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Os atores do processo de subjetivação e singularização

Por João Batista Nascimento dos Santos

Para Guattari e Rolnik (2011), o sujeito nunca é algo dado, mas constituído permanentemente pelos processos que vivencia no social. Pela ótica destes autores, a construção da subjetividade transcende a esfera do indivíduo. Guattari e Rolnik (2011) postulam, desde o princípio, que a subjetividade não deve ser concebida como um atributo intrínseco do indivíduo, mas sim como um processo de produção contínua que opera em grande medida externamente ao sujeito. Nesse sentido, a subjetividade seria resultado de um processo de produção, sendo majoritariamente produzida e modelada no registro do social.

Então, como se dá a produção de subjetividade na compreensão de Guattari e Rolnik (2011)? Esse processo se daria pela assimilação constante por parte dos sujeitos de recursos propiciados pelo meio social, a propagação de tais recursos se sucede por meio de certas instituições, tais como a mídia, incluindo plataformas de redes sociais, a publicidade, os jornais e demais formas de comunicação, as religiões, o mercado de trabalho, os governos bem como outros recursos do capitalismo, que para Guattari e Rolnik (2011), apresentam funções que transcendem a simples transmissão de ideias e significações. Em vez disso, estes desempenham uma função social preponderante ao operarem como verdadeiras máquinas de produção de subjetividade. Nessa concepção, o capitalismo gera a própria subjetividade, dissociando-a de uma noção estritamente individualista.

A subjetividade é importante para o capitalismo, podemos perceber isso ao nos voltarmos para o projeto de implantação do neoliberalismo, nesse momento houve a necessidade da criação de um modelo de subjetividade que se adequasse a esse novo estágio social. Nesse sentido, foi estabelecido o ideal empresarial de si como dispositivo disciplinar. O sucesso dessa empreitada dependia não somente de uma transformação econômica, mas também de uma mudança no âmbito dos afetos dos sujeitos. A fala de Margaret Thatcher recuperada por Safatle (2015) elucida a percepção da primeira-ministra inglesa sobre a relevância da subjetividade. Thatcher proferiu o seguinte: a economia constitui o método, mas o objetivo último reside na transformação do coração e da alma dos sujeitos. Isto demonstra que o neoliberalismo transcende sua definição estrita como uma doutrina econômica fundamentada na maximização da concorrência e na liberalização dos mercados. De modo mais abrangente, ele opera como um regime voltado para a gestão da conduta social e para a construção de formas de vida específicas. Nesse sentido, ele engendra uma corporeidade própria, uma corporeidade neoliberal (2015). Ou seja, sem um projeto de subjetividade próprio, a implantação do neoliberalismo não teria êxito.

Guattari e Ronilk (2011) contrapõem-se à influente tradição filosófica que postula a existência de uma ‘natureza humana’ a priori. Sob essa perspectiva essencialista, a mera pertença à espécie Homo sapiens conferiria ao indivíduo uma essência imutável. Essa concepção, argumenta-se, permeia profundamente o tecido social. Tal visão pode ser percebida, por exemplo, na compreensão sobre a subjetividade manifestada por Woodward (2014). Na análise de Woodward (2014), os conceitos de identidade e subjetividade, embora por vezes utilizados de forma intercambiável, efetivamente se sobrepõem. A subjetividade refere-se ao entendimento que engendramos sobre o nosso eu, englobando os processos psíquicos — conscientes e inconscientes — que constituem nosso entendimento acerca de quem nós somos. Contudo, essa esfera, mesmo envolvendo nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos, é preciso que consideremos que nossa subjetividade é vivenciada em um meio social no qual a linguagem e a cultura fornecem as matrizes de significado para a experiência subjetiva. É nesse terreno que a identidade emerge. O conceito de subjetividade é analiticamente crucial por abarcar as dimensões inconscientes, contraditórias e afetivas racionais e irracionais. Ele permite investigar o investimento psíquico que fundamenta a adesão a certas identidades em detrimento de outras, explicando por que determinadas posições se tornam tão centrais para os sujeitos.

