Traduções

[CAPÍTULO 3] A Ameaça Transumanista – Peter Thiel e a irmandade dos imortais

De início, um aviso: The Transhumanist Threat, de Lucius Maat, começou a circular em março de 2026. Foi em março de 2026, pelo menos, que tive acesso a uma versão digital do livro, através do site da Amazon. A publicação me chamou a atenção pela atualidade dos episódios que relata e pelos estarrecedores problemas filosóficos que nos apresenta. Interessou-me também por sintonizar-se aos meus estudos de então sobre theory-fiction, neorreacionarismo, teorias da conspiração e aceleracionismo de direita. Em seguida, fiquei em dúvida quanto à autoria e à proveniência da publicação. Não encontrei informações mais consistentes sobre o autor nem sobre a editora (Thoth House). Lucius Maat pareceu-me, de pronto, um nome fictício, uma assinatura gnóstica, muito adequada a uma entidade especulativa. Mesmo assim, considerando propósitos exclusivamente didáticos, achei importante traduzir os dez capítulos que compõem a obra. É o que o leitor encontrará aqui, ao ritmo de um capítulo por semana (Fabrício Silveira).


Se a convergência TESCREAL é a teologia da nova elite, então Peter Thiel é seu patrono natural. O bilionário cofundador da PayPal e da Palantir Technologies, investidor inicial do Facebook e arquiteto da Thiel Fellowship, ocupa uma posição singular na arquitetura moderna do poder. Ele é a ponte entre o Estado de vigilância, o ecossistema do capital de risco e a busca esotérica pela imortalidade biológica.

Thiel não financia apenas empresas de tecnologia; ele financia visões de mundo. E a visão de mundo que escolheu sustentar — com milhões de dólares em bolsas e investimentos estratégicos — é aquela em que a morte é tratada como um “problema de engenharia solucionável” e a democracia é vista como um sistema operacional obsoleto que deve ser substituído por uma soberania tecno-feudal.

No contexto da rede de Jeffrey Epstein, Thiel representa a realização sofisticada e industrializada daquilo que Epstein tentava prototipar no Rancho do Zorro. Onde Epstein utilizava chantagem rudimentar e jantares privados para construir seu império eugenista, Thiel utiliza a maquinaria das finanças globais e contratos de vigilância em nível estatal para projetar um futuro no qual a “irmandade dos imortais” governa sem restrições.

O santo patrono da SENS

O compromisso mais visível de Thiel com o projeto transumanista é seu apoio financeiro às pesquisas sobre a longevidade. Em 2006, Thiel prometeu US$ 3,5 milhões à SENS Research Foundation (Strategies for Engineered Negligible Senescence), fundada pelo controverso gerontólogo Aubrey de Grey. A fundação SENS se dedica à proposição de que o envelhecimento é uma doença causada pelo acúmulo de danos celulares e que esses danos podem ser reparados por meio de engenharia genética, terapia com células-tronco e outras intervenções radicais1.

As declarações públicas de Thiel sobre o tema são reveladoras. Ele afirma com frequência que considera a “aceitação da morte” uma forma de “lavagem cerebral” psicológica. Declarou sua intenção de viver até os 120 anos e argumentou que “a maioria das pessoas é contra a extensão da vida porque tem medo da morte”. Para Thiel, a mortalidade não é uma condição fundamental da existência humana; é um bug no código, uma falha que pode ser corrigida por aqueles com capital suficiente para pagar pela atualização.

Esta é a expressão secular do “Elixir da Vida” alquímico. Mas, ao contrário dos alquimistas de outrora, que buscavam uma iluminação universal, a busca pela imortalidade no Silicon Valley é fundamentalmente excludente. Se a tecnologia para derrotar a morte for desenvolvida, ela será cara, proprietária e rigidamente protegida. A “cura” para o envelhecimento não será distribuída pela Organização das Nações Unidas. Será vendida por um monopólio.

Palantir: o olho que tudo vê

Se a SENS é a busca pelo elixir, então a Palantir Technologies é a busca pelo “olho que tudo vê”. Nomeada a partir da visão de J. R. R. Tolkien em Senhor dos Anéis, a Palantir é uma empresa de mineração de dados e vigilância que presta serviços à CIA, à NSA (Agência de Segurança Nacional) e a diversas outras agências de aplicação da lei.

