Calculando Nova Rota

Dizer que o mundo está em constante transformação não é uma constatação inovadora ou impactante, o mais intrigante em tais transformações é como são percebidas, contestadas, articuladas, vivenciadas e retratadas. Uma das maiores testemunhas desses movimentos são as paisagens, e na história da arte elas são amplamente retratadas há muito tempo. Do realismo almejado pelos mestres renascentistas ao “exotismo” buscado pelas missões artísticas dos europeus fora de seu continente e outros tantos caminhos que a paisagem percorreu e percorre capturando e construindo a memória das transfigurações.

A representação de paisagem da modernidade confere um lugar central a cidade na sua discussão, ela se torna o representante dessa era. Desde então o ambiente urbano vem sendo constantemente trabalhado na arte por vários movimentos. Na produção contemporânea do Brasil temos artistas como Andrei Thomaz (1980 -) e sua série Eclipses (2016), nela há uma sobreposições de dados geográficos que gera um mapa tendo por base ruas com o mesmo nome, como pode ser visto na imagem abaixo. O trabalho foi desenvolvido com dados das cidades de Porto Alegre, Recife, São Paulo e Buenos Aires disponíveis no Google Maps. No projeto Máquinas Urbanas, explora a compressão da passagem do tempo se utilizando de enquadramentos urbanos, através do software que se utiliza de imagens de webcam para aproximar fotografias de longa exposição e dos vídeos do tipo timelapse, gerando a imagem de um ponto especifico da cidade com pixels extraídos de diferentes momentos no tempo.

Outro artista brasileiro a trabalhar com os percursos e interação urbanas é Felipe Cama (1970- ). Na obra Você Chegou ao Seu Destino (2017) (imagem abaixo) o gaúcho radicado em São Paulo produz uma série de pinturas a partir dos dados do deslocamento percorrido por ele durante um dia. O título oriundo da frase que indica o final da rota pré-estabelecida nos aplicativos de localização dialoga com o objeto, uma vez que o artista transforma em representação visual não somente os dados, mas as ruas, os prédios, as pessoas, toda a paisagem pela qual ele percorreu.

Atualmente a nossa relação com o espaço perpassa o uso de mapas virtuais de maneira naturalizada, esses trabalhos articulam as maneiras de existir simultaneamente do nosso corpo no aplicativos e espaços físicos e o resultado estético produzidos a partir desse encontro. Talvez o que essas imagens representam, mas não unicamente isso, seja uma espécie de estética sensorial da paisagem através das poéticas de la conectividad, utilizando o termo de Juan Martin Prada.

Acesse o site de Andrei Thomaz aqui.

Acesse o site de Felipe Cama aqui.

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