Por sua vez em sua abordagem, Guattari e Rolnik (2011) postulam que a subjetividade possui um caráter industrial e maquínico. Esta, por sua vez, seria concebida como um produto fabricado, modelado e distribuído para consumo. Tal perspectiva ilumina a lógica do capitalismo contemporâneo, cujas forças gestoras compreendem a produção de subjetividade como uma atividade potencialmente mais relevante do que a produção de qualquer outra coisa. As mudanças na subjetividade nessa perspectiva não seriam efetivadas unicamente no campo ideológico, operando sim em um nível mais profundo “no próprio coração dos indivíduos, em sua maneira de perceber o mundo, de se articular como tecido urbano, com os processos maquínicos do trabalho, com a ordem social suporte dessas forças produtivas” (Guattari; Rolnik, 2011, p. 26), algo que está em certo sentido na mesma perspectiva do que foi exposto anteriormente sobre a abordagem de Safatle (2015).

A produção de subjetividade

Conforme a análise de Lazzarato (2014) sobre o pensamento de Guattari, a produção de subjetividade emerge no ponto de articulação entre dois regimes distintos: os dispositivos de sujeição social e os de servidão maquínica. A sujeição social, por um lado, opera pela atribuição de uma identidade ao indivíduo, inscrevendo-o em funções (profissionais, por exemplo). E, respondendo às exigências da divisão social do trabalho, constitui sujeitos individuados, dotados de consciência, representações e comportamentos socialmente codificados. Em contraste, a servidão maquínica promove o desmantelamento dessa mesma individualidade. Esta atua sobre o sujeito, desconstruindo-o, afetando a sua consciência e a as suas representações, atuando sobre os níveis pré-individual e supraindividual.

A constituição do sujeito, mediada por instâncias como a família, a linguagem e os aparatos tecnológicos, transcende a mera transmissão de significações com o uso de enunciados significantes, como também não se circunscreve a modelos identitários. Conforme Lazzarato (2014), esses fenômenos devem ser compreendidos como produtos diretos da subjetivação capitalista. Segundo Guattari e Rolnik (2011), nesse contexto, certos agentes — como jornalistas, psicanalistas, educadores e, como se pode inferir, publicitários e outros operadores culturais — atuam como vetores na produção de subjetividade por meio de agenciamentos de enunciação. Os processos de subjetivação e semiotização, que englobam a produção de sentido dotada de eficácia semiótica, não são centralizados em agentes individuais ou grupais. Tais processos manifestam um duplo descentramento, sendo operados por máquinas de expressão de natureza tanto extra pessoal quanto extra individual, sendo estes sistemas maquínicos, econômicos, sociais, tecnológicos, icônicos, ecológicos, etológicos, de mídia, enfim, sistemas que não são mais imediatamente antropológicos, quanto de natureza infra-humana, infrapsíquica, infrapessoal, sistemas de percepção, de sensibilidade, de afeto, de desejo, de representação, de imagens, de valor, modos de memorização e de produção ideica, sistemas de inibição e de automatismos, sistemas corporais, orgânicos, biológicos, fisiológicos, etc. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 31).

Construindo linhas de fuga dos processos de subjetivação

Contudo, Guattari e Rolnik (2011) veem a possibilidade de produzir processos de subjetivação singulares, que operem na contramão da máquina de produção de subjetividade. Esses processos são, em sua essência, linhas de fuga que desterritorializam as codificações identitárias e os afetos padronizados. Ao rejeitar os modelos preexistentes, eles liberam fluxos de devir que permitem a composição de novos territórios existenciais: novas sensibilidades, novas formas de sociabilidade e novos agenciamentos criativos. A singularização, portanto, não é a busca por uma identidade ‘verdadeira’, mas um processo contínuo de diferenciação.

Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são nossos. (Guattari; Rolnik, 2011, p. 23). 

Referências

GUATTARI, F.; ROLNIK, Sueli. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 2011.

LAZZARATO, Maurizio.  Signos, máquinas, subjetividades. São Paulo: N-1 Editora, 2014.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: Cosac & Naify, 2015. 

WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da. (Org.); HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença. A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014. 

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