O software da Palantir é projetado para integrar conjuntos de dados díspares — registros telefônicos, transações de cartão de crédito, atividade em redes sociais, histórico de viagens — e identificar padrões que seriam invisíveis ao olho humano. Trata-se da realização tecnológica do “panoptismo”. Para a “Irmandade dos Imortais”, a Palantir funciona como uma ferramenta vital de controle social. Não se pode ter um Estado tecno-feudal sem consciência total da informação.

A conexão com Jeffrey Epstein aqui é sutil, mas estrutural. A operação de “honeytrap” de Epstein era uma versão manual do que a Palantir faz digitalmente. Ambas buscam adquirir poder por meio da coleta e análise de informação. Ambas são projetadas para proteger os interesses de uma rede de elite, garantindo que ela sempre saiba mais do que seus sujeitos.

A economia do sangue: vampirismo como serviço

A manifestação mais visceral e próxima do oculto dessa busca é o fascínio da elite pela “parabiose” — a transfusão de plasma sanguíneo de doadores jovens para receptores mais velhos. A prática se baseia em estudos (principalmente em camundongos) que sugerem que os “fatores” presentes no sangue jovem podem reverter sinais de envelhecimento em organismos mais velhos.

O suposto interesse de Peter Thiel pela parabiose tem sido alvo de intensa especulação midiática. Embora seus representantes neguem que ele receba transfusões pessoalmente, sua empresa de investimentos, Thiel Capital, explorou esse campo. E a cultura transumanista mais ampla que ele ajudou a moldar o abraçou com entusiasmo2.

O rosto mais conhecido dessa “economia do sangue” é Bryan Johnson, o empreendedor por trás do “Project Blueprint”. Em 2022, Johnson realizou uma troca sanguínea multigeracional amplamente divulgada, retirando plasma de seu filho adolescente e doando seu próprio plasma a seu pai idoso3. A imagem de um bilionário literalmente drenando a força vital de sua descendência para prolongar a própria juventude é uma metáfora perfeita — e grotesca — para o futuro tecno-feudal.

O homúnculo e a alquimia do controle

Do ponto de vista ocultista, a busca pela longevidade e pela “economia do sangue” pode ser vista como uma tentativa moderna de criar um “Homúnculo”. Na alquimia, o Homúnculo é um ser humano em miniatura criado em laboratório por meios artificiais. Paracelsus descreveu o processo como envolvendo a fermentação de material biológico humano em um recipiente selado.

O projeto transumanista moderno é a operação definitiva do Homúnculo. Ele busca reconstruir o ser humano como um objeto manufaturado, controlado e otimizado por seu criador. O “material biológico” utilizado nesse processo — seja o sangue dos jovens ou o tecido cardíaco de recém-nascidos — torna-se a matéria-prima para o novo homem “iluminado”.

Seasteading e a Thiel Fellowship: engenharia da elite

A influência de Peter Thiel se estende aos domínios da experimentação política e da educação. Ele foi um dos primeiros financiadores do Seasteading Institute, que defende a criação de cidades flutuantes autônomas em águas internacionais. Esses “seasteads” são concebidos como laboratórios para novas formas de governança — livres das restrições regulatórias e democráticas dos Estados existentes4.

O projeto de seasteading é a expressão espacial do modelo do “CEO-rei”. Trata-se da tentativa de criar um território soberano onde a “Irmandade dos Imortais” possa viver e operar de acordo com sua própria “verdadeira vontade”. É o Rancho do Zorro em alto-mar, expandido à escala de uma cidade-Estado.

Enquanto isso, a Thiel Fellowship — que paga a jovens US$100 mil para abandonar a universidade e abrir empresas — funciona como um mecanismo de “captura da elite”. Ao identificar e financiar as mentes jovens mais brilhantes ainda no início de sua formação, Thiel garante que elas sejam socializadas em sua visão de mundo e se tornem dependentes de seu capital. É uma versão mais “respeitável” da forma como Jeffrey Epstein cultivava “prodígios” no MIT Media Lab.

O Iluminismo Sombrio e o Rei-CEO

A busca pela imortalidade biológica exige uma estrutura política capaz de protegê-la. Se você pretende viver para sempre, não pode permitir que sua riqueza e seu poder sejam ameaçados pelos caprichos caóticos de um eleitorado democrático. Isso nos leva à filosofia política que sustenta os investimentos transumanistas de Thiel: o “Iluminismo Sombrio”.

