A hora convém: sobre futuros habitáveis
Arthur Walber Viana
Há cerca de dois anos, talvez um pouco menos, participo dos encontros do grupo de pesquisa Semiodata, da Universidade de São Paulo – USP. Nele, li pela primeira vez sobre o Princípio da Energia Livre (PEL) e sua apropriação pelo campo da Semiótica (no caso específico do grupo, a semiótica peirceana).
Leituras, debates e as anotações decorrentes multiplicaram arquivos digitais e cadernos riscados. Algumas notas, se as releio hoje, sequer sei a que se referem: ideia que passou e, efêmera, logo se desfez no ar (ainda que tenha me obrigado a escrevê-la). Outras, porém, permaneceram, relacionando-se entre elas: os efeitos ainda se espalham, prestes a se tornarem algo. Os fragmentos que trago abaixo, portanto, são fruto dessas anotações feitas no calor do momento, seja da leitura ou do debate. Reescritas, agora, são uma nova tentativa de animá-las, costurá-las e produzir algum sentido.
(Temos uma ideia bastante ilusória a respeito da nossa racionalidade: reta e direta, livre de qualquer obstrução. Mas o caminho é um tanto cheio de curvas e derrapagens. Também a isso esses fragmentos servem: expor o quão frágil pode ser um raciocínio antes de concluído, ainda em seu processo constitutivo. No futuro, eles ressurgirão muito bem amarrados entre si, escritos em formato de artigo ou de tese, como que a querer dar a impressão de que assim estiveram, absolutamente coesos, desde o início. Saberemos que não, e aqui os denuncio em seu estado primeiro de dúvida e de confusão.)
O Princípio da Energia Livre (PEL) foi inicialmente proposto pelo neurocientista Karl Friston como uma teoria do funcionamento cerebral. Por ser um “princípio”, também se aplicaria a qualquer ação tida por “inteligente”, que agiria sempre por inferência ativa.
Não vou explicar o PEL em detalhes aqui. Vou apenas destacar um recorte, parte minúscula, que me chamou atenção ao longo das leituras.
Leio sobre o PEL especialmente a partir de Ahti-Veikko Pietarinen e Majid Beni; e, claro, do debate no Semiodata, que é coordenado pelo professor Anderson Vinicius Romanini. São estes espaços e vozes que moldam minha visão sobre o assunto, ao tentarem produzir uma aliança entre o PEL, a inferência ativa e o pragmatismo peirceano.
De minha parte, busco acrescentar à essa mistura o pensamento lotmaniano da Semiótica da Cultura, em especial a partir de discussões sobre entropia e dispersão/trânsito textual entre sistemas de signos (relações alossemióticas). Nas palavras do Friston (2010), o PEL teria por motivação exatamente a “resistência a uma tendência à desordem” (à entropia, portanto).
A grande questão posta, parece-me, é essa: como um sistema se mantém “um” mesmo já sendo “outro” a partir de incessantes processos tradutórios nas relações dentro-fora? Como se é o mesmo ao seguir sempre se transformando? Questões centrais que tanto a Semiótica da Cultura quanto o Princípio da Energia Livre ajudam a colocar (e quiçá responder).
Da leitura de Active Inference and Abduction, de Pietarinen e Beni (2021), chamou-me a atenção a temporalidade da existência expressa pelo princípio em questão. Dizendo de outro jeito, o que me chamou atenção foi o trabalho que dá existir e seguir existindo: que trabalho precisa ser feito por um organismo para que ele se mantenha vivo no instante seguinte? Em nosso caso, perguntaríamos isso sobre os sistemas de signos (essa é a apropriação e tradução que fazemos).
Sublinho a assunção de que algum trabalho precisa ser feito: o que aproxima o PEL de ontologias do movimento, do devir. É preciso mudar para permanecer; as ações do presente moldadas por uma intenção de futuro.
Mesmo o organismo unicelular faz uma espécie de “previsão” do que provavelmente será o futuro: processos de inferência a partir dos estímulos externos e de experiências prévias que possibilitam que se atualize (o organismo ou o sistema) de maneira a manter a vida, ali adiante, a “melhor” possível.
Isso mostra já – o que é tão interessante quanto questionável – um desejo e um esforço das coisas por manter suas existências: instinto da autopreservação.
