Reprodução de uma cena da série "Aruanas" em que aparecem as personagens A jornalista Natalie (Débora Falabella), a bióloga Luiza (Leandra Leal) e a advogada Verônica (Taís Araújo).
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O protagonismo feminino em “Aruanas” – Parte II

Adriana Pierre Coca

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São as ações das ativistas que conduzem o enredo, apresentado pelos produtores como um drama de ação e suspense e é assim que a trama se constrói, com as ativistas empenhadas em investigar e denunciar crimes e buscando a conscientização da população, mas a resposta é de resistência e dúvida. Parte dos moradores locais demonstra empatia com a causa ambiental, em contrapartida há pessoas que se irritam com a presença da equipe da ONG Aruana na cidade. Um dos garimpeiros questiona uma das ativistas: “Os garimpeiros já ganham tão pouco, como você quer que eles se alimentem?”, se referindo à possibilidade do garimpo ilegal em que trabalham ser fechado, deixando claro que muitos deles dependem do lugar para sobreviver (Episódio 9). No episódio de estreia, o vilão Miguel transparece saber como conquistar as pessoas do região ao afirmar que “Quem gosta de floresta é índio e celebridade (…). O povo gosta de dinheiro e dinheiro não vai faltar” [1]. A personagem faz essa afirmação enquanto mira a reserva que deseja destruir para instalar mais uma unidade da sua mineradora. As cenas descritas apontam a dicotomia que se estabelece na história entre a preservação da floresta e o progresso e a riqueza associados a instalação da mineradora.

Em outro episódio, um diálogo entre Verônica e o funcionário de um fórum traduz um sentido de distanciamento do lugar (e suas causas) em relação ao restante do país. Há um trio de ambientações na narrativa: a cidade de São Paulo, onde a ONG fica sediada e de onde saem os recursos financeiros/patrocínios que a mantém; a capital federal Brasília, o centro do poder, onde as decisões são tomadas e a Amazônia (Cari/Manaus), onde os conflitos são intensificados. O que o funcionário do fórum diz a Verônica, que pede a ele mais agilidade para atender sua solicitação porque ela veio de longe, é: “A senhora está em Manaus, todo mundo aqui veio de longe”, como se Manaus, que é a capital do estado do Amazonas, fosse distante do resto do Brasil, só que a cidade faz parte dele, assim como os problemas que lá existem.

A ação predatória é delineada a partir de três frentes que são apuradas pelas ativistas, que juntas “atam os fios da meada” e percebem que o trabalho de extração da mineradora no meio da floresta impõe e amplifica outros problemas sociais, além da contaminação do solo, das águas e dos animais com mercúrio, um metal pesado que faz mal à saúde. As ações da KM estão associadas à violência, mortes, prostituição infantil e corrupção e traduzem sentidos de destruição e impunidade.

As três vias narrativas se concentram na tentativa de Verônica de suspender uma liminar que autoriza a exploração da reserva ambiental, em Brasília, sinalizando a barreira imposta por políticos corruptos; na busca de Luiza e Clara por informações sobre o garimpo ilegal e na produção de uma reportagem por Natalie na região da floresta. É Natalie que protagoniza uma das cenas mais intensas da série, ao se deparar com uma aldeia indígena que acabou de sofrer um massacre, as imagens são de índios mortos por todos os lados, focos de incêndios e devastação. Um plano de câmera captado em 360 graus mostra a jornalista desnorteada com o que vê, ao mesmo tempo em que parece indicar que a destruição está em tudo ao redor. Coincidentemente, quem a resgata do local junto com um grupo de sobreviventes é Miguel com seu helicóptero, que tenta convencê-la a deixar o lugar, porque é muito perigoso. Enquanto isso, Luiza e Clara se chocam ao descobrirem um barco onde funciona um prostíbulo, onde meninas menores de idade são exploradas, adolescentes que mais tarde são resgatadas por elas no garimpo clandestino, comandado por capangas de Miguel. Na descrição de Clara: “Um barco de pedófilos”. Em uma das cenas do episódio 6, uma menina de apenas 14 anos é “leiloada”, quem dá o lance maior pode ficar com ela. Esses desdobramentos da investigação apontam que os problemas associados a presença da mineradora KM no interior do Amazonas encobre outros tantos problemas sociais.

