Trans… (artista) – “Ser ou não ser, eis a questão?”
Desde Descartes, o corpo passou a ser visto por diferentes correntes filosóficas, separado do que o anima. A representação do corpo humano, tal qual o conhecemos, não é o corpo, mas uma invenção dele. Desde a invenção da linguagem, o homem tem necessidade de nomear o mundo a sua volta para dar sentido a sua existência. A classificação do corpo em masculino ou feminino é um código de linguagem para definir o formato anatômico do corpo na hora do nascimento de um individuo. Diferentemente, a identidade sexual é uma construção de sentidos que vão além da constituição física. Termos como transsexual, cisgênero, homossexual, bissexual, assexual, heterossexual são usados para definir aparências e comportamentos identitários. Transsexual é a pessoa que nasceu num determinado corpo e não se identifica com sua condição física, assumindo o comportamento do gênero oposto. Cisgênero é o indivíduo que se identifica com o seu próprio gênero independente do seu gosto sexual, que pode ser heterossexual (gostar do gênero oposto), homossexual (gostar do mesmo gênero), bissexual (sente atração por pessoas de ambos os sexos) ou assexual (é indiferente a prática sexual).
Na história das artes, encontramos registros de diferentes civilizações nas quais os homens atuavam em papéis femininos e masculinos. A partir do século XVIII, as mulheres passaram a atuar em papéis femininos nas artes cênicas. Encenadores do século XX, como Artaud (1896-1948) e Grotowsky (1933-1999) defendiam a ideia mecanicista de que o corpo é o instrumento de expressão da vontade do ator. Para Eugênio Barba (1995), a metáfora mecanicista não se sustentava. Para ele, o corpo é animado por um “ente em vida”, em constante estado de instabilidade e auto-organização segundo uma complexa rede de conexões distribuídas no organismo como um todo. Dizia que, para entender o corpo, há que contempla-lo em ação em vida. Foucault afirmou que: “O novo não está no que é dito, mas no acontecimento da sua volta”. Sob esta perspectiva, apresentamos algumas reportagens sobre manifestações artísticas de caráter transsexual e os sentidos produzidos a partir delas.
No dia 27 de abril Conchita Wurst, personagem assumido pelo cantor austríaco Tom Wirth, ganhou o tradicional Festival Eurovision de 2014. Em traje de gala feminino e com a barba por fazer, a aparência andrógena causou opiniões controversas entre austríacos, russos e o movimento LGBT que apoia as rupturas culturais contra preconceitos sexuais. (http://www.dn.pt/inicio/pessoas/interior.aspx?content_id=3889972&seccao=ntv)
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Conchita Wurst não é a primeira transsexual a se apresentar publicamente com aparência de ambos os sexos.
A Companhia de dança Les Ballets Trackadero de Monte Carlo é formada por travestis que interpretam papéis femininos de balés do repertório clássico e romântico. Os talentosos bailarinos apresentam domínio técnico do balé e desempenham atuações virtuosas que eram realizadas apenas por solistas mulheres até o século XIX. Algumas releituras das obras coreográficas são de caráter cômico. (http://www.trockadero.org/)
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No Brasil na década de 70, surgiu a Companhia de dança Dzi Croquettes, sob direção de Lenni Dalle. O grupo era formado por homens vestidos de mulheres, com características masculinas, como barba e pelos no corpo. Apresentavam um discurso político no corpo em defesa da quebra de preconceitos sexuais e sociais, também efetuavam uma crítica à ditadura militar de forma irreverente, com esquetes que misturavam interpretações em diferentes línguas. Lançaram o gênero de teatro besteirol, que influenciou artistas como Ney Mato Grosso, Cláudia Raia e outros. Sofreram perseguição e pediram exilio na Europa na década de 80.
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Recentemente, uma nova versão do grupo Dzi Croquettes foi montada no Rio de janeiro para a Rede Globo, sob direção de Claudio Tovar e apresentada no programa “Amor & sexo”, no horário nobre da emissora. (http://oglobo.globo.com/cultura/claudio-tovar-retoma-dzi-croquettes-volta-tv-6027796)
REFERÊNCIAS
BARBA, Eugênio; SAVARESSE, Nicola. A Arte Secreta do Ator. Dicionário de Antropologia Teatral. Campinas, HUCITEC/UNICAMP, 1995.
FOUCAULT, M. A ordem do discurso. São Paulo: Edições Loyola, 2002.
NUNES, Sandra Meyer. O corpo do ator em ação. In.: Leituras do Corpo. Organização de GREINER, Christine; AMORIN, Claudia. São Paulo: Annamblume, 2010.
TEXTO
Carlise Duarte.
O diário fotográfico de Jen Davis
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