Infraética Decolonial: Identidade e Pertencimento Nos Processos Criativos Sob a Ótica de Floridi.

A humanidade não mais oscila entre os extremos do offline e do online; agora navegamos no vasto oceano do ‘onlife’, onde todas as dimensões de experiências se fundem: esta é uma reflexão trazida na obra “The Fourth Revolution: How the Infosphere Is Reshaping Human Reality” de Luciano Floridi, onde o autor aborda a dissolução da vida analógica para uma vida digital, onde o indivíduo atrela-se em uma simbiose intrínseca à infosfera, em um novo processo de construção de identidade e, até mesmo, cultura.

“Fundo do Mar”, 2021, obra de João Moxca, exibida na exposição digital “Telas Pretas”.

É inegável que a metamorfose da fronteira do ciberespaço pela interface humano/máquina traz consigo novas descobertas dentro do campo artístico e processos de criação, no entanto, essas descobertas carregam também as implicações éticas do uso de dados e reproduzem problemas sociais estruturais que afetam grupos minorizados.

Em primeiro lugar, é essencial compreender o potencial das I.A nas artes, tendo em vista que já estamos em um caminho sem volta: a cada dia o uso de inteligências artificiais se torna mais corriqueiro ao dia-a-dia e de fácil acesso ao público geral. A capacidade algorítmica em emular estilos artísticos, compor músicas ou até mesmo criar obras visuais é intrigante. No entanto, é crucial refletir sobre como essa automação pode influenciar e até mesmo moldar a narrativa cultural e a identidade de determinados grupos ou, até mesmo, contribuir ainda mais para o seu apagamento sistêmico.

É necessário questionar quem são os agentes que moldam e treinam esses algoritmos. Os vieses culturais e históricos presentes nos conjuntos de dados usados para treinar as I.A podem perpetuar desigualdades e distorcer certos pontos de vista. Isso pode resultar na amplificação de narrativas dominantes e na supressão das vozes sub-representadas ou marginalizadas na sociedade.

Imagem criada através do algorítmo de uma I.A pela deputada Renata Souza, do PSOL, que pediu para a ferramenta gerar uma ilustração de uma mulher negra com trajes típicos em uma favela. Fonte: G1 / Instagram – Reprodução

Ao adotar uma abordagem decolonial, é imperativo questionar as estruturas de poder subjacentes à criação e utilização da IA dentro do campo artístico. Isso demanda uma reflexão crítica sobre quem está no controle do desenvolvimento desses sistemas, quem define os padrões estéticos e como são representadas as múltiplas perspectivas culturais. A ausência de diversidade nos processos de concepção e treinamento dos algoritmos de IA resulta em uma produção artística que reflete, em grande parte, apenas uma visão limitada do mundo.

Outra questão proeminente é a autoria e a autenticidade na arte gerada por IA. Enquanto admiramos a criatividade algorítmica, surge a questão ética: até que ponto uma obra produzida por IA pode ser considerada uma expressão autêntica e original e não, apenas, uma mimetização do que já fora criado? Esse questionamento nos leva a refletir sobre os limites da criatividade algorítmica em comparação com a criatividade humana, além de questionar a legitimidade e o reconhecimento de artistas tradicionais, especialmente os que historicamente foram excluídos do cânone artístico. A presença da IA no meio artístico e em seus processos de criação, desafia as definições tradicionais de arte e autoridade artística. Como a tecnologia está moldando a percepção contemporânea da arte? As obras geradas por IA devem ser consideradas como arte legítima? Isso redefine os limites da expressão artística e as normas estabelecidas sobre o que é considerado “arte”? 

A interseção entre a obra de Floridi que traz o conceito de inforgs e a aplicação da IA nas artes é evidente ao considerar como a coleta e processamento massivos de dados afetam a criação artística. As obras geradas por IA são alimentadas por enormes conjuntos de dados, refletindo não apenas o conhecimento humano acumulado, mas também os padrões emergentes nesses dados e suas problemáticas.

Uma abordagem além da ética colonial, transcendendo uma visão de mundo dominado pelo capital, nos convida a desafiar os sistemas de poder e a considerar uma abordagem mais inclusiva e diversificada no desenvolvimento e uso da IA na fundição entre homem e tecnologia. Isso implica um esforço consciente para promover a representatividade cultural e para garantir que a criação de arte com IA não seja apenas uma replicação do status quo e uma arma de deslegitimação nas mãos do capitalismo, mas sim uma ferramenta para a reimaginação e a reconstrução de narrativas futuras na infosfera e fora dela.

Referências:

FERNANDES, Gustavo Lúcius; RESENDE, Renato Polanczyk; VAZ-DE-MELO, Pedro O. S. Além da estética: Dimensões éticas da geração de arte por IA. SBC Horizontes. ISSN 2175-9235. outubro de 2023. Disponível em: http://horizontes.sbc.org.br/index.php/2023/10/alem-da-estetica-dimensoes-eticas-da-geracao-de-arte-por-ia/. Acesso em: 30/11/2023. 

FLORIDI, L. The Fourth Revolution: How the Infosphere Is Reshaping Human Reality. New York: Oxford University Press, 2014.

TADDEO, Mariarosaria; FLORIDI, Luciano. Regulate Artificial Intelligence to Avert Cyber Arms Race, abril de 2018. Disponível em: <https://www.nature.com/articles/d41586-018-04602-6> Acesso em 01/12/2023

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