Forias de gênero como afetos revolucionários
Por Taís Severo:
O diagnóstico da disforia de gênero é um olhar microcósmico sobre taxonomias e critérios usados para construir e restringir o gênero (Stone, 2014). Seus protocolos médicos, em desuso, mas com presença espectral, procuram atentar para quaisquer incongruências que compliquem a fábula “verdadeiramente A em prisão no corpo de um B”. Assim, é preciso apresentar uma narrativa linear, disposta a dobrar-se à norma, confessando uma anatomia errada e insuportável, e testemunhando sofrimentos que assolam desde a infância e levam a ideações suicidas. Sem espaços para sutilezas ou nuances: há apenas um roteiro rígido envolvendo uma série de atores. Não é permitido que se coloque em risco “a causalidade entre sexo/gênero/desejo” e desnude “os limites de um sistema binário assentado no corpo sexuado (o corpo-homem e o corpo-mulher)” (Bento, 2012, p. 21).
Descrita, de forma geral, como um desconforto ou sofrimento causados pela incongruência entre o gênero atribuído ao nascimento e o gênero experimentado pelo indivíduo, a disforia preconiza o acesso aos tratamentos de saúde que integram a transição clínica. O modelo estadunidense de protocolos psiquiátricos de transição de gênero foi rapidamente exportado para países de todo o mundo, e integra o Catálogo Internacional de Doenças, publicado pela Organização Mundial de Saúde e adotado, inclusive, pelo Sistema Único de Saúde no Brasil. Nesses sistemas classificatórios rígidos, a disforia se torna um fator de higienização do gênero, e a transição assume o propósito de apagar as diferenças.
Mas a observação de disforias como operadores amplos, e acionados nas margens, pode ser um caminho prolífico. Gayle Rubin (2011) defende os sentimentos disfóricos como potência de alianças entre feministas e pessoas trans, incluindo homens trans e feministas lésbicas. Há distinções claras entre disforias trans, butch e lésbicas, mas também conexões: para que se torne um espaço de coalizões, a disforia de gênero deve se libertar do uso clínico, e ter ampliado seu sentido de indicar sentimentos generificados em disputa com identidades designadas e/ou corpos físicos. Como exemplo, a autora indica que mulheres lésbicas – sejam femininas ou masculinas, cis ou trans – sentem disforia de gênero em graus diversos e, quanto maior a masculinidade butch, maior a disforia. Disforia extrema pode levar à transição, mas o sintoma já não é mais restrito a estas pessoas. Materializado, mas fora da patologia, o sentimento deixa de ser diagnóstico, ou um carimbo que marca corpos como trans, e se torna possibilidade de mudança. Ele não mais separa, mas une, e sua importância é ressaltada ao demonstrar uma posição subjetiva.
Paul Preciado (2022), em Dysphoria Mundi, coloca o fenômeno no centro de um amplo pacto antinormativo. Para o autor, deslocar e ressignificar a disforia permite compreender o mundo contemporâneo, as brechas epistemológicas e políticas, a tensão entre as forças emancipadoras, e as resistências conservadoras do presente: “E se a ‘disforia de gênero’ não fosse um transtorno mental, mas uma inadequação política e estética de nossas formas de subjetivação em relação ao regime normativo da diferença sexual e de gênero?” (Preciado, 2022, p. 14). A dysphoria mundi, enquanto conceito, é a condição epistêmica generalizada dos corpos subalternizados, e a resistência de todo um planeta vivo a ser reificado como mercadoria neocapitalista. Em tal configuração, ela pode deixar de designar patologias psiquiátricas a serem curadas através das indústrias médicas e farmacêuticas, se liberta de posições naturalistas que preveem o retorno ou a reunião com uma forma idealizada, e não pode ser reduzida somente ao seu aspecto de preconceito social e cultural. Retirada das ciências psiquiátricas, e movida para a arte, a filosofia e o ativismo, a disforia demonstra como o gênero tem potencial para ser uma plataforma revolucionária. Para o autor, o gênero deve transicionar da mesma forma que o planeta: novos regimes de saber devem ser adotados, rejeitando o capitalismo predatório e a exploração do lucro através de artefatos humanos, corporais e ecológicos.
É um projeto vigoroso. A disforia social, que é causada pela cultura, já não nega a disforia corporal: ela passa a ser, em seu todo, uma modalidade de manifestação do real, e uma condição somatopolítica geral. É a “dor produzida pela gestão necropolítica da subjetividade”, mas também “a potência dos corpos vivos do planeta (incluído o próprio planeta como corpo vivo) para extrair-se da genealogia capitalista, patriarcal e colonial” (Preciado, 2022, p. 19). Mudança e sobrevivência podem ser articuladas a partir da admissão, do conhecimento e do estudo da disforia; para o autor, os saberes que brotam de trauma, violência, vergonha, dor, inadequação e anormalidade formam um arquivo coletivo de insatisfações, que pode gerar escrituras e histórias mais justas e estéticas.
