Akhenaton, Heliogábalo e a variação de gênero na Antiguidade
Taís Severo
O faraó Akhenaton, que governou o Antigo Egito de 1353 a 1336 a.C., é um dos mais remotos personagens históricos representados de forma deliberadamente andrógina. Também pelo contraste: a fisionomia se mostra completamente diferente dos soberanos que vieram antes e depois, em semblantes fortes e viris. “Sabemos que as representações humanas no Antigo Egito eram marcadas por uma forte diferenciação dos sexos biológicos, o mesmo acontecendo com a imagem real. Entretanto, a imagem de Akhenaton […] se afigura sob a forma de uma representação corporal muito próxima à nossa idéia do feminino, ou seja, corpo torneado, quadris largos, cintura fina e pernas roliças” (SILVA, 2009, p. 100). De outra forma, Cline e Takács (2007) descrevem que o faraó foi registrado “de forma pouco lisonjeira. Enquanto monarcas anteriores foram retratados como belos e atléticos, Akhenaten é mostrado com a face alongada, lábios carnudos, seios quase femininos, uma barriguinha, quadris largos, coxas grossas, e pernas muito finas”. Essa representação fez com que alguns arqueólogos do passado pensassem que se tratava de uma mulher, mas não só isso: em sua tumba, há textos com voz feminina inscritos em seu nome (SILVA, 2009).
Da maneira como escolheu ser registrado artisticamente, à forma como escrevia seus textos, não se trata, aqui, de apressadamente apontar Akhenaton como uma mulher trans. Não só nos faltariam subsídios, como também seria inadequado aplicar conceitos contemporâneos a um personagem do passado tão remoto. É interessante notar, no entanto, como a androginia e a ambiguidade de gênero já foram manifestadas em pontos muito distantes da História, evitando assim o engano de julgar a variação de gênero como um fenômeno identitário pós-moderno. Como ressalta Silva (2009), a principal característica da imagem de Akhenaton é a ambigüidade com relação às representações do masculino e do feminino, “desnaturalizando as identidades sexuais e marcando uma negação a um determinismo biológico” (SILVA, 2009, p. 102).
Se é insensato atribuir transgeneridade a Akhenaton, o caso é menos (ou mais) claro com Heliogábalo, o imperador romano que governou entre os anos 218 a 222. Tendo ascendido ao trono aos 14 anos, o jovem se tornou conhecido por sua rebeldia e transgressão, inclusive no que se refere ao gênero. Herodiano, à época, descreve que Heliogábalo causava aversão pelo “rosto maquiado com mais exagero do que era permitido a mulher decente e vestido como uma mulher, com colares de ouro e vestidos curtos, dançando de tal forma que todos prestavam atenção nele” (CORSI, 2019, p. 256). Também no seu tratamento, o imperador rejeitava a masculinidade. Dião Cássio, que registrou o reinado de Heliogábalo, descreve que “quando Aurélio se dirigiu a ele com a saudação habitual: ‘Salve! Meu Senhor imperador!’, ele inclinou o pescoço, assumindo uma pose feminina arrebatadora, e, virando os olhos com um olhar derretido por ele, respondeu sem qualquer hesitação: ‘Não me chame de senhor, pois eu sou uma senhora’” (CORSI, 2018, p. 156).

Como bem pondera Corsi (2019), a História busca explicar Heliogábalo sem utilizar o ferramental moderno do gênero: que o imperador “se vestia e se maquiava como povos medos e fenícios que, por sua vez, se assemelhavam às mulheres na visão dos escritores greco-romanos. Heliogábalo dançava de maneira bárbara feminina, objetivava a emasculação característica de cultos orientais como os cultos da deusa cibele da Frígia e Atargátis da Síria” (CORSI, 2019, p. 264). A emasculação, no entanto, parece ter outro objetivo, como descreve Dião Cássio: “Sua luxúria chegou a tal ponto que ele pediu aos médicos que inventassem a vagina de uma mulher em seu corpo, por meio de uma incisão, prometendo a eles grandes somas como pagamento” (CORSI, 2018, p. 154). Heliogábalo era conhecido por seus escândalos sexuais, por promover grandes festas e bacanais, e por se prostituir em bordéis e tavernas; sendo assim, não causa espanto que Dião Cássio relacione o pedido da modificação genital à luxúria. Por outro lado, a ideia de que a homossexualidade pode ser tão intensa a ponto de causar o desejo pela genitália inversa é um mito e um preconceito ainda correntes. Fosse verdade, a oferta de cirurgias transgenitais seria muito maior e mais popular. De fato, o que se nota na descrição de Dião Cássio é a sexualidade servindo como uma sinalização do gênero – um efeito conhecido em muitas histórias de pessoas trans, em especial durante a puberdade, que atuava sobre o corpo de Heliogábalo no período em que governou. O objetivo não é a mera sexualidade, mas a sexualidade que se efetiva a partir de um corpo adequado à personalidade e à identidade.
O curto período do imperador no poder demonstra sua impopularidade. Seu comportamento o afastou tanto do Senado quanto da Guarda Pretoriana, e Heliogábalo foi assassinado aos 18 anos de idade, junto com sua mãe. Seus corpos foram arrastados por Roma e arremessados ao Tibre, e ele recebeu a danação da memória por seu primo e sucessor. Não bastou a morte insepulta; também buscaram apagar sua imagem, em um ato de violência que, resguardado o contexto, nos lembra da brutalidade que ocorre em muitos assassinatos de mulheres trans, como o de Dandara dos Santos. O apagamento de Heliogábalo é também continuado por historiadores contemporâneos que o julgam como abjeto, o que levou Ball (2016) a definir o imperador como “um trágico enigma perdido após séculos de preconceito” (BALL, 2016, p. 164).
