Até que a dignidade seja costume: sobre “sentir” com os objetos
Danielle Miranda
“¡Marichiweu! ¡Marichiweu! ¡Marichiweu!”
Encerramento do discurso da líder mapuche e linguista Elisa Loncón após ter sido eleita Presidente da Convenção Constitucional do Chile, em julho de 2021
(Dez vezes venceremos!, Dez vezes venceremos!, Dez vezes venceremos!)
Em abril deste ano, escrevi aqui no blog[1] do Corporalidades sobre o retorno do corpo reunido, coletivizado nas ruas, através da experiência da marcha do Dia Internacional das Mulheres em 2022, após todo o afastamento imposto pela pandemia covid-19. Mais uma vez, é a experiencia da luta enquanto experiência do corpo que impulsiona esta escrita. Dessa vez, no entanto, partilho algo que me afetou de um modo mais entristecido. Explico: tendo como foco na minha pesquisa de doutorado o corpo em movimentos de protestos anti-sistêmicos nas ruas, li e acompanhei com interesse a revolta chilena que eclodiu em 2019 e cujos protestos culminaram na eleição de uma Convenção Constituinte responsável pela elaboração de uma nova Constituição em substituição à vigente, elaborada no governo de Augusto Pinochet. Desenvolvido em um grupo com maioria antineoliberal, paridade de gênero, reserva de assentos para os povos indígenas e presidência ocupada por Elisa Loncón, uma mulher mapuche, o texto final foi levado a plebiscito neste 4 de setembro de 2022. Como não há fazer investigativo sem a implicação subjetiva do pesquisador, nesta semana, ao saber que o Rechazo ganhou e o texto não foi aprovado, chorei.
Devem-nos uma vida
Talvez a alguns pareça um excessivo emaranhamento com o objeto de pesquisa. A proximidade em demasia, de fato, deve ser constantemente vigiada, para que não interfira na nossa capacidade de compreensão dos acontecimentos. Porém, assim como Grada Kilomba, não considero a minha posição acadêmica como a de um “sujeito distante que olha para os objetos de análise”, mas trabalho em busca de uma “subjetividade consciente” (KILOMBA, 2019). “Olho” os objetos e sou atravessada por eles. Como doutoranda que também é mulher brasileira, latino-americana, imigrante fora do seu continente, e diante de um aprofundamento visível da degradação das condições de vida no meu país de origem e os modos como as lutas se interseccionam internacionalmente, interrogo: como não se afetar?
Os slogans que marcam principalmente o período de outubro de 2019 a março de 2020 (quando surge a pandemia) nas ruas chilenas ocupadas pelo baile de los que sobran (ou, dança dos excluídos) evidenciam a transversalidade e intensidade das reivindicações que desembocam na decisão de substituir a Constituição pinochetista. “Nos deben una vida” [Devem-nos uma vida]; “Hasta que la dignidade sea costumbre” [Até que a dignidade seja costume]; “Hasta que valga la pena vivir” [Até que valha a pena viver]; “Que nos devuelvan la vida que nos robaron [Devolvam-nos a vida que nos roubaram]; “No es sequía, es saqueo” [Não é seca, é saque][2]. Os sentidos tão vitalistas presentes nessas frases demonstram uma revolta contra formas de precariedade que excedem as relações de trabalho: referem-se a tudo que é da ordem do vivente. São palavras de ordem coerentes com o seu tempo e com um país brutalmente endividado, em que a profundidade das práticas neoliberais levou a modos de vida que giram em torno da dívida (Chile em chamas, 2021). É da vida, ao nível mais molecular, que se trata.
Não são ideias inéditas no vasto campo dos protestos. Houve aqui, com as suas especificidades e através da resistência dos corpos[3], de significantes como o da bandeira mapuche e nas exigências tão amplas dos sujeitos, a configuração de um modo de coletivizar a experiência da sensação de brutalidade com que a falta de dignidade se instalou na existência chilena. Como não sentir?
Molecularizar os objetos de análise
Fui surpreendida pelo meu próprio corpo ao não conseguir conter as lágrimas imediatamente ao ler o resultado do plebiscito[4]. Uma sensação cinzenta, de reconhecimento da grandeza da mobilização para se chegar até aqui e, mesmo que sem uma surpresa absoluta, a frustração com a derrota do Apruebo. Mas junto a uma espécie de luto momentâneo sentido sobre os fluxos de um dos meus “objetos” estudados, vieram alertas, as perguntas, e pretendo dar-lhes espaço enquanto gesto questionador tão essencial a qualquer pesquisa.