No entanto, destacamos que a euforia de gênero também deve ser admitida como material revolucionário. Retiremos ambas de seu arranjo semântico dualista e oposicional para observar suas potências correlatas: disforia e euforia convivem e ambas podem ser ressignificadas na comunicação interna e externa do gênero. Bettcher (2025) propõe que deixemos ambos termos de lado e utilizemos, de forma geral, “forias” negativas e positivas. A primeira mói a subjetividade com almofariz e pilão, macerando através do atrito, e significando através da repetição exaustiva. A segunda é uma lufada fresca, que revitaliza em brilho cognitivo inesquivável. Acenar ao foco no prazer, na alegria e na euforia abre possibilidades de alianças, e pode ser artífice do desenvolvimento de uma visão profundamente política. É preciso, então, amplificar as histórias compartilhadas que unem não só pela dor, mas também pela realização subjetiva do desejo, destacando a empatia como força agregadora. A euforia, recompensa neurológica e subjetiva que também pode ser experienciada através da música, da dança, de exercícios físicos, do sexo, de atividades sociais e de substâncias psicotrópicas, carrega a potência de auxiliar na formação de novos horizontes sociossemióticos de gênero.
Ressaltamos que a euforia e o prazer relacionados ao gênero não são exclusivos à disforia, mas aspectos constitutivos, multidimensionais e caleidoscópicos que merecem atenção. Como apontam Johnson e Lemaster (2020), o prazer é um vácuo epistemológico nas pesquisas sobre pessoas trans. Tais investigações focam na disforia, na dor, na vergonha, no medo – mas ignoram, grosso modo, as possibilidades generificadas dos corpos que ousam ser guiados pelo desejo. Olhar além da polarização entre masculino e feminino, e ater-se ao que tem potencial prazeroso para guiar experimentos e investidas, abre novos potenciais para a liberdade – uma vez que levam ao questionamento das normas de gênero, incutidas desde sempre em todas as pessoas. Embora o desconforto seja um mobilizador, a tentação também pode sê-lo. É um aceno a sentidos vilificados: o paradigma transgênero, para desestigmatizar a caracterização do fenômeno trans pela atração sexual de ser o “outro” gênero (transexual enquanto prolongamento de homossexual ou autoginéfilo, ambas sendo parafilias), afastou a sexualidade dessa discussão. Mas o erótico está ao lado do desejo e do prazer, tanto como fim quanto como consequência. A busca por legitimidade acaba higienizando as práticas sexuais e consolida a heterossexualidade colonial e compulsória. Ousar a erotização e o prazer será entendido ora como privilégio, ora como desvio, mas é um caminho que deve ser explorado. Assim, é bastante claro que o ataque normativo àqueles que testemunham desejo e prazer – notadamente as individualidades transformistas, crossdressers, drag queens/kings e travestis que são reduzidas a metáforas do ridículo e da sujeira (Barbosa, 2013) – é um preconceito de base linguística que busca condenar e ofuscar a potência dessas experiências.
Há um quê de reacionarismo nas narrativas das dores trans: qualquer tentativa de complexificá-las torna-se, rapidamente, razão para indignação – o que compreendemos como um trauma social, um gato escaldado que coloca as orelhas para trás tão logo alguém questione a temperatura da água. É sintomático que a pesquisa sobre euforias de gênero seja minúscula, como demonstra o levantamento de Jones (2023). É preciso abrir caminhos mais múltiplos, para que as experiências discriminatórias – essas sim, provocadas pela fervura do caldo sociocultural – deixem de ser definidoras, ainda que se mantenham componentes, das experiências trans. Como aponta Butler (1995), reconhecer os aspectos melancólicos do gênero é útil quando ressalta que não há razão para continuarmos apoiados em sistemas onde uma identidade compulsória se forma na oposição ao desejo, ou para que o desejo seja alimentado pelo repúdio.
Para tanto, euforias e disforias de gênero devem ser vistas em termos de máquinas semióticas, que podem dar conta das consistências enunciativas específicas das coletividades e seus indivíduos; deixar as dimensões maquínicas de lado é perder uma parte fundamental da constituição do real (GPESC, 2020). Os processos materiais e semióticos, inclusive aqueles assignificantes – que vão além, mas estão conectados a seus aspectos semânticos e estruturais – demonstram como as significâncias agem diretamente sobre a realidade concreta, em formas produtivas e pragmáticas da linguagem. Propomos que as disforias, sozinhas, são insuficientes para produzir uma epistemologia unificadora do gênero. Somá-las às euforias, e inscrevê-las como componentes de um gênero comunicacional, permite articulações semióticas críticas e que acarretam potencialidades.
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Crédito: Norbu Gyachung/Unsplash.
Referências
BARBOSA, Bruno. Doidas e putas: usos das categorias travesti e transexual. Sexualidad, Salud y Sociedad, n. 14, p. 352-379, 2013.
BENTO, Berenice. O que é transexualidade. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012.
BETTCHER, Talia. Beyond Personhood: An Essay in Trans Philosophy. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2025.
BUTLER, Judith. Melancholy Gender – Refused Identification. Psychoanalytic Dialogues, v. 5, n. 2, p. 165-180, 1995.
GPESC. Semiótica crítica e as materialidades da comunicação. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2020.
JOHNSON, Amber; LEMASTER, Benny. Gender Futurity: A Plea for Pleasure. In: __ (eds.). Gender Futurity, Intersectional Autoethnography: Embodied Theorizing from the Margins. New York: Routledge, 2020.
JONES, Tiffany. Euphorias in Gender, Sex and Sexuality Variations: Positive Experiences. New York: Palgrave Macmillan, 2023.
PRECIADO, Paul. Dysphoria Mundi. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
RUBIN, Gayle. Deviations. Durham: Duke University Press, 2011.
STONE, Sandy. The Empire Strikes Back: A Posttranssexual Manifesto. 2014. Disponível em: http://sandystone.com/empire-strikes-back.pdf . Acesso em: 20 de mai. de 2025.
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