Na imagem quatro pessoas ficam de pé no segundo plano e outras três sentadas em primeiro plano. Todos estão em uma escola da periferia de São Paulo.
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Histórias de diversidade na série Segunda Chamada – Parte I

Adriana Pierre Cocca

Segunda Chamada[1] é uma série produzida pelos Estúdios Globo para a plataforma de streaming, Globoplay. Neste post do Blog Corporalidades observamos aspectos que a situam como uma narrativa que se constitui com histórias de diversidade em um contexto hegemônico.

Destacamos as tramas da segunda temporada, especialmente, que foi disponibilizada ao público em setembro de 2021[2]. A produção tem como fio condutor os enfrentamentos de um grupo de professores em uma escola pública da periferia da cidade de São Paulo, que se dedica à educação para jovens e adultos (EJA). Assim como na primeira temporada, a EJA continua com o protagonismo, só que outros temas sociais também são abordados, como a condição das pessoas em situação de rua, o feminicídio e a pobreza menstrual, entre outros. 

O primeiro aspecto observado é o protagonismo dado a personagens que representam uma parcela da população marginalizada pela sociedade, os moradores em situação de rua, eles são os novos estudantes da Escola Estadual “Carolina Maria de Jesus”, que foram convidados a frequentar a escola pela professora Lúcia (interpretada por Débora Bloch), que se empenhou em conseguir alunos suficientes para que o curso noturno para jovens e adultos não fosse encerrado por falta de matriculados. O retorno aos estudos mudou a vida dessas pessoas, ao mesmo tempo que seus problemas pessoais passaram a afetar a rotina do lugar. Lotman (1996) lembra que cada espaço tem seus habitantes correspondentes e que ao transladarmos para um outro espaço perdemos nossa identificação e, paralelamente, somos nós mesmos nesse novo lugar, assim, nos transformamos em outro, como um imigrante estrangeiro que vai viver em outro país. Na série, a escola se converte em uma semiosfera cultural alheia para aqueles alunos recém-chegados, um novo ambiente que impôs a eles novos códigos e sentidos às suas vidas.

Ao longo da narrativa muitos conflitos são delineados, em uma das cenas, uma jovem aluna que vive nas ruas foi acusada de furtar os rolos de papel higiênico dos banheiros da escola. Ela só estava tentando se proteger para conseguir assistir às aulas, porque estava menstruada e não tinha absorventes. Esse é só um dos problemas sociais crônicos vivenciado por meninas e mulheres que estudam no Brasil e que têm relevância na narrativa ficcional. A estudante que faz a denúncia, ao descobrir o motivo, convoca outras mulheres para fazer uma doação de absorventes para a colega, que agradece emocionada. Além da pobreza menstrual, a história também dá atenção a outras dificuldades enfrentadas por quem vive nas ruas e, claro, afetam a vivência e o aprendizado desses alunos no ambiente escolar, como o frio, a falta de um lugar adequado para fazer a higiene pessoal e o acesso a documentos básicos, como o RG, o registro geral de pessoas físicas nacional.

Tecendo um melodrama social

Outro problema social devastador abordado na série é a violência contra a mulher, personificada por duas personagens, a professora Sônia (interpretada por Hermila Guedes), que foi morta a tiros pelo ex-marido dentro da sala de aula, e a aluna que foi morar nas ruas depois de ser abusada pelo padrasto e expulsa de casa pela mãe, que não acreditou na versão contada por ela. Diante da situação, a adolescente passa a se disfarçar/vestir de homem, porque assim se sente mais segura. A insegurança feminina e o feminicídio, que já eram problemas alarmantes no país antes da pandemia, se intensificaram depois do período prolongado de confinamento, segundo informações do Fórum de Segurança Pública[3], o que sinaliza a importância de trazer o assunto à tona na mídia.

A inserção de temas sociais contemporâneos na teledramaturgia muitas vezes se revela como ações de merchandising social (MOTTER; JAKUBASZKO, 2006) campanhas que são recorrentes, principalmente, nas telenovelas. Nesses casos, a abordagem é intencional e estruturada e visa despertar a reflexão e a mudança de atitudes e comportamentos (SCHIAVO, 1998). Só que na série Segunda Chamada esses assuntos enredam toda a narrativa, ocupam, sim, momentos centrais da história de determinadas personagens, mas são chaves de leitura para contextualizar o arco narrativo maior que envolve a trama, que são as dificuldades para estudar e a resistência e luta de quem acredita no poder transformador da educação. Por isso, assentimos que em Segunda Chamada trata-se da construção de um melodrama social, porque os temas expostos são o cerne da construção narrativa, não há uma luta evidente entre o bem e o mal representados por protagonistas delineados entre mocinhos e vilões, características das narrativas melodramáticas, há a busca coletiva por uma vida melhor que une alunos e professores, pautada pelos problemas sociais enfrentados e que tem a educação como sinalizadora de esperança. Nesse contexto, são protagonistas distintos personagens que ganham importância a cada episódio e têm suas narrativas enredadas como principais e não como histórias paralelas.

