Artistas e Hiperconsumidores nas Redes Sociais

O que você produz quando compartilha algo nas redes sociais? Para muitos a pergunta pode parecer estranha, mas quando interagimos online estamos fornecendo dados e produzindo conteúdo. Dados pessoais em login, técnicos, geográficos através de dispositivos. Com o compartilhamento do material pré-existente produzimos conteúdo para a nossa rede de contatos, pela reprodução geramos conteúdo. Nesta era da hiperprodução de imagens, onde o real é construído visualmente, segundo os teóricos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, ocorre uma estetização da vida cotidiana. E é nesse processo que os papéis dentro das redes se tornam nebulosos. Surge o que chamaram de prosumer, ou hiperconsumidor online, aquele que precisa trabalhar para poder consumir, aqui o trabalho é o que geramos. Alguns artistas apresentam uma reconfiguração poética de elementos, e que nos leva a indagar os limites dos papéis nesse espaço. Lipovetsky e Serroy  dirão que há uma hibridização de papéis, um vasto uso estético do virtual digital. 

Em mundo povoado por uma quantidade infinita de imagens que estetizam a vida cotidiana, qual é o papel do artista? Para Juan Martin Prada   cabe aqui o papel de colecionador, um artista “internauta” etnógrafo que a prática criativa lança um olhar sobre o que há de singular nos materiais encontrados. 

Perfis artísticos trabalham com seleção de materiais e fornecem subsídios para pensarmos essas posições movediças, como é o caso do coletivo de artistas conhecido pelo perfil @saquinhodelixo. O coletivo formado por Aslan Cabral, Davi Xavier, Douglas Layme, Isabelle Strobel e Sofia de Carvalho possui mais 400 mil seguidores no Instagram e cria conteúdo viral para redes sociais. Uma das particularidades do grupo é esse potencial de criação, em entrevista para o El País Brasil os artistas relataram que o processo se baseia muito nas discussões que ocorrem por grupo de whatsapp, onde os formatos são testados entre os próprios criadores, um exemplo da dinâmica prosumer nas redes.

 

 Uma das artista executa esse papel é a carioca Aleta Valente. Com o seu perfil  @ex_miss_febem3 teve a primeira conta no Instagram em 2015, nessa fase publicava em grande parte retratos de si, que giravam em torno de questões relacionadas às representações do corpo feminino e composições ligadas a grupos sociais, como pode ser visto no texto anteriormente publicado aqui.

Perfil da artista no Instagram

O primeiro perfil foi retirado do ar pelo Instagram após reclamações de usuários incomodados com o teor das imagens. A partir do segundo perfil, que também foi retirado do ar, até o momento com terceiro a atenção da artista se volta para a construção de uma persona a partir da seleção de conteúdos que circulam online, entra em cena a colecionadora. Uma das características exploradas e que reflete bem o meio o virtual é a efemeridade de boa parte do conteúdo. Os stories não ficam armazenados nos destaques, o conteúdo produzido nessa seção é uma experiência imediata, dura no máximo 24 horas, as reações e vínculos se concretizam nesse período de tempo e só existem nele. 

O artista Wisrah Villefort também discute essas dinâmica de circulação de imagens através do seu trabalho @mercado__livre. Segundo entrevista concedida para Vivian Villanova a ideia de trabalhar com imagens de produtos – no mínimo curiosos – vendidos em marketplaces online surgiu pela primeira vez ao perceber que muitos produtos tinham as mesmas fotos em diversas lojas dos sites; algumas, inclusive, possuíam marcas d’água dessas outras lojas. 

 

Uma das características que desponta nos trabalhos desses artistas é a capacidade que o formato “conta de Instagram” tem de se infiltrar fora dos limites tradicionais do público de arte. Essa configuração de produção artística não só expande tais limites mas segura um espelho diante de toda a dinâmica prosumer que se espalha na internet e reflete essa nebulosidade nas relações de produção e consumo. Em meio a normatização algorítmicas a profusão de imagens é incomparável e segue o caminho da padronização, onde as relações sociais sofrem influência dessas normativas, as novas reconfigurações artísticas criam esses pontos de observação de dentro da estrutura. 

Assim, os artistas que trabalham na internet com materiais que a própria rede produz apresentam em sua prática artística uma visão crítica muito singular. Em uma primeira camada de compreensão o conteúdo é absorvido pelo modus operandi online: se difunde, é apropriado e ressignificado a cada tela. Mas, ao refletirmos sobre as relações que essa produção artística tece com o ambiente, uma série de discussões podem ser levantadas. Elas criam esse lugar de fricção em que a arte desperta nos devolve a consciência dos mecanismos de circulação e manipulação que se efetivam meses espaços online.

 

 

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