O principal teórico do Iluminismo Sombrio (também conhecido como Neorreação ou NRx) é Curtis Yarvin, engenheiro de software que escreveu sob o pseudônimo de Mencius Moldbug. A tese central de Yarvin é que a democracia liberal é um experimento fracassado que inevitavelmente conduz ao colapso civilizacional. Sua solução proposta é o “neocameralismo”: a transformação do Estado em uma corporação por ações, governada por um soberano, um “rei-CEO” que detém poder absoluto e responde apenas aos “acionistas” (a elite ultra-rica)5.

Thiel foi profundamente influenciado pelas ideias de Yarvin. Ele financiou a startup de Yarvin, Urbit, e escreveu, de forma célebre, em um ensaio de 2009 para o Cato Institute, que “já não acredita que liberdade e democracia sejam compatíveis”6.

O alinhamento entre a neorreação de Yarvin e o transumanismo de Thiel é estruturalmente perfeito. O modelo do rei-CEO garante que os “imortais” mantenham controle absoluto sobre a infraestrutura da vida e da morte. As massas são despojadas de sua agência política, reduzidas ao status de servos biológicos ou, na linguagem dos TESCREAListas, “humanos de base”.

Monopólio oculto: a verdadeira vontade do capital

Para compreender a visão de mundo de Thiel, é preciso observar sua máxima empresarial mais famosa: “competição é para perdedores”. Em seu livro Zero to One, Thiel argumenta que o objetivo de toda grande empresa é alcançar um monopólio — tornar-se o nó singular através do qual todo valor flui7.

Na tradição ocultista, esse conceito possui um paralelo bastante específico: a doutrina da “Verdadeira Vontade”, tal como formulada por Aleister Crowley. Crowley argumentava que o Mago plenamente realizado — aquele que alcançou o “conhecimento e conversação do Sagrado Anjo Guardião” — não está sujeito a nenhuma lei além de sua própria Verdadeira Vontade. “Faz o que tu queres, pois há de ser tudo da Lei”. O Mago detém o monopólio de si mesmo, isento das restrições morais e éticas que vinculam os homens “comuns”.

Jeffrey Epstein viveu essa filosofia no campo da predação sexual e da intermediação de inteligência. Peter Thiel a aplica ao próprio tecido da realidade. Ao financiar a Palantir Technologies, ele construiu o olho onisciente do Estado de vigilância. Ao financiar a SENS Research Foundation e pesquisas em parabiose, busca conquistar a entropia biológica. Ao promover o Iluminismo Sombrio, procura desmontar o freio democrático sobre o poder das elites.

A convergência

O sonho do Rancho do Zorro, a convergência TESCREAL e a “Irmandade dos Imortais” não são fenômenos isolados. São três expressões de um mesmo projeto subjacente.

Epstein foi o pioneiro rudimentar, utilizando as ferramentas do aparato de inteligência do século XX (chantagem, armadilhas sexuais e contas offshore) para esculpir um feudo eugenista privado. Os filósofos do TESCREAL são os teólogos, fornecendo a justificação ética para o abandono da humanidade “de base” em favor de um superfuturo digital. E Thiel é o arquiteto, oferecendo o capital e a estrutura política para tornar esse futuro realidade.

Os arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA em 2026 sobre a rede Epstein são apenas o começo da história. A verdadeira ameaça não está nos crimes do passado, mas na arquitetura de futuro que esses crimes ajudaram a construir. O projeto transumanista é a “Grande Obra” definitiva da elite do Silicon Valley: uma gaiola dourada trancada por dentro, onde um grupo autoeleito vive para sempre, enquanto o restante da humanidade permanece do lado de fora, na escuridão.

Notas

  1.  Relatórios anuais da SENS Research Foundation, detalhando, por parte de Thiel, a doação inicial de US$ 3,5 milhões. ↩︎
  2.  Jeff Bercovici, “Peter Thiel is very, very interested in young people’s blood”, Inc., agosto de 2016; ver também a cobertura sobre a startup Ambrosia. ↩︎
  3.  Ashlee Vance, “Peter Thiel’s latest venture is spending your own money to stay young”, Bloomberg Businessweek, março de 2023; além da documentação do “Project Blueprint” de Bryan Johnson. ↩︎
  4.  Seasteading Institute, missão oficial e histórico inicial de financiamento. ↩︎
  5.  Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), arquivos do blog Unqualified Reservations (2007–2013). ↩︎
  6.  Peter Thiel, “The education of a libertarian”, Cato Unbound, 13 de abril de 2009. ↩︎
  7.  Peter Thiel com Blake Masters, Zero to One: Notes on Startups, or How to Build the Future (Crown Business, 2014). ↩︎

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