A quem o telejornalismo representa?
Na primeira semana de julho, causaram indignação no Brasil as injúrias raciais desferidas por um grupo de internautas em direção à jornalista Maria Júlia Coutinho, apresentadora da previsão do tempo no Jornal Nacional, da TV Globo. As agressões tiveram lugar na página oficial do noticiário no Facebook e ocasionaram uma onda oposta de revolta e de apoio a Maju por parte de milhares de pessoas nas redes sociais.
Mas por que, ainda, parece tão inaceitável aos olhos racistas a figura de Maju dentro do jornal mais importante do país? A verdade é que a representatividade de pessoas negras na grade de programação do nosso telejornalismo é irrisória. O Censo 2010 realizado pelo IBGE aponta que 50,7% da população brasileira se declara parda ou preta (um aumento em relação à contagem anterior); entretanto, tal proporção continua longe de ser correspondida nos programas televisivos, onde a grande maioria dos apresentadores e repórteres é de cor branca. Na perspectiva da semiótica da cultura, pode-se dizer que esta mídia corporativa habita o centro da semiosfera, onde padrões mais rígidos de modelização operam e não permitem desenvolvimentos acelerados ou rupturas com os sentidos preestabelecidos. Para não afetar os índices de audiência e o faturamento com publicidade, as emissoras caminham vagarosamente em questões deste tipo – e a influência delas sobre o imaginário popular é avassaladora.
É obrigação dos grandes canais de televisão, concessões do governo a empresas privadas, respeitarem a diversidade do povo brasileiro, dando oportunidades e visibilidade aos variados estratos da população. Nisto, canais públicos como a TV Brasil, a TVE e a TV Cultura têm se saído melhor, aumentando o número de apresentadores negros e de programas voltados à cultura popular, mesmo que ainda não possam competir com o poderio dos conglomerados de comunicação.
TEXTO
Ramiro de Oliveira Simch da Silva
REFERÊNCIAS
Censo demográfico: 2010: características da população e dos domicílios: resultados do universo. Disponível em: http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/93/cd_2010_caracteristicas_pop ulacao_domicilios.pdf.
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