Como ressalta Corsi (2018), a leitura moderna da personalidade de Heliogábalo demonstra um potencial queer por sua marcada dissidência – e como podemos notar, pela força e insistência de seus desejos, que outrora poderiam ter sido reprimidos, mas se potencializaram com a posição que ocupou. A repressão à variação de gênero, que se nota desde já, não arrefeceu. “Heliogábalo era uma descontinuidade em relação aos modelos de homem/masculino e mulher/feminino conhecidos nas normas greco-romanas, especialmente por ser um imperador e ter que passar por regimes mais rígidos de virilidade” (CORSI, 2018, p. 270-271).
Há outro ponto em comum, curioso, entre Heliogábalo e Akhenaton: cada qual à sua forma, ambos utilizaram de seu governo para decretar o monoteísmo em seus reinos, elegendo representações do Sol como deus maior e único. A decisão sofreria resistências e seria revertida ao modelo politeísta por seus sucessores. Se o caso pode ser mera coincidência, a relação entre variação de gênero e religiosidade é um efeito notado na Antiguidade. Carlà-Uhink (2017) lembra que há casos de redesignação de gênero nas Metamorfoses de Ovídio (ano 8 d.C.), e elas foram concedidas por figuras divinas: Netuno atende ao pedido de Ceneu para que seja transformado em homem, e Isis concede o mesmo a Iphis. A transição é possível através da intervenção divina, e “admitir a possibilidade de quebrar o limite [do gênero], sob circunstâncias específicas e sobrenaturais, reforça o limite em si e o torna mais visível, ao mesmo tempo em que abre uma negociação sobre a legitimidade do indivíduo que […] clama para si o direito de violar tal limite” (CARLÀ-UHINK, 2017, p. 19).
O autor também nota que reis gregos e imperadores romanos performatizaram atos de variação de gênero com o objetivo de demonstrar sua natureza divina ou uma conexão particular com uma divindade. “O primeiro exemplo conhecido é o de Alexandre, o Grande. Efippo escreveu que o rei frequentemente se vestia como uma divindade, em particular para performar os papéis de Ámon, Hermes, Héracles e Ártemis. Após Alexandre, o mundo helenístico está cheio de exemplos de reis performando em drag como deusas. Calígula, de fato, performava como Vênus, assim como outras divindades, seguindo o modelo de Alexandre” (CARLÀ-UHINK, 2017, p. 20). Nestes casos, a performatividade de gênero servia como forma de validar a própria divindade, demonstrando ao público sua legitimidade ao assumir o papel de deuses e deusas. O autor ainda cita o exemplo de Galeno, que é representado com signos femininos em uma moeda, “e acima de tudo, o nome Galena Augusta, que não deixa dúvida que Galeno é apresentado de forma transgênera – e portanto, como uma figura divina” (CARLÀ-UHINK, 2017, p. 23).
Nestes e em outros exemplos, é notável, portanto, como as manifestações de variação de gênero remontam desde a História Antiga. Se tais casos parecem surpreendentes, é demonstração de como esses hábitos e eventos foram apagados pela normatividade, inclusive no preconceito de historiadores ao longo dos tempos. Da mesma forma, o agenciamento ideológico de uma naturalidade na correspondência entre sexo anatômico e gênero também não é novidade, bem como a força de sua repressão. É preciso respeitar os contextos, mas também recalibrar o olhar para o passado tendo em vista o que compreendemos hoje sobre as manifestações do gênero e sua relação com as corporalidades e as performatividades. Ao assumirmos um olhar mais abrangente, percebemos que, de uma forma ou outra, a história da civilização também foi e é escrita com as cores do que hoje chamamos transgeneridade.
Referências
BALL, Warwick. Rome in the East: The Transformation of an Empire. London: Routledge, 2016.
CARLÀ-UHINK, Filippo. Between the human and the divine: Cross-dressing and transgender dynamics in the Graeco-Roman world. In: CAMPANILE, Domitila; CARLÀ-UHINK, Filippo; FACELLA, Margherita (eds.) TransAntiquity: Cross-dressing and transgender dynamics in the ancient world. London: Routledge, 2017.
CLINE, Eric.; TAKÁCS, Sarolta (eds.) The Ancient World: Civilizations of Africa. Volume 1. New York: Sharpe, 2007.
CORSI, Semíramis. Identidade cultural e gênero no principado romano: uma proposta de análise interseccional das representações do imperador Heliogábalo. Phoînix, n. 24, v. 2, p. 142-166, 2018.
CORSI, Semíramis. Heliogábalo vestido divinamente: a indumentária religiosa do imperador sacerdote de Elagabal. Arys, n.17, p. 251-276, 2019.
SILVA, Regina Coeli. Análise do painel das cenas de oferendas da sala Alfa – Tumba Real de Amarna. 2009. Dissertação (Mestrado em Arqueologia) – UFRJ, Rio de Janeiro.
Como citar este artigo
SEVERO, Taís. Akhenaton, Heliogábalo e a variação de gênero na Antiguidade. Corporalidades, Porto Alegre, 12. jul. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/corporalidades/akhenaton-heliogabalo-e-a-variacao-de-genero-na-antiguidade/> Acesso em: 12-7-2023.
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