Pensar a paisagem na internet é refletir sobre a forma como experienciamos o mundo e a nossa relação com os espaços em que vivemos. As fronteiras entre o espaço físico e o online se diluíram, principalmente com o avanço das mídias móveis. Para nos deslocarmos utilizamos GPS e localizadores no celular que nos sugerem qual caminho escolher, onde almoçar, o que visitar. A artista Marisa Olson defende que já vivemos em um momento pós-internet e que a nossa vida passou a ser mediada pela internet, sendo impossível estar fora das redes (segundo a fala da Giselle Beiguelman na Bienal The Wrong em 2017).
Ao mesmo tempo, a lógica da internet é parecida com a perambulação e o nomadismo, pois vamos pulando de link em link, atraídos pela possibilidade de encontrar novidades. Um trabalho de web arte que traz questionamentos sobre paisagem, suas representações e formas de vivenciá-la é o Postcards Project (2000-2016) de Lucas Bambozzi. Nele o artista explora essa relação entre o local e o seu imaginário através de cartões postais, este é um trabalho que o artista considera em constante execução. O artista vai a locais retratados em cartões postais e faz pequenos vídeos da mesma cena e sobrepondo uma imagem à outra, o projeto original você pode conhecer aqui neste link, posteriormente, esse trabalho se desdobrou em outros formatos, como instalações, etc. Esse trabalho está documentado no blog Territorialidade/Territoriality, que é um importante banco de dados de obras de web arte internacionais e nacionais. Alguns projetos têm um de seus únicos registros disponíveis lá, onde há uma aba dedicada especificamente ao tratamento da paisagem em web arte.

Na página sobre o projeto, o artista comenta: “Venho registrando em vídeo vários lugares turísticos onde a paisagem pode sugerir um pouco mais do que seus cartões postais revelam. A proposta existe em formatos de videoinstalação, web e single-channel video. No formato instalação uma projeção de pequenas dimensões acontece nos próprios cartões – presos individualmente entre duas placas de vidro e suspensos no espaço expositivo. Os cartões são os mesmos utilizados na gravação ‘in-loco’ das cenas – que coincidem com os lugares onde os próprios cartões foram fotografados. No verso de cada cartão são projetadas as imagens em vídeo, que mostram tanto o cartão como a realidade atualizada da paisagem que ele retrata – confrontando o aspecto realista da imagem em vídeo com a estética “glamourizada” da maioria dos cartões postais.”


Ter acesso a esse trabalho hoje já não é a mesma experiência do que há 19 anos atrás quando ele foi criado, as tecnologias são efêmeras e isso faz parte de trabalhar com elas. Ao entrar no site, posso clicar em diferentes imagens de natureza que me direciona para um vídeo curto em que aparece primeiro um cartão postal e depois ele é retirado revelando a vista real representada pelo cartão. É um trabalho que instiga diversas questões, que brinca com esse aspecto da imagem caseira e nos faz questionar o que é real. Além de criar uma curiosidade de querer saber como esses lugares “realmente são”.
Depois de todo esse tempo em que o trabalho foi criado penso que essas questões continuam presentes e só se intensificaram com a Web 2.0. Se antes podíamos ter um primeiro contato com o local através de revistas de turismo, cartões postais, televisão e jornal, hoje a internet também atende esta finalidade e tem nos oferecido outras perspectivas ou possibilidades narrativas. Além disso, podemos nós mesmos produzir o nosso conteúdo e mostrar as nossas paisagens sem ter câmeras profissionais ou uma superprodução. Se essas imagens são mais reais que as dos cartões postais, essa é uma questão que continua em aberto e pode gerar vários debates e reflexões.
Acesse o site de Lucas Bambozzi aqui.
Acesse o blog Territorialidade/Territoriality aqui.