Personagens diversos

Além dos assuntos já relacionados, a série põe em discussão, também, a acessibilidade. Um aluno não regressa às aulas porque sofreu um acidente na obra/construção em que trabalhava e ficou paraplégico. A professora Lúcia vai até a casa dele e o convence a retornar aos estudos. Chegando à escola, ele se depara com um ambiente físico inadequado para uma pessoa cadeirante e precisa da ajuda e empatia dos colegas. Em uma cena comovente, professora e alunos descem para ter aula no andar térreo do prédio, só para ele não ser carregado escadas acima. A ficção, mais uma vez, se reporta à realidade, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizada em 2019 e divulgada em 2022, indica que pessoas com deficiência no Brasil representam mais de 17 milhões de brasileiros, o que corresponde a 8,4% da população[4], e que o desemprego é maior entre elas. Os dados apontam que a desigualdade na absorção dessas pessoas no mercado de trabalho[5] pode ter na baixa escolaridade um dos motivos. Só que as informações do último censo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), também de 2019, mostram que o acesso à educação entre as pessoas com deficiência é uma das dificuldades que elas enfrentam. Muitas são obrigadas a estudar em escolas não adaptadas, como mostra o drama da personagem ficcional da série Segunda Chamada. Isso porque, entre as escolas do ensino médio, apenas 67,4% são adequadas para receber alunos com algum tipo de deficiência, no ensino fundamental, essa porcentagem é pouco mais da metade (55%).

Outra personagem evoca, mais uma vez, o retrato de uma minoria que também é pouco representada nas histórias de ficção contadas no audiovisual no Brasil. É o aluno indígena, que vive de vender peças de artesanato e é hostilizado por outros estudantes. Diante da diversidade e do preconceito, a professora Lúcia deixa claro que a escola não é só para ensinar a ler e escrever, também ensina a aceitar as diferenças.

Com esses apontamentos, percebemos que os sentidos engendrados na segunda temporada da série Segunda Chamada privilegiam a educação pública para jovens e adultos considerando os problemas que são covariantes e interferem no processo de aprendizado, mas sem deixar de indicar que a educação pode ser transformadora, é o que parecem traduzir os enunciados da narrativa ficcional. As autoras[6] confessam que queriam mostrar que a escola pode ser um lugar de resgate da cidadania, já que os alunos têm ali a oportunidade de um recomeço, garantido por um direito básico a todos, a educação.

Referências

ALTMAN, Breno. Série ‘Segunda chamada’: o povo a gente vê por aqui. El País, 1 out. 2021. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2021-10-01/serie-segunda-chamada-o-povo-a-gente-ve-por-aqui.html?event=fa&event_log=fa&prod=REGCRART&o=cerradoam. Acesso em: 26 maio 2023.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Violência contra mulheres em 2021. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2022/03/violencia-contra-mulher-2021-v5.pdf. Acesso em: 26 maio 2023.

LOTMAN, Iúri Mikhailovich. La Semiosfera I. Semiótica de la cultura y del texto. Madrid: Ediciones Frónesis Cátedra Universitat de València, 1996.

MOTTER, Maria de Lourdes; JAKUBASZKO, Daniela. Os limites do merchandising social na telenovela brasileira.  Anais… VI Encontro dos Núcleos de Pesquisa do XXIX Congresso de Ciências da Comunicação do Intercom. Brasília: INTERCOM, 2006.

SCHIAVO, Márcio Ruiz. Merchandising social: sexualidade e saúde, reprodutividade nas telenovelas. Anais… XXI Congresso de Ciências da Comunicação do Intercom. Recife: Intercom, 1998.

Notas

[1] Esta reflexão foi publicada originalmente no artigo: “Segunda Chamada”: a insustentabilidade da educação pública na ficção seriada na Comunicação & Educação. Revista do Departamento de Comunicação e Artes da ECA/USP e pode ser acessado em: https://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/202949/196038

[2] A segunda temporada da série Segunda Chamada foi produzida em 06 episódios como uma obra original para a Globoplay, uma parceria dos Estúdios Globo com a produtora de audiovisual O2 Filmes. A primeira temporada estreou na TV aberta em 11 episódios em outubro de 2019.

[3]. Outras informações em: FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Violência contra mulheres em 2021.

[4]. Informações disponíveis em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/31445-pns-2019-pais-tem-17-3-milhoes-de-pessoas-com-algum-tipo-de-deficiencia Acesso em: 01 jun. 2023.

[5]. Ibidem.

[6]. Informações consultadas em: ALTMAN, Breno. Série ‘Segunda chamada’: o povo a gente vê por aqui. El País, 1 out. 2021.

Como citar este artigo

COCCA, Adriana Pierre. Histórias de diversidade na série Segunda Chamada. Corporalidades, Porto Alegre, 18. jul. 2023. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/corporalidades/historias-de-diversidade-na-serie-segunda-chamada> Acesso em: 18-7-2023.

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