Também merecem atenção as ações de protesto da ONG por serem muito realistas, um videoclipe divulgado nas redes sociais da organização traz uma edição de imagens ágil, sonorizada pela música “Believer” dos americanos “Imagine Dragons”, uma composição de cenas que evoca situações reais que acompanhamos em ações de ONGs defensoras do meio-ambiente na mídia. No episódio final, uma ação coordenada da Aruana sintetiza o percurso traçado pelas ativistas ao longo da série e, também, se assemelha a performances reais. A sequência acontece no jantar em que a liberação, permitindo que a mineradora KM explore a Reserva Eldorado, seria assinada pelo Presidente da República. Autoridades e imprensa estão presentes e os integrantes da ONG infiltrados. Natalie transmite ao vivo pela TV o evento e narra as atrocidades cometidas contra o meio ambiente pela mineradora, enquanto um telão exibe imagens que comprovam a contaminação das águas, dos animais e, consequentemente, da população. Em seu discurso de denúncia, a jornalista revela que peixes contaminados foram servidos como prato principal aos convidados naquela noite. Os ativistas são presos e depois liberados. A revelação pública impede a assinatura da autorização para a exploração da reserva e o empresário Miguel Kiriacos é detido. Os sentidos retratados consolidam a importância do trabalho do ativismo ambiental e do papel da mídia nessa missão.

“Aruanas” em sua primeira temporada dá protagonismo as mulheres e constrói uma narrativa de modo crítico e criativo, abordando um assunto contemporâneo e universal, que garantiu parcerias internacionais e impulsionou a divulgação da série em plataformas digitais no exterior. Inovou ao tecer personagens ambivalentes, mas que não tiveram ênfase em suas narrativas pessoais, afastando a trama das estruturas melodramáticas redundantes (Massarolo et al., 2021). Ainda que a série tenha em sua constituição elementos do melodrama, como a dicotomia entre o bem e o mal e um argumento que se desenvolve a partir da urgência em preservar a floresta e ao mesmo tempo a necessidade de gerar riqueza e desenvolvimento para a região.

Os sentidos associados a ação climática na série revelam que ainda falta muito para alcançarmos um mundo sustentável como prevê os Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, sobretudo, em uma sociedade relutante e refém das grandes corporações e da corrupção. No entanto, o contexto da produção traz consigo o cerne da questão proposta pela Agenda, que é a conscientização e a importância de desenvolvermos atitudes sustentáveis, a exemplo da reciclagem de 90% dos figurinos usados na série, produzindo menos resíduos no meio ambiente e a utilização de uma plataforma para neutralização de emissões de gases que provocam o efeito estufa, auditada por uma empresa líder de certificação no mundo, entre outras ações.

Além disso, a série demonstra uma reação dos Estúdios Globo, que passou a investir de maneira mais sistemática na criação de obras originais para o streaming, que só meses depois são exibidas na TV aberta, por vezes, apenas o capítulo de estreia vai ao ar na TV, como um chamariz para a narrativa seriada disponível na plataforma de vídeos, algo que é um sintoma do chamado efeito Netflix (Sharma, 2016) que, entre outros vieses, prioriza a produção de ficção seriada inédita.

Por essas vias, “Aruanas” combina as regularidades das narrativas seriadas da TV aberta e incorpora descontinuidades que a atualizam em um contexto digital e pós-pandêmico, ainda que tenha sido lançada meses antes da chegada da Covid-19.


Notas

[1] Curiosamente, a afirmação da personagem ficcional remete a uma resposta polêmica do carnavalesco Joãosinho Trinta, famoso por suas alegorias e fantasias luxuosas. Certa vez, ao ser criticado, respondeu à imprensa que: “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual.” https://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2011-12-17/joaosinho-trinta-criou-polemicas-na-passarela-do-samba Acesso em 07 set. 2022, 14h44.


Referências

COCA, Adriana P.; TAVARES, Miriam N.. Aruanas: a agenda 2030 da ONU pautada na ficção seriada do streaming. Revista Latinoamericana de Ciências da Comunicação (online), 40ª edição, 2022. Disponível em: < http://revista.pubalaic.org/index.php/alaic/article/view/872/877>.

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. Lisboa: Edições 70, 2009.

MASSAROLO, João et al. Aruanas: inovação e criatividade em tempos de pandemia de Covid-19. In: LOPES, Maria Immacolata Vassallo de; SILVA, Lourdes Ana Pereira (orgs.). Criação e Inovação na Ficção Televisiva em tempos de pandemia de Covid-19. Coleção Teledramaturgia. Volume 7. Aluminio/SP: Clea Editorial, 2021. p. 129-148.

SHARMA, Romil. The Netflix effects: impacts of the streaming models on television storytelling. Middleton: Wesleyan University, 2016.

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