O diretor do Centro de Arte e Tecnologia Karlsruhe (ZKM) e professor universitário Peter Weibel concedeu uma entrevista à Simone Lenz e o Prof. Federico Vercellone (Università degli Studi di Torino), na qual ele fala sobre diversos assuntos relacionados às novas mídias na arte e apresenta seus posicionamentos e reflexões sobre este assunto (Entrevista com Peter Weibel).
Peter Weibel nasceu em Odessa em 1944 (na URSS, atual Ucrânia) e iniciou seus estudos na área do cinema, mas é conhecido atualmente pelas suas produções teóricas sobre arte contemporânea, história da mídia, teoria da mídia, cinema, videoarte e filosofia. Weibel é conhecido por seus pensamentos críticos em relação a mídia, e defende uma arte e história da arte que considere a história da tecnologia e da ciência.
Na entrevista o professor é questionado sobre o real impacto que as novas mídias têm sobre a nossa forma de perceber a realidade, e principalmente sobre a relação com o espaço público. O teórico então apresenta uma concepção pessoal dos sentidos próximos e distantes, que juntos constroem a realidade através de um equilíbrio entre os dois. Os sentidos próximos sendo o tatear, sentir, cheirar, e os sentidos distantes os da visão e da audição, e apresentando então que há uns 200 anos estamos em uma hegemonia dos sentidos distantes por conta da tecnologia. Utilizamos, portanto, telefone, rádio, internet, diversos aparatos para nos comunicarmos através dos sentidos distantes. Por isso, uma boa parte da construção da nossa percepção da realidade se dá hoje através dos sentidos distantes.
Ao pensar sobre esta relação de como as novas mídias interferem na nossa forma de sentir o espaço físico, podemos traçar algumas relações com a arte locativa, que foi já discutida por autores brasileiros, como André Lemos no capítulo Arte e mídia locativa no Brasil no livro Comunicação e mobilidade: Aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação. A arte locativa surge a partir da possibilidade do uso de celulares com tecnologias de localização, que acabam criando novas camadas de informações no espaço no qual nos situamos. De certa forma, esses trabalhos tensionam as relações entre o virtual e real, trazem essa discussão sobre esses novos lugares que não são físicos mas que contém informações, como a internet.

A performance coletiva Redes Vestíveis de Cláudio Bueno investiga as relações entre corpo, tecnologia e espaços. Foi desenvolvido um aplicativo que conectava aparelhos celulares, criando uma trama virtual na tela do dispositivo. E conforme os participantes se movimentam, esta trama se tensionava, como um elástico. É interessante como, mesmo as pessoas estando no mesmo lugar, como numa praça, elas interagiam e respondiam à este local e às outras pessoas através dos sentidos distantes, pois suas percepções do lugar eram mediadas pelo aplicativo no celular de cada participante. Segundo o artista Claudio Bueno “Pretende-se sugerir novas experiências para este corpo espacialmente localizado e em rede, que performa diante do que não vê, mas sente, entre corporal e incorporal”.
Peter Weibel problematiza a forma como os sentidos distantes são apresentados, cada vez mais substituindo os sentidos próximos. Ele define que hoje somos mais do que nunca observadores: “Nesse regime dos sentidos distantes, a imagem exerce um papel primordial. O espectador diz que vê à distância, ele literalmente “televê”. Mas, de fato, ele não vê nada. Seus olhos foram categoricamente desapropriados, eles pelo menos não estão no local do acontecimento.” Assim, não temos nenhuma decisão ativa do que queremos ver, vemos o que passa na TV, que por sua vez é o que uma pessoa olhou através da câmera de vídeo. E esta relação tem pautado a forma como algumas pessoas se relacionam com as imagens da realidade.

A videoinstalação Pulsão Escópica (2012) do artista João Castilho, que posteriormente virou um livro de artista e publicação, apresenta diversas imagens geradas por webcam que o artista reuniu dentro de sites de conversas por vídeo e chat online. Comportamentos que seriam integrantes dos sentidos próximos, que tem relação com o erotismo e com a expressão da intimidade das pessoas acabam sendo substituídos pelos sentidos distantes. Nessas imagens, pessoas anônimas se expõem, e se relacionam de outras maneiras, através da internet, cada um em sua casa em lugares que podem ser muito distantes e diferentes. Castilho enfoca essas cenas de exibicionismo e voyeurismo que podemos relacionar com a ideia de Weibel, na qual nos sentidos distantes predominam nas imagens como forma de passar sensações, afetos, e sentidos.
Parece que esta relação entre os sentidos próximos e distantes ainda precisa ser bastante discutida e pensada. E os artistas trabalham com essas problemáticas, que são próprias da nossa forma de lidar com as tecnologias. Essas questões vão além da arte, e fazem parte do nosso cotidiano, pois muitas das nossas relações pessoais e profissionais, seja por questão de distância, costume, ou praticidade, acabam sendo mediadas pelas redes sociais, pelos celulares e outros dispositivos. A nossa realidade é cada vez mais percebida pelos sentidos distantes, e precisamos refletir sobre os efeitos disso na nossa sociedade. Mas vemos que os artistas têm questionado e buscado tensionar essa nova condição de nossos sentidos, seja causando um estranhamento, ou trazendo isto para um outro contexto para que possamos perceber essas questões com outros olhares.
Referências:
LEMOS, André. Arte e mídia locativa no Brasil. In: LEMOS, André; JOSGRILBERG, Fabio. Comunicação e mobilidade: Aspectos socioculturais das tecnologias móveis de comunicação. Salvador: EDUFBA , 2009. Pg 89 até 109.
* As informações sobre o trabalho Redes Vestíveis foram tiradas da minha pesquisa de Iniciação Científica de 2016 orientada pela Profª Drª Maria Amélia Bulhões e intitulada Redes vestíveis: arte locativa no festival Vivo arte.mov. O resumo se encontra disponível no repositório digital Lume da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: <http://hdl.handle.net/10183/154732>
Site de Claudio Bueno. E em: http://buenozdiaz.net/. Acesso em: 27 de janeiro de 2020. (Página atualmente indisponível)