Você já ouviu falar em remix em artes visuais? Este é um termo muitos vezes utilizado, mas pouco compreendido. Afinal o que é remix e qual a sua pertinência no mundo da arte?
O termo remix surge na música nos anos 70, quando a figura do DJ começou a aparecer e criar músicas a partir de pedaços de outras músicas, como os trabalhos de Grandmaster Flash e Coldcut. Era a prática do sampling, do mashup, que estava sendo incorporado no mundo da música do hip hop, rap, disco, entre outros gêneros. Joseph Saddler “DJ Grandmaster Flash” foi um dos pioneiros na prática de mixagem. A trajetória dele e do movimento que constituiu a cultura do hip hop em Nova York é retratada na série The Get Down. Uma técnica musical criada por ele foi o scratching, que consiste em mover o disco de vinil para frente e para trás em contato com a agulha do toca disco, causando um som ritmado.
O duo britânico de música eletrônica dos anos 80 Coldcut composto por Matt Black e Jonathan More criava álbuns inteiros feitos com samples de origens diversas e vários tipos de música como trilha sonora de filmes, gravações de discursos e multimídia em geral. Neste vídeo é demonstrado quantas fontes diferentes de pedaços de música, batidas, trilhas sonoras de filmes são utilizadas em uma música da dupla.
Mas como que essas práticas entram na área das artes? No livro Remix Theory: The Aesthetics of Sampling, de 2012, o escritor e pesquisador Eduardo Navas comenta que o objetivo dele era mostrar como o remix é um tipo de discurso que permeia a nossa cultura. E essas ideias acabam influenciando as produções artísticas, como podemos ver nos trabalhos da artista brasileira Giselle Beiguelman.
O trabalho Born2kill (2007) segundo a artista é um testamento midiático, e para este trabalho Beiguelman se apropriou de cenas de desenhos animados de sua infância. A artista faz um recorte/seleção e os reordena a fim de criar esse vídeo que evidencia os comportamentos violentos dos personagens de desenho que habitam nossa memória de infância. Ela contrasta essas imagens com a música pacifista da banda The Clash “Know Your Rights”.
“This is a public service announcement
With guitar
Know your rights
All three of them
Number one
You have the right not to be killed
Murder is a crime
Unless it was done
By a policeman
Or an aristocrat
Oh, know your rights”
Segundo Bourriaud, no livro “Pós-produção – Como a Arte Reprograma O Mundo Contemporâneo”, a partir dos anos 90 os artistas se utilizam cada vez mais de produtos culturais disponíveis, e isso se dá devido a ampliação de oferta cultural e uma maior abertura para formas de arte menos valorizadas ou objetos de cultura popular. O mundo é para os artistas como uma caixa de ferramentas, de produções culturais que estão disponíveis.
O termo remix não é a mesma coisa que colagem, pois como podemos ver nos trabalhos que exploram essa linguagem, acontecem modificações e edições sistemáticas de um mesmo material. Lev Manovich comenta no seu texto “What comes after Remix” de 2007 que enquanto o termo “apropriação” foi cunhado na área artística e não sai desse espaço, o termo remix é muito mais abrangente e não tem sua origem no campo da arte mas sim na música e na cultura digital. Na apropriação muitos artistas simplesmente copiavam a imagem e não alteravam ela de forma sistemática.
Se o remix já está integrado na nossa sociedade, hoje vemos que uma parte significativa para isso acontecer é por conta da internet e a forma como nós utilizamos ela. O Copiar/Colar se tornou uma linguagem comum do mundo online e acaba desafiando as ideias tradicionais de propriedade e direito de imagem. O que os artistas fazem, portanto, é refletir sobre essa realidade que nos encontramos e que cada vez mais se intensifica com o uso dos meios tecnológicos.
Referências:
BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. 1ed. São Paulo: Martins, 2009.
MANOVICH, Lev. What comes after Remix?, 2007. Disponível em: http://manovich.net/content/04-projects/057-what-comes-after-remix/54_article_2007.pdf. Acesso em: 28 abril 2018.
NAVAS, Eduardo. Remix Theory: the aesthetics of sampling. 1ed. Wien: Springer-Verlag, 2012.