Gretchen e Thammy: conflitos e ressignificações na relação entre mãe e filha

Nasce uma menina. Essa criança, desde o nascimento, tem um destino traçado pela sociedade. Ela deverá se comportar como menina, como moça, escolher um homem para se relacionar, casar, ter filhos. Deve se dedicar basicamente à família, ao marido, à casa. Ela poderá até mesmo ter uma profissão, mas isso é secundário. As famílias desejam sobretudo que suas filhas encontrem a felicidade amorosa com alguém do sexo oposto (COSTA, 1998, p. 101).
Além das expectativas que a sociedade deposita sobre todas as mulheres, desde a infância, Thammy Miranda teve que conviver com as da mãe, que via nela uma sucessora natural. No post da semana passada, abordamos as transformações vividas pela sua personagem na novela Salve Jorge, sua estreia como atriz, relacionando-as com as enfrentadas por ela na vida real. Agora, vamos falar da ressignificação de sentidos presente na sua relação com a mãe. Mais conhecida como Gretchen, Maria Odete Brito de Miranda tornou-se famosa no final da década de 70, quando rompeu com a moral vigente ao cantar e dançar, de forma sensual, de costas para o público.
Em 1983, no auge da carreira, enquanto emplacava músicas como “Conga, Conga, Conga” e “Freak Le Boom Boom”, a “rainha do bumbum” cantou músicas de ninar ao lado de Thammy, em um clipe para o Fantástico (TV GLOBO), em meio a campos verdejantes e coelhos brancos. Segundo afirma, em “Os 11 Sexos”, Ronaldo Pamplona da Costa (1998, p. 28), em casos como este, as mães podem ter “um desejo ou uma fantasia inconsciente em relação ao bebê. Isso, de alguma forma, será captado por ele e ficará registrado em seu inconsciente”.
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Ao mesmo tempo em que convivia com os preconceitos e pressões de uma sociedade na qual “a mulher heterossexual será um fracasso se não se casar e tiver filhos. O casamento deve ser o objetivo de sua vida e com todas as armas precisa conquistar “o seu homem”, mas apenas quando o mesmo demonstrar interesse por ela” (COSTA, 1998, p. 60), Gretchen era uma grande representação de símbolo sexual. Objeto de desejo, a cantora e dançarina emplacava vários sucessos e era presença constante em programas televisivos de grande audiência justamente por satisfazer os anseios de uma sociedade que esperava que, no que diz respeito às representantes mais atraentes do sexo feminino “não basta ter um corpo feminino perfeito, mas SE SENTIR MULHER, se comportar como mulher, e desejar um homem” (COSTA, 1998, p. 62).
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Dentro da mesma lógica, Thammy, ainda adolescente, parecia tornar-se também um símbolo sexual, quando passou a dançar junto com a mãe nos palcos. Entre o fim dos anos 1990 e início dos 2000, Gretchen tinha a companhia da primogênita em suas apresentações, e havia aparentemente encontrado a sua substituta. No entanto, mesmo fazendo ensaios para revistas masculinas e consolidando-se como figura altamente sensual, a filha da “rainha do bumbum” rompeu com seus sentidos de feminilidade, primeiramente ao admitir-se homossexual para a mãe e, anos depois, ao ter sua condição, mantida até então escondida, subitamente revelada através da mídia, em 2006. Nesse processo Thammy ressignificou o feminino em seu corpo físico.
Nesse momento, ela rompia completamente, aos olhos do grande público, com todas as expectativas que a mãe e a sociedade haviam depositado nela. Como afirma COSTA (1998, p. 63), “quando nasce uma menina já está implícito para a nossa sociedade que ela será feminina, desejará um homem para se casar, terá filhos e uma família. Seu projeto de vida é traçado no berço, e não passa pela cabeça de muitos pais que o futuro desejado por sua filha pode não ser esse”.
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Compondo uma relação entre mãe e filha sempre muito marcada pela publicidade, Thammy e Gretchen tiverem que aprender a lidar com a interferência midiática gerada por essa grande exposição. Nesse quadro, têm grande importância tanto a ressignificação de sentidos de Thammy, ex-dançarina de palco, homossexual assumida e atriz de novelas, quanto a de Gretchen, cantora, pura sensualidade que passou a assumir, frente à mídia, também o papel de mãe que não aceita a opção sexual da filha. Além de inúmeros shows e apresentações em programas de televisão, cantando e rebolando ou sendo entrevistada, ela também participou do reality show A Fazenda 5, da Record, em 2012, gravou um filme pornô, em 2006, e lançou-se em uma aventura política, em 2008, quando completava 30 anos de carreira. Concorrendo à prefeitura da Ilha de Itamaracá (PE), pelo PPS, ao mesmo tempo em que fazia shows em circos mambembes pelo interior do país, a “rainha do rebolado” não foi eleita, mas teve a experiência narrada no documentário Gretchen – Filme Estrada.
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Atualmente, Gretchen e Thammy estão reconciliadas: as brigas, o choque inicial da mãe, que tinha sobre sua primogênita uma série de expectativas, especialmente na carreira artística, ficaram para trás. As duas preocupam-se em passar uma imagem pública de carinho e respeito mútuos, com a dançarina constantemente apoiando a filha em sua recente carreira como atriz, em Salve Jorge, na qual a policial Joyce, sob o disfarce da dançarina Lohana, rebolou ao som de “Conga, Conga, Conga”, símbolo máximo do sucesso e sensualidade gretchianas.
Nos últimos anos, mãe e filha apareceram juntas em diversas reportagens e programas televisivos, como no de entrevistas de Marília Gabriela, no SBT, em 2012. Por quase uma hora, as duas falaram sobre o seu relacionamento, inclusive os desentendimentos, sem desembaraços e constrangimento. Em outra entrevista, para a revista Trip de setembro do ano passado, Thammy confirmou a grande projeção feita nela pela mãe, que teve de compreender que não podia ver na filha uma nova Gretchen: “Quando ela soube de mim e deu um chilique, eu cobrei: Você disse que se tivesse um filho gay você aceitaria. Ela respondeu: Eu disse um filho, não uma filha […]. Eu acho que ela esperava muito que eu fosse a continuação dela. Tanto que ela busca até hoje alguém para dar essa sequência”.
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Referências:
THAMMY GRETCHEN – Filha de Gretchen, gay, ex- sex symbol, atriz pornô e aposta da Globo para a novela das 9: http://revistatrip.uol.com.br/revista/214/paginas-negras/thammy-gretchen.html. Visualizado em 19 de abril de 2013.
COSTA, Ronaldo Pamplona da. Os onze sexos: as faces múltiplas da sexualidade humana. São Paulo, Editora Gente, 1994.
Texto:
Nísia Martins do Rosário
Guilherme Almeida
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