UFRGS e a Covid-19

Tédio x autocontrole

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Sumário

Confira o material elaborado pelo  Pega Leve – Saúde Mental do Estudante Universitário

Completamos 100 dias desde o início da quarentena em Porto Alegre. Você deve ter percebido que muitas pessoas que antes seguiam corretamente as medidas de contenção passaram a agir de forma mais despreocupada, desrespeitando as condutas sugeridas para a diminuição do risco de contágio. Você sabe qual é a explicação para estes comportamentos?

Uma das possíveis respostas envolve duas importantes variáveis
psicológicas: o tédio e o autocontrole.

O tédio é um estado psicológico natural, que geralmente ocorre quando temos pouca estimulação e pode ser bastante exacerbado diante de situações em que a atividade que estamos desempenhando nos carece de sentido/significado. Portanto, se uma pessoa não acredita na eficácia e/ou na necessidade de implementar os comportamentos sugeridos para a contenção do coronavírus (como ficar em casa, utilizar a máscara ao sair, etc), é bastante provável que ela experiencie o tédio. Essa falta de sentido na atividade poderá afetar a motivação e, consequentemente, o indivíduo poderá abandonar total ou parcialmente os procedimentos de proteção.

Por outro lado, assistir séries no Netflix não parecia mais interessante no início do isolamento? Novamente, temos o tédio em ação. Nesse caso, naturalmente, com o decorrer do tempo, começamos a buscar no ambiente atividades mais prazerosas e nossa atenção se volta para essas opções. O que acontece é que nosso cérebro tende a perceber como mais prazerosas justamente as atividades das quais estamos privados – como sair com os amigos, passear pela Orla… Isso pode ter um impacto bastante negativo para o indivíduo, podendo motivá-lo não só a abandonar as estratégias de
contenção do contágio, mas também a desrespeitá-las.

(Claro, essa não é uma regra universal: o tédio se manifesta de diferentes
formas em cada pessoa, e que algumas são mais tolerantes à sua experiência do que outras.)

O autocontrole, que corresponde à capacidade de controlar nosso próprio comportamento, também está sendo bastante demandados neste momento. O exercício do autocontrole nos exige (considerável) esforço, sendo subjetivamente percebido de maneira aversiva. Ou seja, sempre que possível evitamos utilizá-lo, já que sua aplicação nos leva a estados de frustração e/ou fadiga. Sabe-se que a praticar o autocontrole reduz a vontade de empregar novos esforços, então, em decorrência disso, a
disponibilidade para realização dos comportamentos de prevenção será menor depois de algum tempo, em comparação ao início da quarentena.

A interação entre eles ocorre da seguinte forma: se na situação atual temos que tolerar o tédio, a capacidade de resistir à vontade de fazer outra coisa depende da ação do autocontrole. Se, com o passar do tempo, temos nosso autocontrole sendo recorrentemente demandado, é provável que a manutenção dos comportamentos de prevenção seja cada vez mais difícil, sendo mais desafiador quanto mais durarem as medidas de isolamento. Dessa forma, uma pessoa que se entedia rapidamente durante o confinamento também pode ter menos autocontrole para controlar os impulsos comportamentais induzidos pelo tédio. Estas é uma das explicações possíveis para o fato de que ter que ficar atirado no sofá de casa ser percebido como algo mais difícil do que parecia para alguns de nós.

Como podemos lidar com isso, então? Sabendo que o tédio se fará presente em diferentes momentos, aprender a reconhecê-lo e a usá-lo de maneira adaptativa pode ser útil. Por exemplo, fazer uma lista de alternativas de atividades realistas que são percebidas como interessantes e envolventes, a serem usadas quando surgir o tédio podem ajudar a lidar com esta experiência. Buscar atividades com significado, como ajudar algum colega que está tendo dificuldades com o isolamento, voluntariar-se para fazer compras para que pessoas dos grupos de risco não tenham que se expor ao sair de casa, também configuram-se como possibilidades de enfrentamento.

E você, o que está fazendo para tolerar o tédio e fortalecer o autocontrole
nessa quarentena?

Fonte: Martarelli, C., & Wolff, W. (2020). Too bored to bother? Boredom as a potential threat to the efficacy of pandemic containment measures. https://doi.org/10.31234/osf.io/v7y85. Disponível em https://psyarxiv.com/v7y85/

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