Alimentos da sociobiodiversidade: cultura, sustentabilidade e territórios na cozinha

A alimentação é uma prática cotidiana que carrega escolhas e intencionalidades. No entanto, nem sempre nos damos conta de que, ao escolher o que colocamos no prato, também estamos tomando decisões políticas, ambientais e culturais. É nesse contexto que surgem os alimentos da sociobiodiversidade – um conceito que vai além do valor nutricional dos ingredientes, considerando suas origens, modos de produção e vínculos com os territórios.

De forma simples, alimentos da sociobiodiversidade são aqueles provenientes de espécies nativas da flora e fauna, manejadas ou cultivadas por comunidades locais, como povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e agricultores familiares, dentre outros. De uma forma mais ampla, também são consideradas as espécies crioulas, que, mesmo não sendo nativas, foram manejadas por muitas gerações, integrando a agrobiodiversidade dos territórios. Hoje em dia, alimentos da sociobiodiversidade também são cultivados nos espaços urbanos, como nas hortas escolares, comunitárias e/ou urbanas, em sistemas agroflorestais e regenerativos em territórios urbanos e rurais.

Esses alimentos são resultado de saberes ancestrais, de práticas agroecológicas de manejo e cultivo e de relações mais sustentáveis com os ecossistemas. Mais do que ingredientes, são expressões vivas de identidade cultural e de resistência de modos de vida.

A sociobiodiversidade aqui no Rio Grande do Sul envolve frutas nativas como o araçá, o butiá, a goiaba-serrana e a juçara, entre outras; cereais como o milho crioulo; tubérculos como batata-doce e mandioca; hortaliças tradicionais como o pissacãn; flores como capuchinha; raízes como crem, e também produtos de origem animal, como mel de abelhas nativas e queijos e carnes cujos animais são criados no  campo nativo. Ao consumir esses alimentos, fortalecemos circuitos curtos de comercialização, valorizamos o trabalho de povos e comunidades tradicionais, agricultores familiares e coletivos rurais e urbanos e contribuímos para a conservação ambiental.

No curso de especialização em Gastronomia Cultural da UFRGS e UFCSPA, a sociobiodiversidade é tema central. Ela aparece tanto nas discussões em sala de aula, quanto nas cozinhas para as aulas práticas. A proposta é justamente refletir sobre como os alimentos carregam histórias, saberes, memórias e territórios e como podem ser os grandes protagonistas na construção de sistemas alimentares mais justos, saudáveis e sustentáveis, através de um novo entendimento do que é Gastronomia e quem habita a categoria de gastrônomo.

Ao escolher um produto da sociobiodiversidade, não estamos apenas inovando o cardápio ou resgatando sabores esquecidos. Estamos também tomando parte de um movimento que reconhece a importância da cultura alimentar como ferramenta de transformação social e cuidado com a natureza. Afinal, cada alimento carrega uma história, reflete uma cultura e configura um território. A cada ato de cozinhar, honramos essas raízes e tradições, revivendo memórias e compartilhando identidades.

Fotografia mostra horta comunitária localizada em viela no bairro Petrópolis, em Porto Alegre
Horta comunitária em viela do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, produz hortaliças e verduras em canto de terreno aproveitado no espaço urbano (Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU)

Sandreli Bandeira é turismóloga e jornalista, escreve sobre saberes e sabores, interligando diversas áreas.  É tutora e integrante do Núcleo de Comunicação do Curso de Especialização em Gastronomia Cultural.
Tatiana Miranda é gastróloga e etnoecóloga e coordena o Núcleo de Comunicação do Curso de Especialização em Gastronomia Cultural. É fundadora da Erva-doce: cozinha afetiva artesanal, que busca promover a gastronomia sociobiodiversa.
Gabriela Coelho-de-Souza é Diretora do Centro Interdisciplinar Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento (CISADE) e coordenadora do Curso de Especialização em Gastronomia Cultural.