Iconofagia: a era do caos imagético e do esvaziamento de sentidos

“A era da visibilidade nos transforma a todos em imagens, invertendo o vetor da interação humana, criando a visão que se satisfaz apenas com a visão” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 30).
Em A Era da Iconofagia – Ensaios de Comunicação e Cultura, Norval Baitello Junior analisa a importância das imagens na sociedade, dentro do que define como um fenômeno de “devoração” imagética: “nossos índios praticavam a antropofagia ritual. Os nossos artistas dos anos 20 falaram da antropofagia cultural contra todos os colonialismos. Nossa era contemporânea pratica a iconofagia: ou nós devoramos as imagens, ou são as imagens que nos devoram” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 35). Mas agora, para o autor (2005, p. 09), da antropofagia criativa dos modernistas passamos, enquanto iconófagos, para: “uma assim chamada cultura universal, pasteurizada e homogeneizada (…), a servir de “comida” ou alimento para esta mesma cultura universal das imagens”.
Além da superexposição das imagens, Baitello Junior destaca a importância da chamada mídia primária, o corpo, que com um determinado limite de tempo e espaço, o aqui e o agora, seria: “o primeiro suporte dos textos culturais e dos processos comunicativos” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 07). Além da primária, têm grande importância as mídias secundária – constituída pelas “imagens exteriores, aquelas que se registram sobre materiais externos ao corpo”, segundo o autor (2005, p. 33) – e terciária. E enquanto a secundária seria a mediadora entre o corpo que emite uma mensagem e o corpo que a recebe, a mídia terciária seria a junção da primária com: “o aparato do emissor que se utiliza de imagem e de escrita ou que transforma o seu próprio corpo em imagem ou escrita, e as transporta imediatamente via eletricidade para outro aparato que as capta e as apresenta a um outro corpo que está lá do outro lado” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 34).
Na era da iconofagia, segundo o autor (2005, p. 15), o esvaziamento de sentido das imagens ocorre quando elas não representam uma relação entre o homem e seus símbolos, demonstrando assim uma perda dos valores referenciais de uma cultura. No entanto, se as imagens “portam valores, elas sustentam os vínculos entre o homem e suas raízes culturais e históricas” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 15). Essa importância cultural das imagens se deve justamente ao valor dos símbolos, que seriam “grandes sínteses sociais, resultantes da elaboração de grandes complexos de imagens e vivências de todos os tipos” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 17), sendo, em sua falta, substituídos por simulacros simbólicos:
“símbolos que se desgastam não apenas desmoronam como também podem abrir caminho para falsas saídas. Quando, por exemplo, o estado falha e a religião não mais congrega, imagens vazias podem se oferecer a assumir o vácuo deixado pela perda de capacidade agregadora de seus símbolos” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 16).

Um exemplo da substituição de símbolos por imagens é a exibição televisiva dos hinos nacionais antes das partidas de futebol, como no jogo entre Brasil e Espanha, na final da Copa das Confederações deste ano. Símbolos máximo de amor à pátria, os hinos louvam a história e o povo de uma nação, e a imagem audiovisual deles sendo cantados pelos jogadores antes de uma partida vista por milhões de pessoas alça astros esportivos à categoria de patriotas exemplares. Com isso, forja-se uma imagem de unidade nacional e de exaltação às virtudes da pátria e de seus cidadãos, acentuada pela adesão ao canto por parte dos torcedores.
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Ainda sobre a iconofagia, Baitello Junior se mostra um grande crítico da cultura de reprodutibilidade de imagens ad infinitum, em uma sociedade imagética que prioriza a superficialidade e: “não abre espaços para as complexidades e exigências do corpo, para as corporeidades, quando elas insistem em emergir como diferenças” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 51). Isso gera um assédio de imagens, que nos transforma em seres superficiais, com, segundo o autor (2005, p. 56): “um corpo sem matéria, sem massa, sem volume, apenas feito de funções abstratas como trabalho, sucesso, visibilidade, carreira, profissão e fama”, resultando em uma visão condicionada a perceber apenas ícones, como símbolos, marcas e logotipos, sem nenhuma conexão e inserção em qualquer contexto. “Já quase não vemos mais nexos, relações, sentidos” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 107).
Morto sob os escombros dos atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2011, o fotógrafo Bill Biggart é utilizado pelo autor como um exemplo de transformação do corpo em imagem. Ao presenciar o desabamento da primeira torre, Biggart entrou no tempo imagético ao se dirigir ao local da ação e registrar suas impressões em fotos digitais que: “foram resgatadas e dão o testemunho de sua entrada suicida no mundo da imagem espetacular criada pelos atentados” (BAITELLO JUNIOR, 2005, p. 97).
Referências:
BAITELLO JUNIOR, Norval. A Era da Iconofagia – Ensaios de Comunicação e Cultura. São Paulo: Hacker Editores, 2005.
Texto:
Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida.
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