A crueza realista dos corpos retratados por Lucian Freud

Lucian Freud é considerado pela crítica de arte um dos maiores retratistas do século XX. Talento e ousadia marcam uma obra excepcional que tem muito a contribuir para a nossa reflexão sobre Corporalidades, mais especificamente para pensar o corpo nas artes visuais. Nos últimos meses, discutimos a obra de fotógrafos que tratam o corpo de maneira singular, e esse post inaugura outro olhar do Blog Corporalidades, que a partir de hoje, passa a observar o corpo nas artes visuais, uma tarefa prazerosa que nos colocará diante das telas de pintores de vertentes, épocas e estilos bem distintos.

A escolha por Lucian Freud para abrir os trabalhos foi pelo fato de alguns críticos afirmarem que o corpo nas artes nunca mais foi o mesmo depois dele (e também porque no dia 20 de julho completou três anos da morte do artista). É a crueza realista revelada em seus nus e retratos que lhe garantiu tamanha atribuição.

Lucian não aderiu aos impactos da “era dos ismos” e por isso, não se filiou a nenhum movimento artístico que tinha como premissa a fuga do figurativismo. O que realmente o interessava era a figura humana, que o pintor insistiu em olhar atentamente por décadas, tempo que se dedicou com rigor, principalmente, aos retratos.

O artista também fazia gravuras, mas é principalmente em suas pinturas que se percebe o estilo bem particular de retratar o mundo, com muita transparência. Lucian rebatia a crítica, que o tachava de “exageradamente realista”, afirmando: “Pinto o que vejo, não o que você quer que eu veja”. E justificava a preferência pelas pessoas: “São as pessoas e suas emoções que tornam a pintura dramática, desde sempre. O mais simples dos gestos humanos nos conta muitas histórias” e sabemos que sim. Nessa tentativa de desvendar o ser humano, usou como modelos nus seus filhos e filhas. Fez várias pinturas da própria mãe. E também retratou celebridades, a modelo Kate Moss e a Rainha Elizabeth II.


Lucian tem uma obra de ruptura, porque conseguiu ver a figura humana com suas nuances, seus exageros, suas imperfeições e marcas do tempo. Dessa maneira, também entrou para a história das artes visuais ao ter a obra de arte vendida pelo valor mais alto já pago pelo trabalho de um artista ainda vivo. Trata-se da tela Benefits Supervisor Sleeping (1995) arrematada em um leilão em Nova Iorque por 33,6 milhões de dólares, em 2008.

Em tempo… Sim, Lucian Freud é parente do pai da psicanálise: ele é neto de Sigmund Freud e parece que do avô herdou a incessante busca pela compreensão do ser humano, um caminho que percorreu observando por toda a vida a sutileza dos corpos e rostos que retratou. Aliás, Corpos e Rostos foi o título da exposição do artista realizada no início deste ano, no Museu de Arte de São Paulo.

REFERÊNCIAS
Imagens disponíveis em: <http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2013/11/10/1739/> Acesso em 19/06/2014 às 23h15.
Imagem Seated Nude, 1991 disponível em: http://pt.wahooart.com/@@/8XYG6N-Lucian-Freud-Seated-Nude Acesso em: 06/07/2014.
Imagem de Head on a Green Sofa, 1960/1961 disponível em: <http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/retrato-excepcional-de-lucian-freud-vai-a-leilao-pela-primeira-vez-1619420#>Acesso em 05/07/2014 às 22h35.
Imagem Queen Elisabeth II, 2001 disponível em: http://www.theguardian.com/artanddesign/gallery/2011/jul/22/lucian-freud-in-pictures#/?picture=377139640&index=15 Acesso em 05/07/2014 às 23h13.
Imagem Benefits Supervisor Sleeping, 1995 disponível em: <http://entretenimento.uol.com.br/album/lucian_freud_album.htm#fotoNav=2> Acesso em: 08/07/2014 às 19h49.
Imagem Self-portrait / Reflection, 2002 disponível em: <http://entretenimento.uol.com.br/album/lucian_freud_album.htm> Acesso em: 08/07/2014 às 19h44.
As outras imagens estão disponíveis em: <http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2013/11/10/1739/> Acesso em 19/06/2014 às 23h15.
TEXTO
Adriana Pierre Coca
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