Abordagens da Arte Contemporânea no Brasil.

Uma abordagem sistêmica é adotada no livro Arte Contemporânea no Brasil, (ed C/Arte, 2019), de Maria Amélia Bulhões, que  aborda este tema de maneira clara e informativa, desde seu surgimento, elucidando as diferentes instâncias do sistema de arte no Brasil. Fruto de uma larga trajetória de pesquisa da autora, e que possui, também, ao longo da carreira, vários projetos relacionados a este objeto de estudo. 

No que diz respeito às origens da arte contemporânea no Brasil, na segunda metade da década de 1960, destaco como alguns artistas de vanguarda propuseram a introdução das novas tecnologias através da experimentação do uso de computadores, vídeos, das fotocopiadoras, e tantos outros aparatos e equipamentos. Isso foi possível devido aos artistas estarem transitando nos EUA, naquele momento de efervescente desenvolvimento tecnológico. Waldemar Cordeiro, realizou suas primeiras experiências com computador no campo da arte, no final da década de 1960. Waldemar Cordeiro também foi um dos três artistas estudados na minha pesquisa em 2017/2018, para o trabalho de conclusão de curso em Artes Visuais. Nela ele é apresentado como um pioneiro para a abertura da experimentação da Arte e Tecnologia e seu profundo empenho em difundir essa prática, que, segundo Bulhões (2019, p. 37), “… essa foi uma linha de trabalho bastante incipiente, que somente teria um desenvolvimento mais amplo na década de 1990, com a difusão generalizada do uso dos personal computers, os PCs.” Dentre suas obras, estão algumas das mais importantes que marcam este momento em sua carreira, tais como Auto-Retrato Probalístico, 1967 e BEABÁ, 1968.

Outro ponto interessante de ser comentado sobre o livro, está no momento que a autora pontua, no capítulo 4, o fortalecimento das instituições, museus, centros culturais e coleções, na década de  1990, que passam a estabelecer novas mediações no meio artístico local e interações com o circuito internacional. As articulações entre Estado e instâncias privadas buscam incentivos fiscais e atuam com um novo perfil, com instalações mais modernizadas, remodelação de prédios antigos, muitos destes, históricos, com o prestígio de respeitados curadores em suas exibições. É notável as mudanças adotadas, e diante disso a arte contemporânea ocupa espaços expositivos de forma inovadora e interativa, integrando-se em acervos e importantes grandes exposições. Surge uma nova tendência, instituições criadas e mantidas por corporações bancárias, mais antigo deles é o Itaú Cultural, com sede em São Paulo, um dos maiores até então, e outro também conhecido é o Farol Santander, com sede em São Paulo e Porto Alegre. 

O surgimento de novas Bienais (Bienal do Mercosul e Bienal Internacional de Curitiba) nos anos 1970 reforçou a exploração das linguagens contemporâneas, trazendo um processo de internacionalização desta produção no País.  Juntamente com a tradicional Bienal Internacional de São Paulo, Bienal, estas três bienais contribuem para a consolidação e a difusão das tendências artísticas contemporâneas. 

Por fim, e não menos importante, temos a presença das universidades na consolidação destas novas práticas artísticas, com grande importância no desenvolvimento da pesquisa em artes até os dias atuais. Da formação autodidata dos atores do campo artístico, passamos a ter forte presença de especialistas, com formação universitária. Se na primeira metade do século, haviam poucos nomes de críticos de arte, como Walter Zanini, Aracy Amaral e Mário Barata, com a formação acadêmica, hoje, o número é bem mais expressivo e com formações internacionais e envolvidos com a atividade de pesquisa na área. 

É nas universidades que está alocada quase toda a pesquisa de ponta realizada no país, além de promover incentivos a experimentações, onde a pós-graduação se dedica profundamente à tarefa de desenvolver investigações sistemáticas e documentadas, capazes de gerar conhecimento transferíveis e ao acesso da comunidade. 

Dentre todos os tópicos sinalizados até então, finalizo no Capítulo 6, que é onde encontramos uma pauta sobre Arte e Internet, que se correlaciona com a pesquisa que tenho desenvolvido, que está atrelada ao surgimento das NFTs¹.  Em meu trabalho atual investigo mais precisamente, seu reconhecimento internacional durante e posteriormente à pandemia de COVID-19. Os NFTs tem são Tokens Não Fungíveis e podem ser facilmente encontrados na internet, em exposições online, redes sociais, galerias digitais, e plataformas de marketplace. Até 2022, as NFTs eram pouco reconhecidas pelo sistema de arte, até que no último ano, alguns museus e galerias famosas do mundo tais como o Centre Pompidou, na França, e até a criação do Museu de NFT de Seattle, em Washington, passaram a incorporar aos seus acervos estas obras. No Brasil, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC USP incorporou o NFT Von Britney, de Gustavo Von Ha, ao seu acervo, tornando-se o primeiro museu do Brasil a fazê-lo. Esta obra é produto de um trabalho de pesquisa e experimentação de Von Ha totalmente voltado para as mídias sociais.

[…] se apropriou de uma imagem da cantora Britney Spears que é utilizada frequentemente como meme nas redes sociais. A obra Von Britney, que compõe a nova exposição do museu, Lugar-Comum, amplia, de acordo com a curadora do MAC, Ana Magalhães, “a discussão mais ampla que o artista tem abordado sobre autenticação e autoria de obras de arte, como podemos observar no conjunto de obras do artista que o Museu já possui”.  A aquisição do MAC USP representa “um novo capítulo no pioneirismo do Museu no colecionamento de novas mídias e obras nato-digitais”. Von Britney foi doada ao museu pela plataforma Tropix². […]

Destaca-se aqui, a importância de compreender Arte Contemporânea no Brasil em suas relações sistêmicas que contemplam a trajetória da produção artística e suas condições de instauração, institucionalização e geração de memória. Acompanhar os desdobramentos que envolvem estes processos, nos faz mais responsáveis pelo seu desenvolvimento, aspecto que Bulhões enfatiza “…sou focada em arte contemporânea, e não por que ela seja melhor que as demais, é pura e simplesmente por que ela é a nossa, ou seja, se nós não dermos conta da arte do nosso tempo, quem vai dar?” 

 


¹Embora a abordagem da autora neste livro não tenha sido neste sentido, no seu livro Desafios: Arte e Internet no Brasil (Zouk, 2022) ela se debruça mais sobre os NFTs.

²Tropix é uma plataforma de apresentação de obras NFTs, sendo uma das maiores plataformas de marketplace do Brasil, que tem contribuído significativamente em doações de obras para Museus e Galerias, o que tem sido também uma prática comum em outras plataformas internacionais. Esta prática evidencia o interesse em institucionalizar estas produções.

REFERÊNCIAS

BULHÕES, M. A. Arte Contemporânea  no Brasil. Belo Horizonte: C/Arte, 2019.

BULHÕES, M. A. Desafios: arte e internet no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2022.

MAC USP é pioneiro no Brasil na incorporação de NFT ao acervo. ARTEQUEACONTECE, 2022. Disponível em: <https://www.artequeacontece.com.br/mac-usp-e-pioneiro-no-brasil-na-incorporacao-de-nft-ao-acervo/>. Acesso em: 15 de abril de 2023.

 

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