Como a agressão a uma mulher no futebol pode (e deve) nos instigar sobre a participação feminina nos esportes
Vanessa Drehmer
Em abril deste ano um caso de violência no futebol brasileiro gerou repercussão maior do que outras agressões, infelizmente tão rotineiras no esporte, isso em função da particularidade do caso: em um jogo de futebol masculino entre os times Desportiva Ferroviária e Nova Venécia, que ocorria pelo Campeonato Capixaba, o técnico do Desportiva, Rafael Soriano, agrediu a auxiliar em arbitragem Marcelly Netto com uma cabeçada, por não concordar com uma decisão tomada pelo árbitro, que encerrou o primeiro tempo do jogo antes do time cobrar um escanteio. Após o ato ainda afirmou que a bandeirinha se aproveitaria da situação por ser mulher pois, de acordo com o próprio técnico, sequer teria encostado nela. Na súmula da partida é possível verificar o ocorrido com detalhes, em que a bandeirinha tenta intervir contra uma possível agressão do treinador ao árbitro, e este então fala diversos palavrões a ela, desferindo, por fim, a cabeçada no nariz da profissional. Nos dias que seguiram a agressão diversas personalidades, jornalistas, grupos esportivos, feministas e o público em geral comentaram e compartilharam o vídeo com a lamentável cena.

É bastante comum que os ânimos de jogadores e demais membros das equipes estejam aflorados nestas competições e que, em função disso, ocorram alguns tipos de violências, principalmente xingamentos, em especial com os árbitros. O ambiente do futebol, predominantemente masculino, possui um forte marcador das masculinidades, que é a violência, a agressividade. Seja dentro de campo, nas arquibancadas ou até mesmo nos bares que exibem os jogos em telões e televisores, nesses locais parecem permitidos certos comportamentos exacerbados de demonstração de emoções, principalmente àquelas ligadas a violência, como empurrões, gritos, palavrões, xingamentos e murros em mesas, condutas que não são aceitas fora desses ambientes.
Para J J Bola (2020, p. 159), a “raiva é frequentemente a emoção padrão dos homens, não apenas porque ela vem mais fácil ou de maneira natural, mas em grande parte porque aos homens é sempre dito que eles não são seres emocionais, a ponto da própria raiva não ser vista como uma emoção. O problema é que em geral essa raiva se transforma em violência, que se torna a principal linguagem da expressão masculina”. Assim sendo, a raiva é uma forma de demonstração das emoções de homens, mesmo que tais demonstrações exponham outros tantos tipos de sentimentos, como frustração, tristeza, ansiedade, por exemplo.
Há uma divisão social entre gêneros que estabelece que determinados ambientes são mais apropriados para homens e outros para mulheres. Evidente que esta definição não é linear e permite, dependendo das convenções sociais de cada local, a participação de outros gêneros. O futebol e os locais destinados à sua prática ou apreciação é onde se percebe uma restrição mais notória em âmbito brasileiro; em que o ambiente desportivo ainda conta com um ínfimo número de mulheres com relação ao número de homens esportistas e nos grupos de arbitragem. As competições que envolvem times femininos têm menores salários, patrocínios e atenção muito menor ao se comparar com a cobertura que meios de comunicação tradicionais dão ao segmento masculino. Parece que a ideia é abrir um espaço às mulheres, mas sem dar importância aos eventos com os times femininos, como se seu desempenho não fosse tão bom quanto o de homens, deslegitimando seu trabalho. Quando jogam bem, são comparadas não só com o desempenho em campo, mas também com relação à sua sexualidade, como é o caso da jogadora da seleção brasileira de futebol feminino Marta, que muitas vezes é “masculinizada” por cronistas e público em geral, como forma de normalizar seu talento.
Sabemos que os árbitros são frequentemente hostilizados pelas equipes em função das decisões tomadas em campo, principalmente com relação a faltas e penalidades, e que são comuns agressões físicas e verbais, que são normalizadas em função do que já citamos anteriormente, no que se refere aos comportamentos agressivos neste espaço. Porém, ao ter que acatar a autoridade de uma mulher, muitos homens não toleram e partem para o ataque, pois mais que ocorra uma divergência, há uma disputa generificada ali, está em jogo o poder do homem, em um universo predominantemente masculino, sendo invalidado pelo poder e autoridade de uma mulher. Em uma cultura patriarcal e machista, ocorrem relações de poder em que habitualmente homens exercem dominação sobre corpos femininos.