(Talvez nem todos operem assim: podemos analisar, por exemplo, agrupamentos culturais que agem a favor da destruição coletiva – inclusive das suas, pois agem contra a própria espécie e outras das quais dependem. Penso no agronegócio bolsonarista, esse do tipo mais violento, fundado na grilagem de terras, nas queimadas, no desmatamento e em assassinatos no campo – que cresceram 75% só em 2021, na comparação com o ano anterior, segundo a CPT [Comissão Pastoral da Terra]. Porém, é muito provável que estes grupos pensem estar a agir por autopreservação; e lêem as informações do mundo à sua própria maneira enviesada [a partir de suas capacidades modelizantes] e por isso o escrevem também da mesma maneira enviesada. Mas tergiverso.)
O que me interessa discutir por ora é que Pietarinen e Beni falam, em certo ponto de seu texto, sobre processos de sampleamento a respeito de um “futuro em aberto”. Eles dizem: “Here scientific guesses refer to peculiar kinds of sampling processes concerning open-ended future states of affairs” (p.15, 2021).
(Sobre os “palpites científicos”, referem-se ao processo de abdução: construir e testar a melhor hipótese possível a fim de “redução de incerteza sobre o futuro” e de economizar recursos nesse jogo de adivinhação existencial: o que será e como poderei ser nisso que for?)
Sample pode ser uma amostra, o que significaria que os autores estão falando de processos de amostragem, de tentativa e erro, nos quais aconteceria a adaptação ao futuro conforme o que funcionar melhor em cada ocasião.
Mas também existe um outro significado de sample: pensando em música, “samplear” pode ser montar novos arranjos a partir de arranjos pré-existentes. Ou seja: é rearranjar o que já existe.
Essa interpretação faz surgir um processo criativo a respeito do futuro, de recombinação das coisas presentes. Bricolagem, talvez: usar aquilo à disposição, fazer usos inesperados das coisas, diferentes daqueles para os quais foram inicialmente pensadas.
Então esse futuro “em aberto” que o o PEL fala, este que se tenta prever nos processos de inferência e abdução, pode ser entendido como um futuro “a ser feito”: que futuros vão ser atualizáveis a partir dos arranjos feitos agora; que futuros são possíveis com o que está já posto; e o que precisa ser rearranjado – que trabalho precisa ser feito – para que se desenhe um futuro mais interessante ali adiante, levando em conta a existência de dado organismo (ou sistema de signos).
É sobre o trabalho de produzir futuros habitáveis, então (sobre os quais convém falar poucos dias após o histórico 30 de outubro de 2022, momento no qual – e sob efeito do qual – escrevo este texto).
Suspeito ainda que, no próprio processo de adivinhação/planejamento/inferência sobre o que se poderá ser, fazem-se já rearranjos que vão definindo/construindo as próprias condições desse futuro e as condições para se manter vivo nele.
É como se, ao planejarmos o futuro, acabássemos por moldar o próprio futuro que se quer prever: profecia que se auto-realiza.
O PEL enxerga – desde a sobrevivência de um organismo unicelular e suas temporalidades, mas também no funcionamento cerebral mais complexo – uma espécie de pragmatismo da utopia: agir em nome daquilo que se deseja que venha a ser; e saber o que precisa ser feito para tanto: que energia precisa ser investida e de que jeito se produzirá o futuro mais habitável possível.
Ora, o futuro não está ali adiante apenas, esperando ser adivinhado por nós ou que enfim o alcancemos. Não: ele está sendo produzido e é alterado por nossas ações em nome dele: pela ação dos signos, seus trânsitos e choques.
REFERÊNCIAS
FRISTON, Karl. The free-energy principle: a unified brain theory? Nature Reviews, Volume 11, fevereiro de 2010. Disponível em: https://www.uab.edu/medicine/cinl/images/KFriston_FreeEnergy_BrainTheory.pdf
PIETARINEN, Ahti-Veikko; BENI, Majid. Active Inference and Abduction.
Biosemiotics, maio de 2021.
Como citar este artigo
VIANA, Arthur Walber. A hora convém: sobre futuros habitáveis. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/a-hora-convem-sobre-futuros-habitaveis . Acesso em: 7. Nov. 2022.
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