Imagem de uma raiz de árvore como alegoria de um rizoma
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Cartografia e Performance: “Um mapa é uma questão de performance”

Douglas Ostruca

Ao falar sobre a cartografia, Gilles Deleuze e Félix Guattari (2011a) a posicionam como um dos seis princípios do rizoma, sugerindo que ao invés de um decalque, ou seja, uma reprodução de um modelo já pronto, o rizoma funciona como um mapa aberto que é composto por n dimensões. Nisso, ao invés de reduzir os fenômenos a modelos e métodos já prontos, a cartografia envolve o traçar de um mapa, um mapa movediço, o qual se propõe a acompanhar os fenômenos em seu processo de transformação. Se tomamos a liberdade de chamar a cartografia de método, é o próprio sentido de método que é deslocado nessa apropriação. Trata-se de um método processual que se faz no caminhar da pesquisa, um método aberto do qual só temos pistas (ROSÁRIO, 2013, 2016).

Em 2019, a professora Nísia Martins do Rosário ministrou o Seminário Cartografias na Comunicação, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS. Ao falar sobre o princípio da Cartografia, ela destacou uma passagem: “Um mapa é uma questão de performance, enquanto o decalque remete sempre a presumida ‘competência’”[1] (2011a, p.30). Esse é o único uso do termo performance no volume I de Mil Platôs. A pista que essa breve citação nos deixa é que enquanto o mapa se aproxima mais da performance, o decalque se relaciona à competência. Diante disso, nos perguntamos qual é o contexto de uso do termo performance nesse caso?  

Quando Deleuze e Guattari demarcam a noção de performance na relação diferencial com o conceito de competência, compreendemos que estão partindo das discussões feitas na linguística. De acordo com Marvin Carlson (2010) e Rodrigo Borba (2014), no âmbito da linguística a distinção entre performance e competência decorre da diferença entre la langue (língua) e la parole (fala). Essa distinção é posta inicialmente por Ferdinand de Saussure no Curso de Linguística Geral, publicado pela primeira vez como livro em 1916. Em síntese, la langue aborda o sistema abstrato de signos, enquanto la parole trata dos usos desses signos na fala. Para Saussure, o foco da linguística deveria ser sobre o sistema abstrato, já que pra ele, os usos são individuais e têm interferência de fatores não linguísticos.

Posteriormente, a distinção la langue (língua) e la parole (fala) feita por Saussure será retomada por Noam Chomsky em 1965, onde o linguista denomina o sistema gramatical de competência e os usos desse sistema de performance. Chomsky também considera que o foco da linguística deve ser a competência, já que para ele as performances linguísticas são marcadas por desvios da norma, o que desestabiliza o rigor das regras gramaticais (BORBA, 2014).

Entre os estudiosos que passam a considerar a performance como objeto de estudo, Carlson (2009) menciona o russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) e o americano Dell Hymes (1927-2009). Junto desses autores que colocam em primeiro plano as performances linguísticas, podemos incluir Deleuze e Guattari, os quais além de explicitamente proporem a cartografia como um dos princípios do Rizoma (e situarem o mapa como uma questão de performance), ainda articulam a Rizomática com a Pragmática (2011a).


No platô Postulados da linguística, incluso no volume II de Mil Platôs (DELEUZE; GUATTARI, 2011b) há maior concentração de recorrências do termo performance, o qual aparece articulado aos conceitos de pragmática e de atos de fala performativos.  Aqui, Deleuze e Guattari retomam a distinção entre competência e performance de modo crítico, sugerindo que o problema de dar ênfase para a competência é que nesses estudos são excluídas as variações dos sistemas gramaticais em favor da manutenção de constantes e universais. Por outro caminho, Deleuze e Guattari sugerem que o mais abstrato não são as constantes de um sistema, mas as variáveis e as variações, das quais são extraídas as próprias constantes fixadas como universais.

A universalização de determinados sistemas e a defesa de sua independência em relação aos usos é para Deleuze e Guattari uma questão política, daí afirmarem que “a pragmática é uma política da língua” (2011b, p.23). Nesse sentido, eles defendem que as variáveis de expressão estão envolvidas tanto no processo de organização dos corpos, quanto na produção de transformações nessas organizações.

O que Deleuze e Guattari chamam variáveis de expressão está em relação com as palavras de ordem, as quais trazem como pressupostos implícitos os atos de fala performativos e as transformações incorpóreas. Ao falar das palavras de ordem, eles sugerem que a linguagem comunica comandos, ordens, e não informações. Com isso, os filósofos destacam o funcionamento performativo da linguagem, tendo como base as proposições de John Searle Austin.