Assim sendo, acatar a decisão de uma mulher acaba soando contraditório, principalmente para homens inseridos em um modelo patriarcal de que homem deve ter sempre a palavra final. Foucault, em Vigiar e Punir (2014), cita que há uma pena, um castigo, em que o superior ataca o seu adversário lhe causando alguma forma de punição e a busca pela reparação de sua honra, no caso que trazemos, a cabeçada do treinador na auxiliar de arbitragem indica uma forma de demonstrar que a mulher não deve exercer poder em um ambiente “para homens”, como o futebol. Ainda, dentro deste modelo, percebe-se o comportamento combativo, pronto para defender-se dos outros. Para Sócrates Nolasco (1993), “Os padrões tradicionais definidos pelo modelo patriarcal para o comportamento masculino dissimulam as possibilidades desde o encontro nas relações sociais, pois definem que em uma relação, a priori, alguém ataca e alguém defende, alguém ganha e alguém perde.”
O protagonismo de mulheres em entretenimento esportivo habitualmente masculino geralmente não é visto com bons olhos por homens, e o meio futebolístico é apenas um exemplo. No caso do futebol jogado por mulheres, a impressão é que foi dada uma “chance” para que elas pudessem jogar, mas ocupando um espaço insignificante em clubes e na atenção das mídias. Mas nem sempre as mulheres são hostilizadas em locais de diversão predominantemente masculino. Se pensarmos em outros esportes além do futebol, como as lutas e o automobilismo, por exemplo, a figura da mulher aparece como um ‘adorno embelezador’ que equilibra o cenário tão masculinizado e tem como objetivo atrair mais público. No futebol elas estão nas arquibancadas, torcendo pelos times em campo, e que aparecem em closes das emissoras de televisão que cobrem o evento. Nas lutas, as ring girls, ou octagon girls, aparecem seminuas entre um round e outro, enquanto os oponentes bebem água, limpam o sangue e suor e aguardam o próximo assalto. No automobilismo desfilam entre os boxes e camarotes mulheres jovens, esbeltas e com roupas coladas, que são contratadas pelas equipes para ficarem próximas aos pilotos. Poderíamos citar vários outros esportes onde a figura da mulher é estereotipada e utilizada como objeto a fim de entreter olhares de homens.

Já a participação de mulheres dentro desses esportes como atletas, competidoras ou parte da equipe técnica é diferenciada das mulheres que ‘embelezam’ o ambiente. No automobilismo elas podem correr junto com homens, nas lutas e no futebol fazem parte de competições por gênero. No UFC elas ganham certa notoriedade e atraem bastante público deste gênero de lutas. Já no futebol, como já referimos, vemos uma grande diferença entre os gêneros. É também no futebol que surgiu, há poucos anos, a iniciativa de arbitragem feminina e mista em jogos do futebol masculino, onde ocorrem problemas como este envolvendo a árbitra Marcielly. De maneira lenta, as mulheres vão ocupando espaços e mostrando que possuem competência para exercer as atividades que assim desejam. Resta esperar que homens como o técnico do time capixaba, que são conhecidos pelo seu público, darem exemplo de respeito dentro e fora dos espaços esportivos.
Referências
ALBERTI, Carolina. Técnico dá cabeçada em auxiliar mulher em jogo pelo Campeonato Capixaba. UOL Esportes, 2022. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/04/10/tecnico-desportiva-agride-bandeirinha.htm. Acesso em 12 mai 2022.
ASSISTENTE também foi agredida verbalmente por Rafael Soriano, relata súmula. A Gazeta, Redação. 2022. Disponível em: https://www.agazeta.com.br/esportes/futebol-capixaba/assistente-tambem-foi-agredida-verbalmente-por-rafael-soriano-relata-sumula-0422. Acesso em 27 mai 2022.
BOLA, JJ. Seja homem: a masculinidade desmascarada. Porto Alegre: Dublinense, 2020.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Petrópolis : Vozes, 2014.
NOLASCO, Sócrates. O Mito da Masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
Como citar este artigo
DREHMER, Vanessa. Como a agressão a uma mulher no futebol pode (e deve) nos instigar sobre a participação feminina nos esportes . 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/como-a-agressao-a-uma-mulher-no-futebol-pode-e-deve-nos-instigar-sobre-a-participacao-feminina-nos-esportes/. Acesso em: 18 Jun. 2022.
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