Se é sobre os níveis moleculares da vida que a explosão chilena recai, com Guattari (1977, 1990) lembramos que uma revolução molecular devém da prática, de vivências outras, experimentação radical, abertura a outros possíveis. E aí, o que emerge é sempre imprevisível. O imponderável que se abre na experimentação é parte da sua força e de sua radicalidade. A ideia de revolução molecular em Guatarri nos coloca ainda perante a noção de conjuntos de transversais. O que há em comum, o que atravessa os sujeitos de uma revolta tão heterogênea? Como compreender essa heterogeneidade que, no Chile, se compõe com seus estudantes secundaristas, o movimento feminista como grande força mobilizadora, as perspectivas indígenas como chave de leitura, o ativismo ecológico, aposentados desamparados pelos efeitos da privatização dos fundos de pensão, trabalhadores, desempregados, os jovens e a subjetividade antiautoritária, antipaco, cada vez mais presente – todos endividados, empobrecidos?
Com esta muito breve descrição do cenário anterior ao plebiscito de 04 de setembro, a opção do Apruebo podia parecer incontornável. E aí, a vida acontece e nos mostra que, ao tentar apreender a pluralidade em uma finalidade única, podemos produzir perspectivas totalizantes dessa mesma multiplicidade. Em Guattari, é essencial reconhecer no uno, o múltiplo; buscar obsessivamente a heterogeneidade, mas também não paralisar o múltiplo. Para o autor, para progredir, uma análise deve ir em direção à molecularização do seu objeto (GUATTARI, 2020), rechaçar simplificações. A molecularização é também sobre imaginar, forjar outras realidades. Subordinar o molar ao molecular, ele diria com Deleuze no Anti-Édipo. Como, dessa heterogeneidade, dessa mescla de demandas e forças independentes, vai se constituir a resposta a tão profundas reivindicações na revolta de 2019? Certamente, esta não faz parte das perguntas de pesquisa da minha futura tese. Mas, com o acontecido dessa semana, fui reler Guattari para lembrar, na vida política e na pesquisa, de atenta e repetidamente evitar as cristalizações, e, ali onde se constitui um coletivo, não restituir a unidade.
E como ainda haverá tese e ainda haverá luta, deixo mais lembretes (e um pouco de beleza) para um momento gris:
Não aceito quando dizem que o fim é cinza
Eu vejo o cinza como um início em cor
Quando tudo finda, dizem, virou cinza
Equívoco, pois cinza cura, poesia eu sou
Um traje cinza lembra a fidalguia
Quarta-feira cinza é dia de louvor
Vamos celebrar
O amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar
O cinza com amor
Gota de orvalho prateada é cinza
Massa encefálica é cinza, amor
A purificação também se faz com cinza
Fênix renasceu das cinzas com honor
Só quero dengo quando o dia é cinza
Ler poesia e cantar o sol
Dedilho a viola e sonho colorido
Me vejo no amante que o cinza desnudou
…
Amor cinza, Mateus Aleluia
Notas de Rodapé
[1] Aqui pode ser direcionado para o Link do texto no blog corporalidades, por favor: https://www.ufrgs.br/corporalidades/reativar-a-experiencia-do-corpo-na-rua-na-investigacao-e-na-pratica/
[2] O caso da privatização da água e a situação de três quartos da população do país que vivem em zonas declaradas de emergência hídrica – ocasionada também pelo uso intensivo de água das mineradoras, hidrelétricas e dos cultivos de abacate voltado à exportação, inclusive em áreas menos férteis – é um exemplo da espoliação praticada pelo extrativismo transandino e um dos eixos centrais da revolta (Chile em chamas, 2021). Em janeiro de 2020, doze senadores da direita vetaram um projeto que buscava declarar a água como bem de uso público.
[3] Entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020, em números aproximados e divulgados, o governo do presidente Sebastián Piñera prendeu 22 mil pessoas, feriu quatro mil, recebeu a denúncia por tortura de cerca de mil cidadãos, produziu lesões oculares em 460 chilenos – destas, 66% causadas por disparos -, assassinou 27 vidas, tudo dentro de um regime democrático. (Chile em chamas, 2021).
[4] A proposta para Nova Constituição foi rejeitada com 62% dos votos contra 32% de aprovação.
Referências
KILOMBA, Grada. Memórias de plantação: episódios de racismo quotidiano. Lisboa, Orfeu Negro, 2019.
CHILE EM CHAMAS: a revolta antineoliberal. São Paulo, Tinta Limón, 2021.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas: Papirus, 1990.
GUATTARI, Felix. Las luchas del deseo. Santiago de Chile, Pólvora, 2020.
GUATARRI, Félix. Revolução molecular: pulsações políticas do desejo. São Paulo: Editora Brasiliense, 1977.
Como citar este artigo
MIRANDA, Danielle. Até que a dignidade seja costume: sobre “sentir” com os objetos. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/ate-que-a-dignidade-seja-costume-sobre-sentir-com-os-objetos/. Acesso em: 20. set. 2022.
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