que nos engajemos na luta contra tais atos ultrajantes dentro do nosso curso e de qualquer outro ambiente.

Aproveitamos para informar que o CERI realizará levantamento semelhante em 2021 e convidamos os/as nossos/as colegas para respondê-lo, tendo em vista a sua importância para o desenvolvimento de melhorias nas pautas de inclusão social, superação de preconceitos e incentivo à diversidade dentro da graduação de Relações Internacionais.

Depoimento 01

”A sensação de inferioridade quando entrei no curso foi absurda. Ao ver meus colegas comentando as VÁRIAS viagens internacionais e acesso à cultura me questionei por muito tempo que diabos eu estava fazendo cursando RI. Outra coisa que me chama atenção no curso é o cospobre que vemos diariamente, com colegas abastados mas que amam se achar povão só porque estudam na federal.”

Depoimento 02

”No meu primeiro semestre recebi um resultado ruim na primeira prova de Introdução à Economia, e ao chegar no CERI tive que ouvir um colega (acesso universal, topo do curso até hoje) que qualquer aluno de ensino médio conseguiria um A na prova sem nem estudar. Me senti humilhada.”

Depoimento 03

”Agora que meus pais voltaram a trabalhar está complicado, pois tenho irmãos pequenos, estou me sentindo bem prejudicado… As leituras em inglês me prejudicam e parece que tudo é mais difícil para mim.”

Depoimento 04

”Trabalhar e estudar no curso de Relações Internacionais é uma tarefas bem difícil, ter que conciliar o emprego com as aulas à tarde é uma tarefa que te obriga a não ter um trabalho em horário comercial ou fazer menos cadeiras e se formar em um tempo maior. E quando você não pode sair do emprego e precisa se formar logo, para conseguir um emprego melhor (ou seu emprego atual depende de se formar), como fica? abandona o curso? sai do emprego?”

Depoimento 05

”A condição financeira da minha família oscila sempre oscilou bastante. Mudamos de cidade quando eu era menor para onde o custo de vida era mais baixo. Sempre estudei em escola particular, mas só consegui isso porque tive acesso à bolsa integral. Hoje minha mãe paga o aluguel do meu apartamento em Porto Alegre, o qual divido com mais 2 pessoas, mas estamos muito preocupadas se conseguiremos continuas pagando, por isso já estou de olho em alguns empregos. No geral consigo ter um padrão de vida bom, mas não com a mesma tranquilidade que vejo as pessoas ao meu redor. ”

Depoimento 06

”No meu primeiro ano de faculdade os veteranos fizeram muita pressão para que todos fossem fazer uma viagem para outra cidade, numa simulação, fazendo com que muitas pessoas que não tinham condições financeiras se sentissem mal por não conseguir participar dessa viagem.”

Depoimento 07

”Já vi um colega do curso que recebeu todo o material impresso para as disciplinas do primeiro ano, do seu veterano, reclamando que ia ter que comprar materiais novos pois os que recebeu estavam com anotações ou com marcas de uso. Enquanto isso, muitos calouros cotistas no mesmo ano ficaram sem materiais e tiveram que gastar para conseguir imprimi-los, pois seus veteranos não lhe deram os textos.”

Depoimento 08

”Uma vez duas pessoas do curso cujo discurso de ambas costuma ser de defesa dos trabalhadores e ”comunista”, ingressantes através do acesso universal e absurdamente ricas, estavam conversando sobre ”como era fácil passar nas cadeiras” já que era ”só ler os textos” e ”só reprova quem quer”. Nesse momento eu penei no meu contexto como cotista de renda e me perguntei: e as pessoas que trabalham? E as pessoas que tiveram um ensino público ruim e que nunca antes tiveram contato com tamanha cobrança? E as pessoas que nunca tiveram dinheiro e nem oportunidade de aprender inglês/espanhol? E as pessoas que gastam horas do seu dia dentro de um transporte público? Uma das minhas maiores dificuldades sendo uma pessoa de baixa renda e da região metropolitana é o tempo de deslocamento. Por diversas vezes, especialmente em aulas durante a noite, eu cheguei em casa de madrugada após horas esperando o ônibus (por vezes mais de um e em lugares perigosos), além dos dias normais em que, no MÍNIMO, 3 horas (ida e volta) eram gastas com locomoção, sem contar os poucos horários de ônibus e apenas uma linha passando perto de casa e indo até o centro de Porto Alegre. Tive a oportunidade de estar à frente de um dos projetos de extensão do curso em um passado recente e, infelizmente, foi perceptível a baixa participação de cotistas – sobretudo raciais e de renda – na equipe. Foi quando prestei atenção nas coordenações, secretariados e diretorias também dos outros projetos e percebi que isso se reflete nas posições de liderança dentro da extensão, majoritariamente ocupadas por pessoas brancas de acesso universal. Acredito que esse contexto tenha origens para além do plano individual, sendo algo mais ligado à estrutura do nosso curso.”