Para Austin, os atos de fala performativos (enunciados ilocutórios) são aqueles que efetuam aquilo que dizem, ou seja, ao invés de descrever um estado de coisas já dado, eles interferem na organização e nas relações estabelecidas entre essas coisas. Tendo em vista que esses atos performativos atuam sobre as coisas, fica entendido que neles estão implicados elementos que não são discursivos, os quais extrapolam o domínio da competência. Entre outras consequências, Deleuze e Guattari afirmam que essas compreensões desestabilizam a própria distinção entre la langue (língua) e la parole (fala), ou, competência e performance. Para os filósofos, a fala não pode mais ser definida pela simples utilização individual e extrínseca de uma significação primeira, ou pela aplicação variável de uma sintaxe prévia: ao contrário, são o sentido e a sintaxe da língua que não se deixam definir independentemente dos atos de fala que ela pressupõe (2011b, p.15).

Portanto, a própria língua pressupõe implicitamente atos de fala, os quais precedem a instância individual. Com isso, desloca-se também a noção de que a fala e a performance se reduzem a usos individuais da língua. As expressões, também denominadas de agenciamentos coletivos de enunciação[2], precedem os enunciados individuais e uma das tarefas seria partir das enunciações para compreender os agenciamentos coletivos de enunciação e as palavras de ordem que estão aí implícitas.

            Conforme já dito, ao tratar das expressões enquanto palavras de ordem, Deleuze e Guattari também mencionam as transformações incorporais, perspectiva que tem base nos estudos dos estoicos sobre os atributos incorpóreos. Nesse caso, o que está em foco é que embora haja diferença de natureza entre expressão e conteúdo, ou seja, entre as enunciações e os corpos, os ditos (não-corpóreos) são atribuídos aos corpos. Em outros termos, Deleuze e Guattari sublinham que os ditos intervêm nos corpos, recortando-os de diferentes modos, antecipando suas organizações, acelerando ou retardando suas relações, ou seja, operacionalizando transformações nos estados de coisas.


Como vimos, nos estudos de Deleuze e Guattari a performance é localizada a partir dos estudos da linguística, sendo articulada a uma perspectiva pragmática onde já não se sustenta uma distinção rígida entre língua e fala, competência e performance. Em decorrência disso, a própria noção de performance parece ficar em segundo plano em relação ao conceito de ato de fala performativo, o qual situa mais precisamente o funcionamento das variáveis não discursivas da expressão, as quais estão implícitas nas próprias enunciações e estabelecem as condições de efetuação da linguagem.

Por esse caminho, além de compreender que as variações implicadas nas performances atravessam e fazem variar o próprio sistema da competência, a performance é deslocada em seu sentido de um uso individual, sendo esses usos e suas variações decorrentes de agenciamentos coletivos de enunciação. Diante disso, entendemos que a afirmação “um mapa é uma questão de performance” (2011a, p.30) propõe que ao invés de reduzir as multiplicidades que compõem os fenômenos à decalques (expressos em modelos e sistemas já estabelecidos), os fenômenos sejam mapeados tendo em vista as variações nos agenciamentos que o constituem. Nisso, os próprios decalques é que devem ser conectados ao rizoma e abertos à variação. Assim, as constantes e universais é que são expostas à transformação.


Notas

[1] “Une carte est affaire de performance, tandis que le calque renvoie toujours à une «compétence » prétendue” (1980, p.21).

[2] Para Deleuze e Guattari, o agenciamento é composto for duas faces, num eixo horizontal temos a expressão (agenciamento coletivo de enunciação) e o conteúdo (agenciamento maquínico de corpos), os quais são atravessadas por processos de desterritorialização e reterritorialização que são situados num eixo vertical.

Referências

BORBA, Rodrigo. A linguagem importa? Sobre performance, performatividade e peregrinações conceituais. Cadernos Pagu, [s. l.], n. 43, p. 441–474, 2014.

CARLSON, Marvin. Performance: uma introdução crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs Vol. I. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011a.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs Vol.II. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2011b.

ROSÁRIO, Nísia Martins. Mitos e cartografias: novos olhares metodológicos na comunicação. In: MALDONADO, Alberto Efendy; BONIN, Jiani Adriana; ROSARIO, Nísia Martins. (Org.). Perspectivas metodológicas em comunicação: novos desafios da prática investigativa. Salamanca-Sevilha: Comunicación Social Ediciones y Publicaciones, 2013.

______. Cartografia na comunicação: questões de método e desafios metodológicos. In:

MOURA, C; LOPES, M. (Org.). Pesquisa em comunicação: metodologias e práticas acadêmicas. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2016


Como citar este artigo

OSTRUCA, Douglas. Cartografia e Performance: “Um mapa é uma questão de performance”. 2022. Edição: Ricardo Machado. Disponível em: https://www.ufrgs.br/corporalidades/cartografia-e-performance-um-mapa-e-uma-questao-de-performance/. Acesso em: 1. Nov. 2022.

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